O terreno que o senador Jaques Wagner (PT) vendeu
por R$ 15 milhões fica nas margens da Via Metropolitana, rodovia criada para
ser um eixo de expansão da Grande Salvador e que foi contratada na gestão do
próprio Jaques Wagner. Ele governou a Bahia de 2007 a 2014.
Documentos obtidos pela Folha apontam que o terreno
tem 51 mil metros quadrados, tamanho equivalente a sete campos de futebol. Foi
adquirido em março de 2000, quando Wagner era deputado federal, pelo preço de
R$ 28 mil, cerca de R$ 130 mil em valores corrigidos. Depois de 25 anos, a área
foi vendida com uma valorização de 11.400%, já descontada a inflação do período.
As terras compradas pelo senador eram uma fração de
terreno maior pertencente à Traneves Patrimonial. A empresa tem entre os sócios
Alex Grangeon Trancoso Neves, que consta como sócio e administrador do Lagoons
Empreendimentos, empreendimento residencial integrado ao projeto do novo centro
de treinamento do Esporte Clube Bahia.
Jaques Wagner foi procurado desde segunda-feira
(20), por meio de sua assessoria, mas não respondeu aos questionamentos da
reportagem.
A transferência do terreno vendido foi barrada em 25
de junho por decisão do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal
Federal), como parte da nona fase da Operação Compliance Zero. A investigação
apura irregularidades relacionadas ao Banco Master.
A interrupção temporária do negócio, realizada após
a operação da PF (Polícia Federal), foi revelada pelo jornal O Estado de S.
Paulo e confirmada pela Folha.
O terreno fica entre a Via Metropolitana e o rio
Joanes, em uma área que até o ano passado tinha uma mata preservada e raras
construções. Nos últimos meses, o terreno foi cercado e máquinas derrubaram as
áreas verdes para dar lugar ao residencial.
O empreendimento foi anunciado em abril deste ano
como o primeiro residencial de alto padrão integrado a um centro de treinamento
no Brasil, em uma parceria entre o City Football Group, a QPC Incorporadora e o
Grupo Terere.
Tanto o residencial como o centro de treinamento
serão erguidos em área que se consolidou como um novo eixo de expansão urbana
desde a inauguração da Via Metropolitana, em 2018. A rodovia liga Salvador a
Camaçari, contornando o núcleo urbano da cidade de Lauro de Freitas.
Publicações do Diário Oficial da Bahia apontam que a
via de 11,2 quilômetros vinha sendo estudada ao menos desde 2011, na gestão
Jaques Wagner. A ideia era ter uma via alternativa à estrada do Coco, principal
rodovia que liga a capital ao litoral norte da Bahia.
A obra foi viabilizada por meio de um aditamento do
prazo do contrato com a concessionária Bahia Norte, que desde 2010 geria o
sistema BA-093, que inclui rodovias na região metropolitana de Salvador. Na
época, a concessionária era comandada pelas construtoras OAS e Odebrecht, que
se desfizeram do negócio em 2021 após a crise da Operação Lava Jato.
O contrato de aditamento foi assinado por Jaques
Wagner em setembro de 2014, ampliando de 25 para 30 anos o prazo do contrato de
concessão do sistema BA-093. As obras físicas começaram em janeiro de 2015, na
gestão de Rui Costa (PT), e foram concluídas em 2018 com investimento de R$ 220
milhões.
O projeto do novo Centro de Treinamento foi
apresentado oficialmente em outubro de 2025. Em fevereiro deste ano, Jaques
Wagner participou da cerimônia que marcou o início das obras e fez um discurso
celebrando o empreendimento.
"Quem diria que a Via Metropolitana, que eu
comecei e Rui Costa terminou, hoje nos daria a possibilidade de construir o
novo Centro de Treinamento do Bahia?", postou o senador na época nas redes
sociais.
Além do terreno, o STF interrompeu o processo de venda
de um apartamento de Jaques Wagner no Corredor da Vitória, uma das áreas mais
valorizadas de Salvador, por R$ 10 milhões. O imóvel foi negociado com Marcelo
Araújo (União Brasil), prefeito de Conceição do Coité (BA).
Juntos, a venda do terreno e do apartamento
renderiam ao senador um total de R$ 25 milhões. Na última eleição que disputou,
em 2018, o petista declarou R$ 3,3 milhões em bens à Justiça Eleitoral.
Em nota, a empresa Lagoons Empreendimentos afirmou
que a venda do terreno a Jaques Wagner ocorreu no ano de 2000, há 26 anos, por
meio de operação imobiliária regular, formalizada à época pela Traneves
Patrimonial, a partir do desmembramento de uma área maior de sua propriedade.
"Trata-se de uma negociação realizada décadas
antes da concepção do empreendimento Lagoons e, portanto, sem qualquer relação
com o projeto atualmente em desenvolvimento. São operações distintas,
realizadas em contextos temporais diferentes e em estrita observância à
legislação", disse.
A empresa ainda destacou que a Traneves Patrimonial,
assim como o senador e outros donos de imóveis localizados na área do
empreendimento, é uma permutante, modalidade na qual o proprietário aporta o
terreno, em contrapartida a unidades imobiliárias.
O contrato com o senador previa o pagamento
antecipado de R$ 2 milhões, enquanto os outros R$ 13 milhões seriam pagos em
permuta física no empreendimento futuro.
Sobre a compra terreno do senador, a Lagoons disse
que todas as aquisições seguiram critérios de mercado e foram validadas por
consultorias independentes, além de passarem por diligência prévia, incluindo a
obtenção das certidões, que não apontavam qualquer restrição ao negócio.
Ainda de acordo com a empresa, o terreno foi
adquirido formalmente em maio de 2025 e integra 4% da área onde será construída
o empreendimento anexo ao centro de treinamento do Bahia.
No último fim de semana, a defesa do senador afirmou
que a venda do terreno é resultado da negociação iniciada em 2024 e formalizada
em 2025.
"Jaques Wagner já forneceu todos os
esclarecimentos necessários. Todos os méritos do procedimento estão sendo
discutidos nos autos", diz nota da equipe do senador.
Nesta semana, o senador foi intimado pela Polícia
Federal a depor em agosto na investigação relativa ao caso Master. Ele foi alvo
de uma operação em junho sob suspeita de ter recebido pagamentos do banco de
Daniel Vorcaro, por meio da empresa da nora do parlamentar e de um apartamento
em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões.
A PF apura suspeitas na atuação parlamentar do
senador em favor de Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master —o
que Wagner nega. A busca e apreensão contra o senador levou o petista a deixar
o cargo de líder do governo Lula no Senado.
Folha de São Paulo