domingo, 8 de novembro de 2026

Operação Mederi: por que a Dismed está processando o Banco do Brasil?

 


A Dismed Distribuidora de Medicamentos, empresa de Mossoró no centro da Operação Mederi, processa o Banco do Brasil para rever três empréstimos de capital de giro que somam R$ 3,9 milhões. A ação corre desde agosto na 1ª Vara da Comarca de Apodi. Para pedir que a Justiça dispensasse as custas, a empresa alegou queda de receita e bloqueio de valores por ter sido alvo de operação policial.

Até aqui, a Justiça só lhe deu o parcelamento das custas. O juiz Antônio Borja de Almeida Júnior negou a justiça gratuita, negou a liminar que suspenderia as cobranças e recusou aplicar o Código de Defesa do Consumidor. No Tribunal de Justiça, onde recorreu, a Dismed foi intimada na quinta-feira (5) a pagar em dobro as custas do recurso, em cinco dias, sob pena de o agravo ser extinto.

A cláusula que liga o banco à operação

Os três contratos são de dezembro de 2023 (R$ 813 mil), julho de 2024 (R$ 2 milhões) e fevereiro de 2025 (R$ 1,1 milhão). A Dismed quer trocar os juros pela média de mercado, derrubar as comissões “flat” de dois contratos (R$ 40 mil e R$ 34.980), suspender as cobranças e impedir que o nome vá para cadastro de inadimplentes.

Pela conta do banco, a dívida era de R$ 2.514.241,91 em 30 de janeiro deste ano. Pela da empresa, R$ 2.361.970,74. A diferença em disputa é de R$ 152.271,17.

O pedido que conversa com a Mederi é outro. A Dismed contesta a cláusula que permite ao banco antecipar o vencimento de toda a dívida quando o cliente vira alvo de ação judicial ou procedimento fiscal. Na síntese do juiz, a empresa diz que a regra permite acelerar a cobrança “em razão de medidas cautelares criminais alheias à relação creditícia”.

“Grande lastro de capacidade financeira”

O juiz não aceitou o argumento da penúria. Escreveu que um “parecer contábil unilateral” e a alegação de bloqueio judicial, sem documento que comprove, não bastam. E usou os próprios contratos públicos da empresa contra ela:

“Não bastasse isso, o documento de Id 195469619 revela que a parte autora tem uma vasta atuação perante as prefeituras deste Estado, com várias contratações, sendo destacado que, apenas nos contratos de Mossoró, movimentou cerca de R$ 13,5 milhões entre 2021 e 2025.”

O valor é próximo dos R$ 13,6 milhões que o Fundo Municipal de Saúde de Mossoró pagou à Dismed, segundo a tabela da Polícia Federal publicada pelo Blog do Dina em agosto.

Os juros também não convenceram. A decisão de 27 de agosto compara as taxas dos contratos (1,71%, 1,57% e 1,71% ao mês) com a média do Banco Central para cada época (1,52%, 1,56% e 1,74%) e não vê “nenhuma discrepância substancial”. Sobre o bloqueio, o juiz foi direto: a alegação de que a investigação travou o patrimônio da empresa “não constitui fundamento suficiente” para rever obrigações “livremente pactuadas”.

O recurso

No agravo, a Dismed pediu de novo a gratuidade. A relatora, desembargadora Berenice Capuxú, apontou “indícios de capacidade financeira”. A empresa pagou o recurso e, pela regra do Superior Tribunal de Justiça para quem desiste da gratuidade depois de pedi-la, terá de pagar em dobro. Em Apodi, a conciliação com o Banco do Brasil, na quarta-feira (4), terminou sem acordo.

A queda de receita tem história no processo criminal. Em julho, os advogados da Dismed disseram ao Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5) que a suspensão imposta na operação a impedia de contratar com o poder público. Em outubro, o tribunal liberou a empresa para voltar a licitar, menos nos seis municípios em que o inquérito prossegue, Mossoró entre eles.

 

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