Cláudio Oliveira
Repórter
Aos 40 anos, enquanto conciliava as exigências do
doutorado, Luciane Almeida percebeu que estava levando um estilo de vida
sedentário. Foi então que decidiu mudar os hábitos. O objetivo era simples:
cuidar da saúde física e mental. Escolheu a corrida de rua. Três anos depois,
sua rotina inclui acompanhamento nutricional, suplementação, tênis adequado,
roupas específicas, fisioterapia, pilates para fortalecimento muscular e
inscrições em provas. Sem perceber, passou a movimentar uma cadeia de pequenos
negócios que cresce em ritmo acelerado no Rio Grande do Norte. “Eu entrei para
a corrida porque ia completar 40 anos e sempre fui sedentária. Pensei que
precisava fazer uma atividade para cuidar da minha saúde física e mental. Desde
então, nunca mais parei”, conta.
A história de Luciane ajuda a explicar um movimento
identificado pelo Sebrae/RN, que elaborou um levantamento mostrando que o
número de micro e pequenas empresas ligadas ao segmento esportivo cresceu 62,5%
entre 2020 e 2025. Hoje, são 4.847 negócios formalizados, 1,5% do total de
empresas do Estado. Os pequenos negócios correspondem a 97% desse universo.
Para a gerente da Unidade de Gestão Estratégica do
Sebrae/RN, Alinne Dantas, a expansão acompanha uma mudança no comportamento da
população. “As pessoas passaram a enxergar os benefícios da atividade física.
Como a sociedade mudou, os pequenos negócios também absorveram essa mudança”,
analisa.
Segundo ela, a predominância desses empreendimentos
também se explica pelo baixo investimento necessário para iniciar a atividade.
“São negócios que normalmente começam com estruturas enxutas, facilitando a
entrada de novos empreendedores”.
Quem identificou essa oportunidade foi o empresário
Joseph de Miranda. Depois de perder cerca de 40 quilos, decidiu trocar o ramo
em que atuava havia anos pelo segmento da saúde e do bem-estar. Em novembro do
ano passado, inaugurou uma academia nas Rocas, bairro onde nasceu e onde
percebeu que havia uma demanda reprimida por um espaço mais estruturado para a
prática de atividades físicas. “Eu era uma pessoa obesa e essa transformação
despertou minha vontade de trabalhar com saúde. Fizemos um estudo de mercado e
percebemos que o bairro precisava de uma academia como essa”, lembra.
Em apenas oito meses de funcionamento, o
empreendimento reúne 12 professores, além de recepcionistas, auxiliares de
serviços gerais e instrutores de aulas coletivas. “É um setor que gera empregos
de forma direta e indireta. As academias também movimentam vestuário fitness,
suplementação, personal trainers e avaliação física”, diz o empresário.
O exemplo dele ilustra bem os números do Sebrae/RN,
segundo o qual as academias e atividades físicas respondem por 35,11% (1.702)
do número de empresas desse setor.
A expansão do mercado também abriu espaço para novos
profissionais. Recém-formada em Educação Física, Ana Lúcia Duarte Fonseca
afirma que escolheu a profissão observando justamente esse movimento. “Hoje
muitas pessoas buscam qualidade de vida. Isso amplia bastante as oportunidades
para quem trabalha na área, seja em academias ou como personal trainer”.
Na avaliação dela, a popularização da atividade
física acompanha a divulgação científica sobre seus benefícios. “A população está
entendendo que a atividade física proporciona mais qualidade de vida e
envelhecimento saudável. Isso faz crescer a procura pela musculação, pelos
treinamentos e pelas aulas coletivas”.
Espaço para novos negócios
Apesar do crescimento de 62,5% nos últimos cinco
anos, o Sebrae avalia que o segmento ainda oferece oportunidades para novos
empreendedores. Segundo Alinne Dantas, o avanço deve ocorrer principalmente em
nichos especializados. “Hoje vemos oportunidades para nutricionistas
esportivos, fisioterapeutas especializados, academias voltadas para públicos
específicos e outros serviços ligados à atividade física”.
Para o empresário Alef Barros, investir em gestão
foi decisivo para consolidar a empresa. “Quando conheci o Sebrae, fizemos
consultorias financeira, estratégica, de marketing e gestão de pessoas. Hoje é
um parceiro importante do nosso negócio porque precisamos desse conhecimento
empreendedor e o suporte do Sebrae tem sido muito importante pra gente”.
Corridas ampliam a busca por serviços
O crescimento das corridas de rua também impulsionou
uma rede de serviços voltada principalmente aos atletas amadores. O
fisioterapeuta e empresário Alef Barros acompanhou essa transformação desde o
início do seu empreendimento.
O negócio começou em uma pequena sala dentro de uma
academia de crossfit, com três fisioterapeutas dividindo os horários de
atendimento. Hoje ocupa uma sede própria em Capim Macio, reúne dez
colaboradores e realiza cerca de 200 atendimentos por semana. “A pandemia foi a
grande virada de chave. Muita gente começou a correr porque buscava ambientes
abertos. A corrida explodiu e continua crescendo”, afirma Alef Barros.
Segundo ele, cerca de 60% da clientela é formada por
corredores e triatletas amadores. “A maioria são pessoas comuns que encontraram
no esporte uma forma de cuidar da saúde e não querem deixar de treinar”,
analisa.
Além da fisioterapia, a empresa passou a oferecer
protocolos de recuperação muscular e atendimento em eventos esportivos.
Uma das pacientes é justamente Luciane Almeida,
personagem citada no início dessa reportagem. Depois de uma lesão, ela passou
cinco meses em tratamento e iniciou aulas de pilates para fortalecer a
musculatura antes de voltar às pistas. “Meu objetivo agora é correr sem dor.
Voltar às provas já é uma grande conquista”.
As atividades de fisioterapia aparecem em segundo
lugar após as academias, segundo o estudo do Sebrae/RN. São 669 negócios do
gênero entre empresas ligadas ao setor esportivo. No conjunto Cidade Satélite,
a fisioterapeuta Jeane Karla Régis também viu o perfil da clientela mudar.
A clínica, antes voltada à reabilitação ortopédica,
ampliou a atuação após integrar equipes de futebol americano e flag football.
“Hoje atendemos cada vez mais atletas, tanto na prevenção quanto na recuperação
de lesões. As pessoas passaram a enxergar a atividade física como investimento
em saúde e qualidade de vida”.
Ela afirma que pretende buscar apoio do Sebrae para
profissionalizar ainda mais a gestão da clínica e ampliar o negócio.
“Entendemos que esse apoio será importante para fortalecer a gestão e
contribuir para o crescimento da clínica.”
O esporte em números no RN
4.847
É
o número de empresas ligadas ao segmento esportivo
62,5%
É
o percentual de crescimento entre 2020 e 2025
97%
É
o percentual de micro e pequenas empresas ligadas ao setor
5.404
É o número de empregos formais gerados
Principais atividades do Setor no RN
- Academias
– 1.468
- Atividades
de fisioterapia - 669
- Comércio
varejista de artigos esportivos - 605
- Comércio
varejista de bicicletas e triciclos, peças e acessórios - 406
- Clubes
sociais, esportivos e similares – 321
- Outras
atividades de recreação e lazer - 269
- Aluguel
de equipamentos recreativos e esportivos - 245
- Produção
e promoção de eventos esportivos - 182
- Ensino
de esportes - 179
- Atividades
de profissionais de nutrição – 176