O endividamento da população está pressionando o
setor de alimentação fora do lar, que tem sentido redução no movimento e
dificuldade em repassar custos e reajustar preços. Para a Associação Brasileira
de Bares e Restaurantes (Abrasel), o quadro ameaça, no curto e médio prazos, o
setor, que sofre também para colocar as contas em dia. Em agosto, segundo a
entidade, 48% dos bares e restaurantes do RN estavam com algum pagamento em
atraso, índice que ficou acima dos 37% registrados no mês em todo o Brasil.
Entre essas estabelecimentos potiguares endividados,
80% têm impostos federais pendentes e 44% têm tributos estaduais. A Abrasel
classifica o cenário como delicado. “O endividamento das famílias é uma
bomba-relógio. Ainda não explodiu no caixa dos restaurantes porque o emprego
segue firme. Mas cada real que vai para uma dívida atrasada deixa de ir para a
mesa do bar. Quando o orçamento apertar de vez, o almoço fora e o jantar de
sábado podem estar entre os primeiros cortes”, afirma Paulo Solmucci,
presidente da Abrasel no Brasil.
Em todo o país, de acordo com dados da Serasa
compilados pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), no mês
passado o número de pessoas inadimplentes chegou a 83,9 milhões (51% da
população adulta), cujas dívidas somam R$ 592 bilhões.
A situação pressiona ainda mais os estabelecimentos.
No RN, 39% não conseguiram reajustar valores nos últimos 12 meses (no período
finalizado em agosto). No país, a taxa ficou em 36%. “Hoje, os principais
problemas são o endividamento, os juros altos, o aumento dos custos e a
dificuldade de repassar tudo isso para o preço final. O setor precisa de
crédito mais barato, condições melhores para regularizar as dívidas e mais
previsibilidade para conseguir planejar”, avalia Thiago Machado, presidente da
Abrasel-RN.
A Abrasel aponta que a inadimplência aumentou após a
forte expansão do crédito. O crédito para pessoas físicas cresceu 90% entre
2011 e julho de 2026, enquanto os juros elevados tornaram as parcelas mais
pesadas. Em junho, as famílias destinavam 28,85% da renda ao pagamento de
dívidas.
Ainda de acordo com a Abrasel, em fevereiro de 2026
restavam às famílias 21% da renda depois de pagar itens essenciais, impostos e
dívidas. É o menor nível desde 2011, quando começa a série. O dados foram
levantados pela entidade junto à Tendências Consultoria.
Em Natal, os estabelecimentos têm sentido o impacto.
No restaurante de José Apolinário, no bairro Alecrim, apesar de intenso, o
movimento caiu cerca de 20% nos últimos meses. “Sempre que existe escassez de
dinheiro no bolso, a primeira coisa que as pessoas fazem é parar de ir ao
restaurante. Mesmo aqui que é uma área comercial, com muitos trabalhadores, a
gente percebe isso, porque as pessoas preferem trazer a marmita de casa”,
relata.
No estabelecimento de Lucas Arthur, também no
Alecrim, o movimento caiu 30% nos últimos três meses. “As pessoas estão sem
dinheiro e consomem menos. Isso é muito ruim. Eu não estou endividado, mas
tenho amigos que pegaram empréstimo no banco e não conseguem pagar, porque
precisam honrar compromissos com funcionários, água, luz e outros”, conta.
O presidente da Abrasel-RN diz não haver um estudo
que indique queda no movimento de bares e restaurantes no estado, mas fala que
é notável que o empresário tem arcado cada vez mais com os custos mensais sem
nenhuma contrapartida. “O consumidor está muito sensível a preço. O empresário
sabe que, se repassar todo o aumento dos custos, pode acabar impactando o
consumo e a própria receita. Então, muitas vezes, esse custo está ficando com o
proprietário”, diz Thiago Machado.
Apostas drenam o consumo
Um estudo da Confederação Nacional do Comércio de
Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgado em abril, estima que as apostas
online tiraram R$ 143 bilhões do varejo entre janeiro de 2023 e março de 2026.
Segundo a CNC, as bets também levaram 270 mil famílias à inadimplência severa,
com atrasos de mais de 90 dias, fator que também recai sobre o setor de bares e
restaurantes.
Thiago Machado, no entanto, afirma que no cenário
local não existe um levantamento que permita dizer quanto do consumo em bares e
restaurantes foi direcionado para as apostas. No entanto, segundo ele, “é
evidente que quando uma parte da renda das famílias é comprometida com as bets,
sobra menos dinheiro para o consumo”.
“Há casos de funcionários que comprometem a renda
com as bets, adoecem ou chegam ao ponto de provocar a própria demissão para
receber as verbas rescisórias e voltar a apostar. Isso acaba atingindo também
as empresas, que perdem profissionais e enfrentam ainda mais dificuldade para
formar equipes”, afirmou.

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