Representante comercial com CNPJ inapto
e condenado em setembro por desviar pneus do antigo patrão, ele passava os cartões
da vítima em maquininhas cadastradas no CPF do sobrinho. Em oito meses, R$ 1,5
milhão circulou pela conta.
Marcus Vinicius Gouveia Costa, representante
comercial preso
na manhã desta sexta-feira (6), em casa, em Ponta Negra, na zona Sul de
Natal, junto com o sobrinho, é suspeito de aplicar um golpe de R$ 901.544,31 em
um servidor de carreira do Estado com a promessa de lucro na compra e revenda
de pneus. O Blog do Dina teve acesso à representação criminal entregue à
delegacia em 25 de outubro e à íntegra da ação cível que corre na 18ª Vara
Cível de Natal.
O Blog do Dina recomenda, de antemão, que outras
pessoas que tenham passado pela mesma situação procurem a Delegacia
Especializada em Falsificações e Defraudações (DEFD), na Avenida Ayrton Senna,
3.134, em Neópolis, zona Sul de Natal, telefone (84) 3232-1565, para que novas
investigações possam ser abertas contra ele. Quem preferir pode registrar o
boletim pela Delegacia Virtual, no site da Polícia Civil, com a conta gov.br.
Os documentos que o blog leu indicam que o servidor não foi a única pessoa a
entregar dinheiro a Marcus.
A representação pede a abertura de inquérito por
estelionato, crime com pena de um a cinco anos de reclusão, e por lavagem de
dinheiro. Ela aponta também o sobrinho de Marcus, Higor Laureano Souza de
Albuquerque Gouveia, em cujo CPF estavam cadastradas as maquininhas que
passavam os cartões da vítima. Higor também foi preso nesta sexta. Marcus já
tem uma condenação criminal por fraude com pneus, de setembro deste ano. E
responde a pelo menos uma outra cobrança judicial, de um homem que também
passou cartão e fez transferências para ele.
Compra 78.678, venda 96.321, lucro 17.643
Segundo a ação cível, Marcus se apresentou como
representante experiente do atacado de pneus. O servidor entrava com o capital,
por PIX e, sobretudo, parcelando compras nos cartões de crédito. Marcus
cuidaria da compra, da logística e da revenda, e usaria o dinheiro das vendas
para pagar as faturas e repassar o lucro. O servidor chegou a emitir cartões
adicionais no nome de Marcus em três bancos.
As “compras” passavam em maquininhas com nomes como
MV Soluções, Distribuidora Gouveia e HL Representações. Em 9 de junho, Marcus
mandou por WhatsApp o resumo de uma operação, com a pontuação dele: “Compra
78,678,00 / Venda 96,321,00 / Lucro 17.643,00”. E emendou: “Pagamento pra terça
feira”. A resposta foi “Maravilha”.
A planilha anexada à ação soma R$ 544.340,74 em
compras parceladas entre novembro de 2025 e junho de 2026, mais R$ 46.675,83 de
juros e multas. Em março, para cobrir faturas, o servidor tomou um empréstimo
consignado de R$ 250 mil. Em julho, fez um PIX de R$ 50 mil direto para Marcus.
Segundo a ação, o dinheiro saiu do cheque especial. O nome dele foi parar no
Serasa por uma fatura de R$ 126.611,56.
Os R$ 800 mil que viraram R$ 0,99
Quando as faturas venceram sem pagamento, Marcus
passou a dizer que o dinheiro das vendas estava bloqueado pela Stone, a empresa
das maquininhas. Em 24 de agosto, perguntado por que “colocasse esse calor todo
numa pessoa física”, respondeu listando as contas: “Minha conta da Stone, Mv
representações, Distribuídora Gouveia”. O servidor completou: “800 no Higor”.
Marcus confirmou: “Isso”.
A juíza Daniella Simonetti Meira Pires de Araújo, da
18ª Vara Cível, mandou a Stone bloquear até R$ 544.340,74 nas contas de Marcus,
do sobrinho e das empresas ligadas a eles. A resposta da Stone, em 14 de
outubro, cabe numa linha: “procedeu com o bloqueio do saldo disponível nestas,
no montante de R$0,99”.
O bloqueio geral de contas bancárias de Marcus, em
mais de vinte instituições, rendeu R$ 42,62. A própria vara mandou devolver,
por “quantia irrisória”.
Nas conversas, Marcus ainda prometeu um socorro de
“680 mil” de um amigo chamado Nelson, a quem dizia estar “a serviço”. “Rapaz,
confia em mim nem que seja pela última vez”, escreveu em 1º de setembro. No dia
3, o servidor encerrou: “Essas vendas de pneus não existiram. Tudo mentira”. E,
depois: “Esse Nelson não existe”.
Por onde o dinheiro passou
Os extratos que a Stone entregou à Justiça mostram o
caminho. A conta de Higor, aberta em 2 de fevereiro deste ano para um celular
usado como maquininha, recebeu R$ 1,5 milhão em vendas antecipadas até o início
de outubro. O dinheiro não parava: no mesmo dia em que entrava, saía por PIX.
Cerca de R$ 440 mil foram para contas do próprio Marcus. R$ 205 mil voltaram
para o servidor, como os “lucros” que o mantinham no negócio. O resto se
espalhou por dezenas de pessoas.
Entre elas estão nomes que a representação cita como
outras vítimas. Um deles transferiu R$ 36 mil para a conta do sobrinho em 1º de
abril. Outro, um ex-vereador do interior, recebeu dela R$ 74 mil ao longo do
ano, no mesmo padrão dos repasses feitos ao servidor. Há ainda um terceiro
homem, que também recebeu PIX dessa conta e entrou em outubro com ação de
cobrança contra Marcus no 14º Juizado Especial Cível de Natal. O pedido fala em
“transferência bancária e pagamentos por cartão de crédito”. O juiz negou, por
ora, o bloqueio de bens que ele pediu.
Condenado por desviar pneus do patrão
Marcus não é estreante com pneus. Em 23 de setembro,
a 10ª Vara Criminal de Natal o condenou, em primeira instância, por furto
qualificado mediante fraude, em continuidade delitiva. Foi dois dias antes de a
juíza cível determinar o bloqueio de suas contas. Entre setembro de 2017 e maio
de 2018, empregado da Sta Motors, na Avenida Dão Silveira, ele era o
responsável por pedir pneus ao fornecedor. Recebia a mercadoria, não dava
entrada no estoque, vendia abaixo do preço e ficava com o dinheiro. Prejuízo:
R$ 9.165,71. Ele confessou e pagou R$ 4.931,96. Não apareceu na audiência, em
fevereiro de 2025, e foi declarado revel. A pena, de dois anos e quatro meses
em regime aberto, foi trocada por duas restrições de direito. Ele pode recorrer
em liberdade.
O CNPJ da MV Representações, aberto em 2019 para
representação comercial de peças de veículos, está inapto na Receita Federal
desde junho, por omissão de declarações. Dois bancos moveram contra ele ações
para retomar bens financiados. Numa delas, extinta em 2025, nem o réu nem o bem
foram localizados. Uma execução de 2019, de R$ 13.554,39, foi arquivada sem
bens. O apartamento que a Justiça tornou indisponível, no Residencial Veleiros,
também em Parnamirim, foi comprado em 2010 pelo Minha Casa, Minha Vida, com
financiamento da Caixa. O banco o intimou duas vezes, em 2013 e 2014, por
parcelas atrasadas, e não o encontrou.
Em 29 de outubro, uma semana antes da prisão, a 7ª
Vara de Família homologou o divórcio consensual de Marcus. No acordo, ele
assumiu dez parcelas de R$ 3.050,11 de um empréstimo contratado no nome da
ex-mulher, “cujo valor foi integralmente repassado” a ele.
O que a Justiça cível já fez
A juíza deferiu em parte a tutela de urgência. Além
do bloqueio na Stone, mandou bloquear R$ 50 mil nas contas de Marcus e tornou
indisponível o apartamento de Parnamirim. O limite é o valor do PIX de julho,
“valor para o qual há comprovação direta de repasse”. Os demais pedidos ficaram
para depois da defesa. Uma petição de 15 de outubro informou que Marcus não
morava mais no endereço de Ponta Negra que constava na ação, e a citação foi
reexpedida, em 20 de outubro, para um apartamento em Nova Parnamirim. Foi em
Ponta Negra que a polícia o encontrou nesta sexta. A Stone informou que
apresentará defesa no prazo legal.
Como funcionava o golpe dos pneus, em seis quadros
A sequência abaixo resume o golpe dos pneus,
reconstituído a partir do processo e das mensagens anexadas aos autos. As falas
nos balões são literais. Os personagens são estilizados e as cenas, fictícias.
Fonte: Blog do Dina