sexta-feira, 11 de setembro de 2026

RN pode perder R$ 6,4 milhões após impasse sobre local de presídio

 


O Rio Grande do Norte pode perder recursos federais destinados à construção da Cadeia Pública do Potengi. A Secretaria de Estado da Administração Penitenciária (Seap-RN) consultou a Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), por meio de ofício, quanto à viabilidade de transferir o local da construção da unidade para um terreno próximo ao Complexo de Alcaçuz. A pasta busca assegurar a permanência de aproximadamente R$ 6,48 milhões em recursos federais do FUNPEN, cuja validade é 31 de dezembro de 2026. No ofício, não é citada a decisão judicial que determina a continuidade da construção da cadeia na zona Norte.

Os recursos do Fundo Penitenciário Nacional são referentes ao período de 2016 a 2021. No documento, a Seap-RN pede a prorrogação do prazo para a utilização dessas verbas até o final de 2028, justificando que o cronograma contratual atual – início em 25 de agosto, com 365 dias para execução da obra e vigência de 420 dias – excede o limite regulamentar vigente.

Ao propor a transferência da unidade da Zona Norte de Natal para Nísia Floresta, a secretaria argumenta que a mudança técnica mantém o objetivo original de ampliar as vagas no sistema prisional. O processo aguarda orientação federal para ser formalizado.

A pasta destaca ainda a necessidade de análise prioritária para garantir a segurança jurídica e a continuidade da execução do projeto de infraestrutura. A unidade prisional masculina é de baixa complexidade, com capacidade projetada para 189 vagas.

O prazo atual, que vence em 2026, é incompatível com o cronograma da obra e pode conflitar com os trâmites da mudança de local, como novos estudos. A reportagem buscou confirmar essa e outras informações com a Senappen, via assessoria de comunicação, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.

Também foram procuradoras a Seap-RN e a Secretaria de Estado da Infraestrutura (SIN-RN) para esclarecer quais foram as razões para reavaliar a construção na Travessa Macaé (Potengi) e propor a transferência para o Complexo de Alcaçuz e se já foram elaborados os estudos de viabilidade técnica, ambiental e urbanística para o terreno contíguo a Alcaçuz, entre outros temas.

Em nota, a Secretaria de Estado da Administração Penitenciária informou “que se encontra em processo de transição de secretariado e, neste momento, não irá se manifestar sobre os questionamentos apresentados”. O ex-secretário Helton Edi Xavier, que assina o ofício destinado à Senappen, e a ex-secretária-adjunta Arméli Brennand foram exonerados nesta quarta-feira (9).

Ação na Justiça

O impasse ocorre no meio de um processo judicial que acompanha o sistema penitenciário no RN. O Estado anunciou a revogação da licitação para construir a unidade no Potengi em 26 de agosto, um dia depois da assinatura do Contrato nº 043/2026 SIN com a empresa HB Engenharia Ltda., no valor de R$ 7,13 milhões, e da emissão da ordem de serviço.

A Justiça Federal determinou, em 28 de agosto, que o Governo do RN desse continuidade à construção da unidade prisional no bairro Potengi. A decisão foi assinada pela juíza Moniky Mayara Costa Fonseca Dantas.

Uma ação civil pública tramita na Justiça Federal desde 2016, com objetivo de cobrar do Estado a execução de medidas para ampliar a capacidade do sistema penitenciário potiguar, incluindo a criação de novas vagas.

Para a Justiça Federal, o local de construção no Potengi foi escolhido pelo próprio Estado, há alguns anos, o que caracteriza a revogação como um comportamento contraditório.

A Justiça também cita o risco quanto às verbas federais do FUNPEN: “O risco de devolução de recursos federais represados por quase uma década não é conjectura remota, mas consequência plausível e próxima de um curso de eventos que a própria conduta do Estado, ora impugnada, já deflagrou”.

O processo ocorre em meio a um déficit estimado em cerca de 2,7 mil vagas no sistema prisional do Rio Grande do Norte. Segundo dados da Secretaria da Administração Penitenciária (Seap) divulgados anteriormente pela TRIBUNA, o Estado possui cerca de 8 mil pessoas no regime fechado e trabalha com um planejamento para criação de cerca de 1.160 novas vagas.

Além da unidade prevista para o Potengi, o planejamento inclui 177 vagas no Presídio do Seridó e outras 480 em Alcaçuz, além de um módulo com 16 vagas para presos considerados de alta periculosidade no Complexo Penal Dr. Rogério Coutinho Madruga.

MPRN pode acionar PF

O Ministério Público do RN enviou nesta quinta-feira (10) ofício ao secretário da SIN-RN, Gustavo Coelho, sobre o cumprimento da decisão judicial proferida na ação civil pública.

O MPRN pede que a SIN-RN remeta até 23 de setembro deste ano prova de que assinou a ordem de serviço e intimou a empresa HB Engenharia Ltda. para dar início à obra, sob pena de imediato encaminhamento de notícia-crime à Polícia Federal “para as providências cabíveis quanto à prática do crime de desobediência”.

Além do encaminhamento, o ofício não afasta o “protocolo de pedido à Justiça Federal da adoção de outras medidas cabíveis, tais como o afastamento temporário de Vossa Excelência [secretário Gustavo Coelho] do cargo até o efetivo cumprimento da decisão judicial”.

Procurada, a SIN-RN não confirmou o recebimento do ofício nem se manifestou sobre ele. Por meio da Assessoria de Comunicação do Governo do Estado, a reportagem recebeu a mesma nota da Seap-RN.

 

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