“A gente faz o diabo para vencer uma eleição” já
dizia a ex-presidente Dilma Rousseff. Bolsonaro fez o diabo, mas perdeu. Basta
lembrar a PEC Kamikaze, que injetou R$ 41,3 bilhões no orçamento alegando
“estado de emergência”, com tempo limitado até o fim de seu governo, passando
pelas eleições. Lula está fazendo o diabo, mas corre o risco de perder. Talvez
por isso esteja tão açodado, liberando dinheiro a sete dias do primeiro turno.
A proibição das bets talvez seja uma medida correta, mas se tomada no inicio de
seu terceiro mandato, ou ao final dele, depois das eleições.
A regulamentação das bets, que foram criadas no
governo Temer sem regras de proteção do apostador, era necessária e o governo Lula
fez bem. O governo Bolsonaro evitou regulamentar as apostas, perdeu a chance de
ganhar muito dinheiro com as outorgas e os impostos decorrentes, o que ficou
para Lula fazer. Mas já na votação do Congresso, mobilizou-se a base do governo
para retirar ou incluir obrigações, às vezes a favor das empresas estrangeiras.
Agora, soa popularesco, eleitoreiro, decretar o seu fim repentinamente.
As bets contribuíram com bilhões de reais em
impostos, ajudaram o governo a reduzir o déficit orçamentário, e, do dia para
noite, são proibidas. Mais um exemplo de insegurança jurídica típica de um país
que cuida de seus problemas como se eles fossem solucionáveis com uma canetada,
sem ligar para os rastros que deixam para trás. A fama de caloteiro persegue os
governos brasileiros, sejam eles de que tendência forem, porque temos a mania
de não resolver estruturalmente as questões, apenas damos um retoque, tomamos
decisões precipitadas, que depois podem ser revogadas de acordo com os
interesses eleitorais.
O novo programa “Desenrola” é outra decisão
eleitoreira similar à de Trump nos Estados Unidos, que prometeu U$ 5 mil se seu
partido Republicano vencer as eleições de meio de mandato. Compra de voto na
veia. Também Lula pretende gastar bilhões de reais para perdoar as dívidas
antigas limitadas a R$ 10 mil. Quem ganhará serão os bancos, que já haviam
desistido de ver esse dinheiro e agora, para limpar a ficha dos devedores,
receberão pagamento do governo.
Esse programa poderia ter sido feito depois das
eleições, em dezembro, antes do fim do terceiro mandato, ganhe ou perca Lula,
se o interesse fosse realmente ajudar os endividados. O boato sobre os
evangélicos quererem cancelar Nossa Senhora de Aparecida de ser a Padroeira do
Brasil é outro jogo sujo de última hora. Exumar uma mentira que já surgira e
fora desmentida anos antes é típico de quem está desesperado, temendo a derrota
eleitoral. Não foi preciso fuxicar o celular do Vorcaro para descobrir
mensagens de um membro do setor de comunicação da campanha de Lula estimulando
que se disseminasse o boato, que seria bom para a candidatura à reeleição.
Ambas as campanhas fazem “o diabo” para ganhar, e
por isso o índice de eleitores indecisos ou desanimados está tão grande. Tudo
indica que a campanha continuará equilibrada, até que o debate da Rede Globo na
próxima quinta-feira possa defini-la. Nenhum dos dois está em condições de
abrir mão desse embate, que evitaram durante toda campanha, por razões
diversas. Flavio Bolsonaro por temor de enfrentar Lula; o presidente, por desprezar
o oponente. Lula fez um cálculo errado ao imaginar que está disputando com
Flavio. Está disputando com o fantasma de Bolsonaro pai, e por isso está tão
difícil.
Lula parece não ter aprendido com as várias
campanhas presidenciais que disputou. Depois de três derrotas seguidas, duas no
primeiro turno para Fernando Henrique e seu Plano Real, venceu quando se
defrontou com um adversário de carne e osso, José Serra, não para utopias: o
caçador de Marajás e o Real. Ele mesmo tornou-se uma utopia, venceu as outras
eleições, e fez a sucessora. Agora, pode perder para uma distopia.
MERVAL PEREIRA - O GLOBO