Além de não ter divulgado previamente que faria
sessões de radioterapia por causa de um câncer de pele pouco agressivo retirado
do couro cabeludo, o presidente Lula (PT), 80, evitou dar detalhes do
tratamento inclusive para aliados próximos, parte deles integrantes de seu
círculo pessoal.
Dois petistas próximos de Lula há décadas relataram
à Folha, sob condição de anonimato, terem descoberto pela imprensa que o
presidente precisaria de radioterapia. Um deles contou que, em uma conversa há
poucas semanas, o chefe do governo mencionou que passaria por um tratamento
relativo ao câncer, sem falar de que tipo seria.
Lula retirou em 24 de abril um câncer basocelular,
variação menos grave e mais comum de câncer de pele. O tratamento de
radioterapia já era cogitado pela equipe médica.
A opção pela radioterapia foi sacramentada após
avaliação clínica ocorrida em 18 de maio. Naquele dia, o boletim médico
descreveu a evolução como satisfatória, "conforme o esperado, e sem
intercorrências".
Os médicos recomendaram, então, as sessões de
radioterapia em caráter preventivo, cabendo a Lula a definição da melhor data.
Segundo relatos, o presidente poderia se submeter futuramente ao procedimento.
Mas optou por passar imediatamente pelo tratamento.
A sessão da segunda-feira (25) foi definida no fim
de semana. Essa celeridade surpreendeu até mesmo colaboradores diretos de Lula.
Ainda segundo esses auxiliares, o próprio presidente foi quem orientou que o
tratamento fosse divulgado, apesar de sugestões em contrário.
O presidente tem 80 anos e concorrerá à reeleição em
outubro. Ele busca demonstrar vitalidade ao eleitorado para não dar margem a
questionamentos sobre sua capacidade física de governar.
De acordo com esses interlocutores, a prescrição não
constou do boletim médico divulgado pelo hospital Sírio Libanês após o
procedimento porque os médicos não tinham batido martelo sobre sua realização.
Pelo mesmo motivo, também ficou fora do segundo boletim, publicado em 18 de
maio depois de o presidente passar por uma consulta de acompanhamento.
A informação foi divulgada apenas na segunda-feira,
depois de o petista passar pela primeira das 15 sessões de radioterapia às
quais será submetido pelas próximas três semanas. Nesta terça (26), ele passou
pela segunda sessão e embarcou em seguida para Manaus, onde teve uma série de
compromissos políticos.
Questionada sobre o motivo para a necessidade de
tratamento não ter sido divulgada até a primeira sessão, a assessoria de
imprensa da Presidência da República afirmou que os boletins médicos são de
responsabilidade dos profissionais que tratam Lula.
"Conforme consta em todos os boletins já
divulgados, o presidente permanece em acompanhamento e os protocolos são
adotados a partir das avaliações realizadas pelos médicos", afirma a nota
do Planalto.
O Sirio-Libanês afirmou que só se manifesta por
boletins médicos.
O boletim médico no qual consta a radioterapia,
divulgado na segunda, afirma que o procedimento é preventivo. Tanto aliados de
Lula quanto médicos sem relação com o atendimento ao presidente dizem que o
tratamento não deve impedi-lo de manter as atividades habituais.
A radioterapia moderna para casos como o de Lula
consiste em bombardear com feixes de elétrons a área de pele tratada. Cada
sessão dura poucos minutos. Os efeitos colaterais tendem a ser localizados e
leves, como vermelhidão na área irradiada, irritação cutânea e queda temporária
de cabelo.
As ações do petista para demonstrar vitalidade ao
eleitorado incluem expor sua rotina de exercícios nas redes sociais e fazer pequenas
corridas em público, chegando ou saindo de um compromisso. Em 2025, ele
participou de uma caminhada em homenagem ao Ministério da Educação e correu no
trecho mais íngreme do percurso.
Além disso, como mostrou a Folha ainda no primeiro
ano do atual mandato do petista, o Planalto omitiu informações sobre a saúde do
presidente em alguns momentos para evitar que uma imagem de fragilidade fosse
transmitida.
Em 2023, por exemplo, Lula foi internado para uma
operação que corrigiria uma artrose no quadril. Depois de o presidente deixar a
mesa de cirurgia, o Planalto informou que ele também havia feito um
procedimento nas pálpebras.
De lá para cá, a Secom (Secretaria de Comunicação da
Presidência), responsável pela divulgação das informações relativas ao
presidente, tem esclarecido fatos associados à saúde de Lula apenas depois de
questionamentos da imprensa.
Em fevereiro deste ano, Lula havia passado por uma
cauterização, procedimento simples de remoção de pele. O caso, decorrente de
uma queratose, só foi esclarecido quando o presidente apareceu com uma mancha
escura no topo da cabeça em evento do Palácio do Planalto, e foi captado por
fotógrafos durante a cerimônia.
Diante dos questionamentos, a Secom informou os
detalhes de natureza e data da realização do procedimento –novamente sem
explicar o porquê da omissão da informação.
Já em abril, a Secretaria de Comunicação optou por
dizer na véspera à imprensa que Lula seria submetido a novos procedimentos.
Desta vez, foram informados de uma nova cauterização e uma infiltração no punho
para lidar com uma dor no polegar direito, como tratamento para uma tendinite.
A informação de que se tratava de um câncer veio a público só depois.
O presidente já expôs publicamente seu receio de
transmitir uma imagem de fragilidade. "Eu queria operar logo depois das
eleições. Bem, eu disse, se eu operar agora, vocês [vão] dizer ‘o Lula está
velho, ganhou as eleições e já está internado’", disse ele depois da cirurgia
no quadril, em 2023.
Integrantes do governo que tiveram despachos com o
presidente depois da retirada do câncer de pele disseram à Folha que ele está
trabalhando normalmente, com capacidade de atenção e agilidade de raciocínio.
Lula tem usado um chapéu em seus compromissos públicos. O acessório protege a
região operada do sol e não permite que ela seja vista.
Folha de São Paulo