O Programa Voa Brasil, que prometia deslocar das
rodoviárias para os aeroportos uma massa de viajantes, sobretudo aposentados e
pensionistas do INSS, parecia fadado ao fracasso desde a concepção. Seu vezo
populista mal era disfarçado. Publicamente, o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva prometeu “fazer o pobre andar de avião de novo” por meio da oferta de
passagens aéreas para grupos específicos por módicos R$ 200.
Para surpresa de rigorosamente ninguém, o Voa Brasil
jamais decolou e chegou a seu 17.º mês com um volume acumulado de vendas de
apenas 1,7% dos 3 milhões de bilhetes anunciados como meta para o primeiro ano
de vigência do programa federal.
Em março de 2023, com o alegado propósito de
democratizar o acesso ao transporte aéreo, o então ministro de Portos e
Aeroportos, Márcio França, anunciou o programa de redução do valor das
passagens no mais puro estilo lulopetista: não apresentou o custo do programa,
não indicou de onde viriam os recursos para bancá-lo, não divulgou se estudos
de demanda foram realizados nem apresentou os benefícios para os usuários e as
empresas do setor. França disse apenas que não haveria subsídios e que o
programa estaria baseado na ocupação de assentos ociosos em época de baixa
temporada.
A bravata de França deu azo à primeira bronca
pública de Lula em toda a equipe. Na reunião ministerial preparatória para o
balanço de cem dias de governo, o presidente ordenou que qualquer “genialidade”
de seus ministros teria de passar antes pela Casa Civil. Ora, se nem Lula, com
sua notória propensão à cortesia com chapéu alheio, acreditava na capacidade de
o Voa Brasil decolar, seria mais prudente ter abandonado a ideia.
Um levantamento do Estadão/Broadcast, com base
em dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), mostrou que, no transporte
aéreo nacional, cerca de 30 milhões de assentos ficaram ociosos desde julho de
2024, quando o programa entrou em vigor após muitas rodadas de negociação com
companhias aéreas. Mas, apesar da sobra de assentos, só 52 mil bilhetes foram
vendidos pelo Programa Voa Brasil, que, em sua versão final, terminou por
oferecer possibilidade de compra apenas a aposentados que não tivessem viajado
de avião nos 12 meses anteriores. Antes, prometia atender também a servidores
públicos e estudantes.
Entre o anúncio da ideia “genial” e sua
concretização, o programa serviu de barganha para as demandas não atendidas do
setor aéreo, como mostrou a reportagem deste jornal. Ademais, na campanha em
2022, Lula tomou para si láureas que não lhe cabiam ao fazer a promessa de
repovoar os aeroportos com seu populismo inconsequente.
Na verdade, a partir dos anos 2000, o País assistiu
a uma significativa transferência de passageiros das rodoviárias para os
aeroportos por fatores ligados à estabilização econômica iniciada em 1994, com
o advento do Plano Real. A partir daí, o setor aéreo passou por
desregulamentação, a concorrência aumentou e companhias de baixo custo foram
criadas.
São políticas estruturantes que têm o condão de
alterar a realidade de um setor econômico. Programas pretensamente geniais
podem fazer barulho, mas não dão resultado.
Opinião do Estadão

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