De acordo com o levantamento mais recente da
Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito
Telefônico (Vigitel Brasil), Natal é a capital do Nordeste com o maior índice
de diabéticos, com 11,8% da população diagnosticada com a doença. A cidade
ocupa ainda a quarta posição no país. Apesar dos números, pacientes enfrentam
dificuldades no acesso a insumos essenciais para o tratamento, o que agrava
ainda mais a situação de saúde pública.
Os números se referem a 2023, ano do levantamento
mais recente. Em Natal, a prevalência de diabetes aumentou três pontos
percentuais entre 2021 e 2023, totalizando 77.176 pessoas diagnosticadas com a
doença. Quando comparada a outras capitais do Brasil, Natal fica atrás apenas
de São Paulo (12,1%), Distrito Federal (12,1%) e Porto Alegre (12%).
A doença atinge mais mulheres do que homens em
Natal. Entre a população geral, 6,47% das mulheres são diagnosticadas com
diabetes, enquanto 5,37% dos homens têm a doença. A situação é ainda mais
preocupante entre os idosos: 36,4% das pessoas com 65 anos ou mais na cidade
vivem com diabetes.
Jihane Paiva, endocrinologista do Huol-UFRN-Ebserh,
revela que o aumento no número de casos de diabetes segue uma tendência
mundial, inclusive entre os mais jovens. “Isso ocorre em virtude dos fatores de
risco para desenvolver a doença. Podemos citar a obesidade, sobrepeso, aumento
da circunferência abdominal, sedentarismo, dislipidemia e hipertensão”, disse.
Segundo ela, muitos desses fatores de risco estão
diretamente relacionados ao aumento do consumo de ultraprocessados, relação já
comprovada em diversos estudos. Quanto maior o consumo desse tipo de alimento,
maior o risco de aumento do tecido adiposo, o que, por sua vez, eleva
significativamente as chances de desenvolver diabetes tipo 2.
A maior parte da população diabética de Natal está
concentrada entre pessoas com baixa escolaridade. Aqueles com 0 a 8 anos de
estudo representam 21,1% dos casos. Em seguida, estão os indivíduos com 9 a 11
anos de escolaridade, que correspondem a 8,6% dos diagnósticos, e os com 12 anos
ou mais de estudo, somando 7,6% dos casos.
Paiva alerta para a necessidade de disseminar
informações corretas sobre o diabetes, já que muitos mitos ainda circulam.
“Precisamos cada vez mais buscar informações corretas e de qualidade para a
melhora da triste estatística do diabetes”.
Entre os mitos, ela cita a ideia de que só tem
diabetes quem apresenta sintomas da doença descompensada, a crença de que
pessoas magras não têm diabetes e a concepção de que a única comida que vira
açúcar é o próprio açúcar. Paiva também destaca o equívoco de achar que apenas
quem come muito doce desenvolve diabetes, afirmando que o problema está mais
relacionado ao excesso de peso e a hábitos alimentares inadequados.
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS)
informou que, para diminuir esse indicador, todos os anos o município de Natal
realiza ações educativas voltadas ao conhecimento de sinais, sintomas e
predisposição de casos da doença nos serviços de saúde da capital.
“Havendo suspeita ou até mesmo o diagnóstico confirmado,
o cidadão deve buscar as unidades de saúde”, aconselha a pasta. Em 2023, 309
pessoas morreram devido ao diabetes na capital potiguar e 755 foram internadas,
segundo dados do Datasus.
Acesso
Os insumos para tratar pessoas com diabetes
constantemente ficam em falta no Prosus e na UNICAT. Milena Katharina, paciente
com diabetes tipo 1, relata as dificuldades enfrentadas devido à escassez do
insumo e à falta de regularidade no fornecimento. “Quando a gente vai receber
os insumos, só recebe uma agulha por dia, ou seja, 30 unidades para o mês.
Então, se a pessoa usa de cinco a seis aplicações diárias e a agulha é
descartável, a conta não fecha”, reclama.
Ela explica que, embora os diabéticos precisem
aplicar insulina de cinco a seis vezes ao dia, quando vão receber os insumos
recebem apenas uma agulha por dia, o que compromete o tratamento adequado. “A
conta não fecha. Por que a gente não recebe esse tratamento na sua completude,
com dignidade, e recebe somente o equivalente a uma agulha por dia?”, questiona.
Segundo Milena, o acesso à insulina na UNICAT é
incerto e tem gerado dificuldades para os pacientes. “Eu já me frustrei com
várias situações, por ter sido negado, por ficar nisso de você vai lá, não tem,
ou você vai e acaba, passa horas e horas na fila.” Hoje, ela prefere comprar as
próprias medicações, e o custo mensal do tratamento do diabetes pode chegar a
R$ 2.000, considerando medicamentos e insulina utilizados de cinco a seis vezes
ao dia.
Em nota, a Sesap informou que “os casos de diabetes
são acompanhados pelo sistema de atenção básica, sob responsabilidade dos
municípios”. A pasta disse ainda que a distribuição de insulina é feita pelo
Ministério da Saúde, sendo a Unicat responsável apenas por intermediar a
entrega.
O Ministério da Saúde disse que o fornecimento de
insulinas está normalizado no estado e que no ano passado, foram enviadas mais
de 167 mil unidades de insulina regular, entre frascos e tubetes, e 13.8 mil
unidades de insulina glargina.
Sobre os insumos no ProSus, a SMS informou que a aquisição
das fitas é realizada de forma licitatória, levando em consideração a
quantidade de usuários cadastrados e uma margem de segurança. “Com a chegada de
novos usuários para recebimento do insumo no serviço, podem acontecer casos
pontuais de desabastecimento”, disse em nota.
Conforme a secretaria, o fornecimento vai se
estabelecer com o processo de aquisição de novas fitas e lancetas, que segue em
fases finais de trâmite na SMS com vencedor do processo licitatório já
definido. A previsão é que em cerca de 30 dias o fornecedor já inicie a
realização dos envios.

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