sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Opinião do Estadão: O Voa Brasil não saiu do chão

 


O Programa Voa Brasil, que prometia deslocar das rodoviárias para os aeroportos uma massa de viajantes, sobretudo aposentados e pensionistas do INSS, parecia fadado ao fracasso desde a concepção. Seu vezo populista mal era disfarçado. Publicamente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu “fazer o pobre andar de avião de novo” por meio da oferta de passagens aéreas para grupos específicos por módicos R$ 200.

Para surpresa de rigorosamente ninguém, o Voa Brasil jamais decolou e chegou a seu 17.º mês com um volume acumulado de vendas de apenas 1,7% dos 3 milhões de bilhetes anunciados como meta para o primeiro ano de vigência do programa federal.

Em março de 2023, com o alegado propósito de democratizar o acesso ao transporte aéreo, o então ministro de Portos e Aeroportos, Márcio França, anunciou o programa de redução do valor das passagens no mais puro estilo lulopetista: não apresentou o custo do programa, não indicou de onde viriam os recursos para bancá-lo, não divulgou se estudos de demanda foram realizados nem apresentou os benefícios para os usuários e as empresas do setor. França disse apenas que não haveria subsídios e que o programa estaria baseado na ocupação de assentos ociosos em época de baixa temporada.

A bravata de França deu azo à primeira bronca pública de Lula em toda a equipe. Na reunião ministerial preparatória para o balanço de cem dias de governo, o presidente ordenou que qualquer “genialidade” de seus ministros teria de passar antes pela Casa Civil. Ora, se nem Lula, com sua notória propensão à cortesia com chapéu alheio, acreditava na capacidade de o Voa Brasil decolar, seria mais prudente ter abandonado a ideia.

Um levantamento do Estadão/Broadcast, com base em dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), mostrou que, no transporte aéreo nacional, cerca de 30 milhões de assentos ficaram ociosos desde julho de 2024, quando o programa entrou em vigor após muitas rodadas de negociação com companhias aéreas. Mas, apesar da sobra de assentos, só 52 mil bilhetes foram vendidos pelo Programa Voa Brasil, que, em sua versão final, terminou por oferecer possibilidade de compra apenas a aposentados que não tivessem viajado de avião nos 12 meses anteriores. Antes, prometia atender também a servidores públicos e estudantes.

Entre o anúncio da ideia “genial” e sua concretização, o programa serviu de barganha para as demandas não atendidas do setor aéreo, como mostrou a reportagem deste jornal. Ademais, na campanha em 2022, Lula tomou para si láureas que não lhe cabiam ao fazer a promessa de repovoar os aeroportos com seu populismo inconsequente.

Na verdade, a partir dos anos 2000, o País assistiu a uma significativa transferência de passageiros das rodoviárias para os aeroportos por fatores ligados à estabilização econômica iniciada em 1994, com o advento do Plano Real. A partir daí, o setor aéreo passou por desregulamentação, a concorrência aumentou e companhias de baixo custo foram criadas.

São políticas estruturantes que têm o condão de alterar a realidade de um setor econômico. Programas pretensamente geniais podem fazer barulho, mas não dão resultado.

Opinião do Estadão

 

 

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