Até o final do ano passado, o discurso predominante
no Palácio do Planalto era o de que enfrentar um herdeiro direto da família
Bolsonaro seria o “melhor dos mundos” para a disputa presidencial deste ano. A
lógica era de que a rejeição ao sobrenome garantiria um teto eleitoral
intransponível para a oposição. No entanto, o que parecia um cenário controlado
revelou-se um blefe ou um grande erro de análise do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva (PT), diante do crescimento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas
pesquisas. Na Atlas/Bloomberg desta semana, Flávio registrou 47,6% e Lula 46,6%
em eventual segundo turno.
A estratégia petista de apostar na polarização
direta com a família Bolsonaro visava transformar a eleição de 2026 em uma nova
edição de 2022. Contudo, os levantamentos mais recentes apontam para uma
armadilha. Com o clima plebiscitário, o eleitor não está mais julgando o
passado de Bolsonaro, mas sim respondendo a seguinte pergunta: Lula merece mais
quatro anos no governo?“.
Pesquisa Genial/Quaest divulgada neste mês de março,
mostrou uma inversão de humor perigosa para o governo. Pela primeira vez, o
medo da continuidade do governo Lula (43%) superou numericamente o temor do
retorno da família Bolsonaro ao poder (42%). Além disso, a desaprovação do
governo cresce em redutos antes inabaláveis.
Flávio é a voz de Bolsonaro, com uma modulação que o
núcleo duro do PT não previu o efeito. Além disso, ele tem uma possibilidade
que nenhum outro candidato da direita teria condições de fazer, na avaliação
dos próprios correligionários. Em razão de seu sobrenome, há uma complacência
maior do eleitorado bolsonarista.
Um exemplo citado por lideranças do PL foi uma
recente postagem de Flávio utilizando a linguagem neutra (“todes”). Seria um
aceno a outros grupos ou uma ironia fina? Pessoas envolvidas na pré-campanha do
senador perceberam que os internautas manifestaram essa dúvida. Houve eleitor
dele irritado com a postagem, mas o saldo final foi considerado positivo e
ainda provocou os adversários petistas.
Seria impossível Tarcísio de Freitas (Republicanos),
por exemplo, fazer menção similar sem ser cancelado imediatamente pelo eleitor
bolsonarista, caso fosse ele o presidenciável. A análise também é feita pelos
pares de Flávio, inclusive aqueles que defendiam o governador de São Paulo na
disputa ao Planalto por ser uma voz que conversa com segmentos mais amplos da
sociedade.
Se em dezembro o Planalto respirava aliviado com a
possibilidade de enfrentar o filho do 01, hoje o clima é de alerta máximo.
Flávio é um adversário que aprendeu a usar as armas da polarização com um
polimento que o pai não teve.
Crise do STF também caiu no colo de Lula e piorou cenário
no embate com Flávio
O tabuleiro de 2026 é ainda mais complexo devido ao
clima de insatisfação popular com o Poder Judiciário. Pesquisas Genial/Quaest e
da Atlas/Bloomberg de março mostram que a desconfiança no STF atingiu o patamar
crítico de 60% e que para 47% dos brasileiros, o Supremo Tribunal Federal (STF)
está “totalmente envolvido” com o escândalo do Banco Master.
Esse sentimento alimenta diretamente o discurso
bolsonarista de “perseguição” e fortalece a narrativa de vitimização de Jair
Bolsonaro, que Flávio explora em seus discursos. Além disso, para o cidadão
brasileiro a linha entre justiça e política tornou-se tênue.
Embora o banqueiro tivesse relação com políticos de
todas as vertentes, o governo Lula, visto como beneficiário desse sistema, paga
a conta da impopularidade das Cortes.
A pesquisa mostrou a percepção dos brasileiros sobre
o envolvimento do Congresso Nacional, governo federal, do Banco Central e dos
governos estaduais e municipais com o caso Master. Em relação ao governo Lula,
43% apontam “total envolvimento”.
O Planalto já fez ajustes nas abordagens sobre o
escândalo, classificado pelo ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como o
maior do sistema financeiro, mas não conseguiu descolar sua imagem do caso. A
ordem é para os governistas não ficarem na defensiva, destacarem que a
investigação das irregularidades foi aberta no governo Lula e tentarem colar o
escândalo com o governo passado.
Coluna do Estadão

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