O presidente Lula disse em Goiás que a economia vai
bem, mas as pessoas gastam demais com compras pelo celular e cuidados com seus
cachorros. Assim, ficam endividadas e, quando o salário acaba, elas “se zangam”
e põem a culpa no governo. Lula disse até pensar em promover uma campanha na TV
para ensinar o povo a gastar direito. Deve achar que, se os brasileiros pararem
de torrar dinheiro com bobagens, finalmente perceberão os méritos de sua
administração e votarão nele.
Lula não se conforma com o que lhe parece ser a
ingratidão do eleitorado. Aliados relatam que, cada vez que recebe o resultado
de uma pesquisa eleitoral, faz a mesma pergunta: por que motivo as “entregas”
do governo — como ampliação do Bolsa Família, Pé-de-Meia ou isenção do IR — não
mexem com os ponteiros da sua popularidade? Ou, como ele disse no discurso em
Goiás, se “o time ganhou”, por que a plateia não está gostando do espetáculo?
Uma pesquisa Quaest a que a coluna teve acesso
oferece algumas pistas para os dilemas presidenciais. A pesquisa foi feita com
grupos focais de eleitores “independentes”, essa estreita faixa de indecisos
que não são Lula nem Bolsonaro — e que, em última análise, definirão a eleição.
Sobre os programas sociais cujo reconhecimento Lula reclama, os grupos
pesquisados têm duas percepções. A primeira é que, ao criá-los ou ampliá-los, o
governo não faz mais que sua obrigação. Trata-se menos de benefício que de
dever do Estado. A segunda percepção é que as realizações do presidente podem
ser boas, mas são “insuficientes”, já que Lula deixou de cumprir promessas de
campanha — a “volta da picanha” é invariavelmente lembrada.
É tamanho o mau humor do eleitor independente para
com o governo que até aquilo que, aos olhos do PT, parecia pauta positiva — o
combate ao feminicídio — se revela um ônus para Lula. Na opinião dos eleitores
ouvidos pela Quaest, “se a violência contra as mulheres está piorando, é porque
o governo não está resolvendo o problema”. E lá vai mais um passivo para a
conta do petista.
O eleitorado nem-nem (nem Lula nem Bolsonaro) acha
que seu poder de compra nos supermercados derreteu, reclama do peso dos novos
impostos e teme o avanço das facções criminosas. A essas queixas, se somam
ainda a corrupção e as filas do SUS.
— O sentimento é de que Lula entrega com uma mão e
retira com a outra — diz o estudo.
Ao dizer que o brasileiro gasta demais, e por isso
não percebe que a economia vai bem, Lula reforça outra percepção captada pela
Quaest. De que ele, pela sétima vez candidato a presidente, envelheceu — e não
apenas fisicamente. A figura mítica que exercia fascínio sobre as massas hoje
demonstra dificuldade de compreender os novos hábitos de consumo, as novas
tecnologias, os desejos dos trabalhadores de aplicativo, dos empreendedores que
não querem carteira assinada e dos jovens em geral — é no segmento de 16 a 34
anos que o governo tem sua maior desaprovação.
Lula reinou soberano e incontestado em seu partido
por mais de quatro décadas, período em que trabalhou ativamente para não fazer
sucessor. O fato de a esquerda, hoje, se ver novamente com o bolsonarismo nos
calcanhares é consequência direta da falta de alternativas no campo que Lula
salgou. Agora, com a desistência de Ratinho Junior e a provável entrada de Ronaldo
Caiado no páreo, pesquisadores já admitem a hipótese de a eleição se encerrar
no primeiro turno, com o campo bolsonarista forçando uma ordem unida em nome do
antipetismo, e Lula partindo para o tudo ou nada. Para aumentar suas chances
nessa ofensiva, porém, convém ao presidente deixar o estado de negação — culpar
a plateia pela má qualidade do espetáculo não costuma aumentar a bilheteria.
Thaís Oyama - O Globo

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