A liberação de uma área atualmente ocupada pelo
traçado da BR-226 abrirá caminho para a extração de mais 670 mil onças de ouro
na cidade de Currais Novos, no Rio Grande do Norte. A medida é equivalente a
20,8 toneladas do metal precioso. O volume adicional, localizado exatamente sob
da rodovia federal, será acessado por meio de um Acordo de Cooperação Técnica
firmado entre o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e
a empresa mineradora Aura Minerals. A manobra deve atrair mão de obra especializada
e aquecer a economia local.
A intervenção viabilizará a expansão do Projeto
Borborema, empreendimento que já recebeu investimentos de cerca de R$ 1 bilhão.
Com o desvio, a Aura amplia em 82% a base total de reservas do projeto,
elevando o potencial da Mina Borborema para cerca de 1,5 milhão de onças de
ouro (40,7 toneladas) e estendendo sua vida útil a céu aberto para mais de 20
anos, com produção média anual estimada em 65 mil onças (duas a 2.4 toneladas
de ouro puro).
Efeitos na economia e no comércio local
O reflexo direto da chegada da mineradora na
economia local é acompanhado pela geração de postos de trabalho e movimentação
no comércio do Seridó. Dados do Instituto de Desenvolvimento Econômico e
Estatística (IDEE) indicam que, até abril de 2026, a operação sustentava 239
empregos diretos e 919 terceirizados.
O aquecimento foi sentido no balcão das empresas da
região. “Teve um boom econômico muito grande porque veio muita gente de fora
para a instalação da planta. A rede hoteleira e de alimentos sentiu bastante,
mas houve uma inflação na moradia e no aluguel”, relata Elton Gomes Souto,
morador da cidade e sócio-diretor da Óticas Mirna, ao Movimento Econômico.
“Depois da instalação, o comércio estabilizou em um
patamar superior ao de antes”, acrescenta, lembrando que o município tem
histórico ligado à mineração desde os tempos da exploração de scheelita.
Segundo o secretário municipal de Turismo e
Desenvolvimento Econômico de Currais Novos, David Narwith, o impacto se
multiplica por diversos segmentos. “A chegada da mineradora representa um marco
importante para Currais Novos e para o Seridó. Há reflexos positivos em setores
como hospedagem, alimentação, transporte, serviços e construção civil,
aumentando a circulação de renda e contribuindo para o crescimento
sustentável”, destaca.
Salto na arrecadação e presença
internacional
O ganho de escala na operação ocorre em um momento
de consolidação da mineradora no estado. A extração oficial em Currais Novos,
iniciada em outubro de 2025, transformou o mapa da mineração potiguar.
Segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento
Econômico, da Ciência, da Tecnologia e da Inovação do RN (Sedec), o estado deu
um salto no cenário nacional da Compensação Financeira pela Exploração Mineral
(CFEM), tributo cobrado sobre a atividade, subindo da 21ª posição em 2025 para o
14º lugar até julho de 2026, superando outros polos do Nordeste como Ceará,
Maranhão, Sergipe, Pernambuco, Paraíba e Piauí.
O avanço na arrecadação reflete o volume das
operações do ativo. Somente em 2025, destaca a pasta, o estado recolheu R$ 6,9
milhões em CFEM (taxa com alíquota de 1,5% sobre o ouro), sendo que Currais
Novos recebeu R$ 3,4 milhões por ser o município produtor.
Até julho de 2026, o recolhimento acumulado no
RN atingiu R$ 11,5 milhões, distribuídos entre município produtor (60%), estado
(15%), municípios afetados (15%) e União (10%).
No comércio exterior, as exportações do
projeto, beneficiado com 85% de incentivo do Programa de Estímulo ao
Desenvolvimento Industrial do RN (Proedi), somaram US$ 112,8 milhões para o
Canadá e US$ 44,6 milhões para a Suíça em 2026, com meta de extrair entre 65
mil e 77 mil onças no ano.
“A gente entende como positiva uma instalação
da mineradora respeitando todas as leis ambientais, trazendo impacto na nossa
economia com a geração de empregos e também uma geração de divisas que ficam
para nosso estado. Inclusive, nós temos outros projetos de mineração para serem
implantados e outros que foram retomados”, avalia o secretário de
Desenvolvimento Econômico do RN, Lahyre Rosado.
Métrica operacional e valorização do ativo
Concluída em 19 meses, a Mina Borborema opera
pelo método de lavra a céu aberto e processa aproximadamente dois milhões de
toneladas de rocha mineralizada por ano. A unidade entrou em fase de ramp-up
após a emissão da primeira barra de ouro no ano passado, tendo registrado no
primeiro semestre de 2026 uma produção de 31.352 GEO (Gold Equivalent Ounce,
métrica que equivale a cerca de 975 kg de ouro).
Com a atualização dos relatórios técnicos e o
acréscimo das reservas sob a rodovia, o Valor Presente Líquido (VPL) do
projeto, indicador que mede a rentabilidade futura da jazida a valores atuais,
saltou de US$ 182 milhões para US$ 612,5 milhões.
Pelo acordo firmado com o Dnit, a Aura
Minerals assumirá a responsabilidade integral pelos projetos de engenharia,
desapropriações e execução das obras do novo traçado da via, garantindo a
continuidade do tráfego sem qualquer aporte de recursos públicos.
O início efetivo das obras e a definição dos
custos da intervenção viária dependem da aprovação final dos projetos técnicos
junto ao Dnit, além do licenciamento ambiental.
”Esse acordo representa um marco importante
que acelera de forma significativa a geração de valor em Borborema. Desde a
aquisição do projeto, o potencial de expansão levou ao planejamento de uma
planta totalmente expansível”, afirma Rodrigo Barbosa, presidente e CEO da
Aura.
Por movimento econômico.