sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Opinião do Estadão: A salgada conta do Master para os contribuintes

 


A tentativa de salvamento do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB) sairá cara para os contribuintes. O BRB informou nesta semana que poderá vir a receber aportes do governo do Distrito Federal para cobrir os eventuais prejuízos pela compra de carteiras de crédito podre do Master. O valor do rombo ainda será apurado pelo Banco Central e por uma auditoria independente, mas, segundo o BRB, um plano de capital já está pronto e “prevê aporte direto do controlador, que já sinalizou com essa possibilidade”.

A história tem um início inacreditável, mas seu fim era previsível. Em março do ano passado, o conselho do BRB aprovou a compra de 58% do capital do Master por cerca de R$ 2 bilhões. Parecia um passo arriscado para uma instituição financeira estatal, não apenas pelo valor da operação, mas pela má fama do Master no mercado financeiro. À época já eram conhecidas as dificuldades do banco e de seu dono, Daniel Vorcaro.

O Banco Central (BC) levou cinco meses para analisar a operação. Sua preocupação era evitar que os problemas do Master fossem transferidos ao BRB. Lideranças do Congresso, da Câmara Legislativa do Distrito Federal e do governo do DF, no entanto, não escondiam a impaciência e pressionavam para que a operação fosse aprovada o mais rapidamente possível.

O que não se sabia, à época, era que as duas instituições, em paralelo, já vinham estreitando vínculos. Entre janeiro e maio, o Master vendeu ao BRB R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consignado falsas. Meses antes, fundos administrados por empresas do grupo Master haviam comprado ações do BRB.

A compra do Master pelo BRB acabou por ser vetada pelo Banco Central em setembro. Em 18 de novembro, a operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal (PF), levou Vorcaro à prisão quando ele tentava deixar o País. No mesmo dia, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição, transformando o BRB em um credor.

A maior parte dos R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito falsas teria sido devolvida pelo Master ao BRB na forma de outros ativos do Master, mas cerca de R$ 2 bilhões não teriam sido recuperados. O fato é que ainda não se sabe o real tamanho do prejuízo que terá de ser coberto pelo governo do Distrito Federal.

O caso do BRB é um exemplo do problema que empresas estatais podem se tornar para os governos que as controlam e, em última instância, para os contribuintes que financiam o Estado por meio de impostos. Os Correios, por exemplo, acabaram de obter um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a cinco bancos, inclusive a Caixa e o Banco do Brasil, mas já admitiram que precisarão de um aporte adicional de até R$ 8 bilhões da União até 2027.

Quando há um rombo em uma estatal, seja por má gestão, corrupção ou qualquer outro motivo, a conta é sempre muito salgada, situação que muitas vezes é agravada pela lentidão que envolve os processos decisórios no setor público e pelo negacionismo dos governos em reconhecer a dimensão do problema. Por isso mesmo, o socorro deveria ser atrelado a contrapartidas claras, como o aprimoramento de mecanismos de controle interno e governança e definição de responsabilidades.

Nesse sentido, o BRB ainda tem muitas explicações a dar, a começar pelo fato de ter pagado tão caro por ativos inexistentes sem exigir documentação mínima e um instrumento contratual firmado. É essencial apurar se isso ocorreu por conivência ou negligência – ou, nas palavras da Justiça, por “pura camaradagem” – para garantir que isso não se repita.

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), por sua vez, precisa esclarecer de onde virá o dinheiro para salvar um banco que se tornou um braço de seu governo nos últimos anos, mesmo porque parece faltar recursos para áreas prioritárias para os brasilienses, como a saúde.

Governar é fazer escolhas, e entre garantir a prestação dos serviços públicos e socorrer uma estatal, é bem provável que a população preferisse a primeira opção. Tudo isso só reforça a tese de que a existência de estatais deveria ser uma exceção, como, aliás, já estabelece a Constituição.

Opinião do Estadão

 

 

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