sábado, 28 de março de 2026

Lula blefou ou errou na análise do embate com Flávio Bolsonaro

 


Até o final do ano passado, o discurso predominante no Palácio do Planalto era o de que enfrentar um herdeiro direto da família Bolsonaro seria o “melhor dos mundos” para a disputa presidencial deste ano. A lógica era de que a rejeição ao sobrenome garantiria um teto eleitoral intransponível para a oposição. No entanto, o que parecia um cenário controlado revelou-se um blefe ou um grande erro de análise do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), diante do crescimento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas. Na Atlas/Bloomberg desta semana, Flávio registrou 47,6% e Lula 46,6% em eventual segundo turno.

A estratégia petista de apostar na polarização direta com a família Bolsonaro visava transformar a eleição de 2026 em uma nova edição de 2022. Contudo, os levantamentos mais recentes apontam para uma armadilha. Com o clima plebiscitário, o eleitor não está mais julgando o passado de Bolsonaro, mas sim respondendo a seguinte pergunta: Lula merece mais quatro anos no governo?“.

Pesquisa Genial/Quaest divulgada neste mês de março, mostrou uma inversão de humor perigosa para o governo. Pela primeira vez, o medo da continuidade do governo Lula (43%) superou numericamente o temor do retorno da família Bolsonaro ao poder (42%). Além disso, a desaprovação do governo cresce em redutos antes inabaláveis.

Flávio é a voz de Bolsonaro, com uma modulação que o núcleo duro do PT não previu o efeito. Além disso, ele tem uma possibilidade que nenhum outro candidato da direita teria condições de fazer, na avaliação dos próprios correligionários. Em razão de seu sobrenome, há uma complacência maior do eleitorado bolsonarista.

Um exemplo citado por lideranças do PL foi uma recente postagem de Flávio utilizando a linguagem neutra (“todes”). Seria um aceno a outros grupos ou uma ironia fina? Pessoas envolvidas na pré-campanha do senador perceberam que os internautas manifestaram essa dúvida. Houve eleitor dele irritado com a postagem, mas o saldo final foi considerado positivo e ainda provocou os adversários petistas.

 Aliados de Lula admitem reservadamente que o eleitor conservador aceita provocações e acenos que só um Bolsonaro pode fazer sem parecer “traidor” da causa.

Seria impossível Tarcísio de Freitas (Republicanos), por exemplo, fazer menção similar sem ser cancelado imediatamente pelo eleitor bolsonarista, caso fosse ele o presidenciável. A análise também é feita pelos pares de Flávio, inclusive aqueles que defendiam o governador de São Paulo na disputa ao Planalto por ser uma voz que conversa com segmentos mais amplos da sociedade.

Se em dezembro o Planalto respirava aliviado com a possibilidade de enfrentar o filho do 01, hoje o clima é de alerta máximo. Flávio é um adversário que aprendeu a usar as armas da polarização com um polimento que o pai não teve.

Crise do STF também caiu no colo de Lula e piorou cenário no embate com Flávio

O tabuleiro de 2026 é ainda mais complexo devido ao clima de insatisfação popular com o Poder Judiciário. Pesquisas Genial/Quaest e da Atlas/Bloomberg de março mostram que a desconfiança no STF atingiu o patamar crítico de 60% e que para 47% dos brasileiros, o Supremo Tribunal Federal (STF) está “totalmente envolvido” com o escândalo do Banco Master.

Esse sentimento alimenta diretamente o discurso bolsonarista de “perseguição” e fortalece a narrativa de vitimização de Jair Bolsonaro, que Flávio explora em seus discursos. Além disso, para o cidadão brasileiro a linha entre justiça e política tornou-se tênue.

Embora o banqueiro tivesse relação com políticos de todas as vertentes, o governo Lula, visto como beneficiário desse sistema, paga a conta da impopularidade das Cortes.

A pesquisa mostrou a percepção dos brasileiros sobre o envolvimento do Congresso Nacional, governo federal, do Banco Central e dos governos estaduais e municipais com o caso Master. Em relação ao governo Lula, 43% apontam “total envolvimento”.

O Planalto já fez ajustes nas abordagens sobre o escândalo, classificado pelo ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como o maior do sistema financeiro, mas não conseguiu descolar sua imagem do caso. A ordem é para os governistas não ficarem na defensiva, destacarem que a investigação das irregularidades foi aberta no governo Lula e tentarem colar o escândalo com o governo passado.

Coluna do Estadão

 

 

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