sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Endividamento afeta consumo em bares e restaurantes no RN

 


O endividamento da população está pressionando o setor de alimentação fora do lar, que tem sentido redução no movimento e dificuldade em repassar custos e reajustar preços. Para a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), o quadro ameaça, no curto e médio prazos, o setor, que sofre também para colocar as contas em dia. Em agosto, segundo a entidade, 48% dos bares e restaurantes do RN estavam com algum pagamento em atraso, índice que ficou acima dos 37% registrados no mês em todo o Brasil.

Entre essas estabelecimentos potiguares endividados, 80% têm impostos federais pendentes e 44% têm tributos estaduais. A Abrasel classifica o cenário como delicado. “O endividamento das famílias é uma bomba-relógio. Ainda não explodiu no caixa dos restaurantes porque o emprego segue firme. Mas cada real que vai para uma dívida atrasada deixa de ir para a mesa do bar. Quando o orçamento apertar de vez, o almoço fora e o jantar de sábado podem estar entre os primeiros cortes”, afirma Paulo Solmucci, presidente da Abrasel no Brasil.

Em todo o país, de acordo com dados da Serasa compilados pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), no mês passado o número de pessoas inadimplentes chegou a 83,9 milhões (51% da população adulta), cujas dívidas somam R$ 592 bilhões.

A situação pressiona ainda mais os estabelecimentos. No RN, 39% não conseguiram reajustar valores nos últimos 12 meses (no período finalizado em agosto). No país, a taxa ficou em 36%. “Hoje, os principais problemas são o endividamento, os juros altos, o aumento dos custos e a dificuldade de repassar tudo isso para o preço final. O setor precisa de crédito mais barato, condições melhores para regularizar as dívidas e mais previsibilidade para conseguir planejar”, avalia Thiago Machado, presidente da Abrasel-RN.

A Abrasel aponta que a inadimplência aumentou após a forte expansão do crédito. O crédito para pessoas físicas cresceu 90% entre 2011 e julho de 2026, enquanto os juros elevados tornaram as parcelas mais pesadas. Em junho, as famílias destinavam 28,85% da renda ao pagamento de dívidas.

Ainda de acordo com a Abrasel, em fevereiro de 2026 restavam às famílias 21% da renda depois de pagar itens essenciais, impostos e dívidas. É o menor nível desde 2011, quando começa a série. O dados foram levantados pela entidade junto à Tendências Consultoria.

Em Natal, os estabelecimentos têm sentido o impacto. No restaurante de José Apolinário, no bairro Alecrim, apesar de intenso, o movimento caiu cerca de 20% nos últimos meses. “Sempre que existe escassez de dinheiro no bolso, a primeira coisa que as pessoas fazem é parar de ir ao restaurante. Mesmo aqui que é uma área comercial, com muitos trabalhadores, a gente percebe isso, porque as pessoas preferem trazer a marmita de casa”, relata.

No estabelecimento de Lucas Arthur, também no Alecrim, o movimento caiu 30% nos últimos três meses. “As pessoas estão sem dinheiro e consomem menos. Isso é muito ruim. Eu não estou endividado, mas tenho amigos que pegaram empréstimo no banco e não conseguem pagar, porque precisam honrar compromissos com funcionários, água, luz e outros”, conta.

O presidente da Abrasel-RN diz não haver um estudo que indique queda no movimento de bares e restaurantes no estado, mas fala que é notável que o empresário tem arcado cada vez mais com os custos mensais sem nenhuma contrapartida. “O consumidor está muito sensível a preço. O empresário sabe que, se repassar todo o aumento dos custos, pode acabar impactando o consumo e a própria receita. Então, muitas vezes, esse custo está ficando com o proprietário”, diz Thiago Machado.

Apostas drenam o consumo

Um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgado em abril, estima que as apostas online tiraram R$ 143 bilhões do varejo entre janeiro de 2023 e março de 2026. Segundo a CNC, as bets também levaram 270 mil famílias à inadimplência severa, com atrasos de mais de 90 dias, fator que também recai sobre o setor de bares e restaurantes.

Thiago Machado, no entanto, afirma que no cenário local não existe um levantamento que permita dizer quanto do consumo em bares e restaurantes foi direcionado para as apostas. No entanto, segundo ele, “é evidente que quando uma parte da renda das famílias é comprometida com as bets, sobra menos dinheiro para o consumo”.

“Há casos de funcionários que comprometem a renda com as bets, adoecem ou chegam ao ponto de provocar a própria demissão para receber as verbas rescisórias e voltar a apostar. Isso acaba atingindo também as empresas, que perdem profissionais e enfrentam ainda mais dificuldade para formar equipes”, afirmou.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

TANGARÁ NAS URNAS: O que a eleição de 2022 deixou registrado e como está o cenário de 2026

  Quatro anos depois, os números de 2022 continuam sendo uma referência histórica para entender a força eleitoral de diferentes grupos em Ta...