A descoberta de que Marco Aurélio Santana Ribeiro,
ex-chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, recebeu pagamento
da empresária Roberta Luchsinger serviu para escancarar os atritos que têm
marcado as relações entre a Polícia Federal, o Supremo Tribunal Federal (STF) e
a cúpula do PT.
Não é de hoje que o ministro do STF André Mendonça
reclama do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. A portas fechadas, Mendonça
chegou a dizer que a cúpula da PF estava segurando investigações contra o
empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente e amigo de
Roberta, por causa das eleições. Além disso, avisou que, se todas as apurações
não fossem enviadas a seu gabinete – sem passar pelo crivo de outros
departamentos –, o diretor-geral da PF responderia a processo por obstrução de
Justiça.
Andrei reagiu e acionou a Advocacia-Geral da União
(AGU). Mas Jorge Messias, chefe da AGU, não vai comprar briga com Mendonça e
tenta promover o armistício. Detalhe: Messias é grato a Mendonça, que apoiou o
nome do amigo, evangélico como ele, para ocupar uma vaga no STF. A indicação,
no entanto, foi barrada pelo plenário do Senado.
O imbróglio, porém, não para aí. Nos bastidores, uma
ala do PT ataca Andrei, sob o argumento de que ele não tem pulso para conter os
“setores bolsonaristas” da Polícia Federal. Na outra ponta, ministros avaliam
que Marcola – como é conhecido o ex-chefe de gabinete – pode ter de deixar a
coordenação da campanha de Lula para evitar que as investigações sejam mais uma
ponta de lança contra ele.
O receio da equipe é que o carimbo da corrupção
paire mais uma vez sobre o QG petista, aumentando a rejeição ao presidente,
hoje em 46%, de acordo com a última pesquisa Datafolha.
Braço direito de Lula, e até pouco tempo responsável
por marcar suas audiências no Palácio do Planalto, Marcola disse, em nota, ter
feito um empréstimo com Roberta Luchsinger, quitado com uma transferência
bancária de R$ 249 mil.
O problema é que, de uma forma ou de outra, todas as
diligências têm como alvo Lulinha, filho mais velho do presidente, e suas
articulações para mostrar influência no governo federal. Roberta, por sua vez,
é apontada nos inquéritos como lobista.
Conversas da empresária obtidas pela PF revelaram
que ela planejava “abrir portas” do governo para os negócios de Antônio Camilo
Antunes, o Careca do INSS.
Marcola tem a confiança de Lula, mas enfrenta “fogo
amigo” de uma ala do governo, principalmente na Secretaria de Comunicação
Social da Presidência (Secom).
Casado com a jornalista Nicole Briones, que
administra os perfis de Lula nas redes sociais, Marcola é amigo do fotógrafo
Ricardo Stuckert, o Stuquinha. Apelidado de “ministro do audiovisual”,
Stuquinha também saiu do governo para cuidar da imagem de Lula na campanha.
Mas o tempo fechou no Planalto quando, dias antes de
deixar o cargo, Marcola teve uma discussão acalorada com o publicitário Sidônio
Palmeira, ministro da Comunicação Social.
Tanto o ex-chefe de gabinete como Stuquinha e Nicole
sempre acharam que Sidônio vende uma imagem “adocicada” de Lula, recorrendo a
“gatinhos” e “capivaras”, por exemplo, para explicar programas federais.
Marcola observou até mesmo que uma campanha que tem o senador Flávio Bolsonaro
(PL) como principal oponente de Lula precisava ser mais agressiva.
O presidente já havia feito essa queixa para o
próprio Sidônio e, mais uma vez, concordou com o diagnóstico. Não foi à toa
que, na convenção do PT, realizada no domingo, 2, Lula disse que não vai ser
mais “Lulinha paz e amor”. Até agora, porém, ninguém sabe qual será, na
prática, o figurino do “Lulinha porreta” que ele pretende vestir.
Estadão