Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF)
plantaram, ao longo das últimas semanas, sementes de um confronto que abalou as
instituições e, em muitos aspectos, interferiu na disputa eleitoral. Decisões
pouco convencionais, confronto entre integrantes da Corte e atropelos ao
Tribunal Superior Eleitoral (TSE), inclusive mudando regras de debates e
forçando um cenário que poderia ser favorável a Lula, tiveram uma resposta
convicta nas urnas. A direita cresceu de forma consistente no Congresso e nos
governos estaduais e chega em vantagem na disputa presidencial.
Nada pesa mais nesse cenário do que a sensação incutida
na sociedade de que há tolerância de parcela significativa do Tribunal com
desvios de conduta e escândalos que a sociedade já entendeu que precisam de
investigação rigorosa. Há uma avaliação majoritária de que é preciso dar uma
resposta dura ao próprio Supremo. E ela começou a ser dada com a eleição de
senadores que pregam o impeachment de ministros. Ainda que o bolsonarismo
também esteja envolto em escândalos, foram eles que fizeram o discurso mais
contundente contra desmandos no STF.
A mudança não é trivial. Ao obter maioria
expressiva, esvaziando o centro, a direita bolsonarista, comprometida com a
pauta que inclui derrubada de Alexandre de Moraes e, quem sabe, seus aliados,
tem as cartas para discutir o comando do Senado. Se até aqui Davi Alcolumbre
dizia abertamente não ter interesse nenhum em pautar um dos mais de uma centena
de impeachment que tem em sua gaveta, agora terá que negociar. Há chance real
de que perca se não se dobrar ao bolsonarismo. E aí, a primeira proteção até
agora dada aos ministros do Supremo - no Congresso - estará perdida.
Há dúvidas de como parte do STF reagirá a esse
cenário em que está contra a parede. Garantir a vitória de Lula no segundo
turno, para alguns ministros, pode significar equilibrar moderadamente o jogo.
É o presidente quem indicará ao menos três, e talvez quatro, ministros para a
Suprema Corte. Se Flávio vencer, a segunda proteção para Moraes e companhia,
que até aqui tem garantido que ele não seja investigado por ordem do Plenário
do Tribunal, também cairá cedo ou tarde. A tentação de ampliar a interferência
nas eleições no segundo turno será ainda maior. Eles dobrarão a aposta?
Ricardo Corrêa - Estadão

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