Enciumado com a repercussão do encontro entre
investidores e seu principal adversário, o candidato do PL à Presidência,
Flávio Bolsonaro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recentemente recebeu
pesos-pesados da economia para um jantar no Palácio da Alvorada, a fim de
tentar convencê-los de que tem, sim, compromisso com a responsabilidade fiscal.
Falhou miseravelmente.
No jantar, Lula mais ouviu do que falou, mas o pouco
que disse mostra que o encastelamento dos últimos três anos e meio lhe fez mal.
Embora esteja em plena campanha pela reeleição e as pesquisas indiquem uma
disputa acirrada por votos, o presidente parece muito incomodado com as
cobranças inerentes ao cargo, como as justificadas desconfianças sobre seu real
comprometimento com o reequilíbrio das contas públicas.
Os dados não permitem que seu discurso pretensamente
fiscal seja tomado pelo valor de face. Afinal, a dívida pública aumentou mais
de 11 pontos porcentuais durante seu terceiro mandato, saindo de 71,38% do PIB,
em janeiro de 2023, para 82,51% do PIB, em julho passado, segundo o Banco
Central – e isso a despeito de sua equipe econômica se jactar do cumprimento
das metas fiscais.
Tal desempenho ensejaria, na melhor das hipóteses, a
admissão de que o arcabouço fiscal não funcionou como esperado. No jantar com
empresários, no entanto, Lula passou longe de um mea culpa. Ao contrário.
Vangloriou-se do fato de ter sido o único presidente, entre os países do G-20,
a entregar superávits primários em oito anos de governo.
O petista se referia, por óbvio, ao período em que
governou o País entre 2003 e 2010. Mas levar esse desempenho em consideração
exigiria ignorar que os últimos três anos e meio foram de expressivos déficits
primários, e é espantoso que Lula não perceba que está abusando da boa-fé de
seus interlocutores.
Eis o principal motivo pelo qual a taxa básica de
juros está atualmente em escorchantes 14% ao ano. Criar condições para a
redução da Selic passa, necessariamente, pela aprovação de reformas estruturais
capazes de mudar a dinâmica das despesas da União e conter a trajetória da
dívida. Não se trata de uma obsessão deste jornal, mas do que pregam dez em dez
economistas e especialistas em contas públicas.
Demonstrar comprometimento com as contas públicas,
portanto, exige mais do que palavras. Lula precisa sinalizar que um eventual
quarto mandato será completamente diferente do atual. Afinal, ao contrário de
seus oponentes, que ainda podem contar com o benefício da dúvida na seara
fiscal, Lula tem contra si o fardo do terceiro mandato e de seus pífios
resultados fiscais para carregar.
Mas Lula, paradoxalmente, parece muito satisfeito
com o pouco que fez até agora, o que talvez explique sua irritação com as
cobranças que tem recebido sobre a situação das contas públicas. Tanto é que as
tímidas e vagas propostas de corte de despesas que surgiram no jantar não
vieram do presidente, mas de integrantes de sua equipe.
Segundo o Estadão/Broadcast, o ministro do
Planejamento, Bruno Moretti, disse que a ideia, num quarto mandato, é realizar
um ajuste equivalente a dois pontos porcentuais do PIB, enquanto o
vice-presidente Geraldo Alckmin pregou que esse trabalho precisa ser feito de
maneira célere para que os juros caiam rapidamente.
Discutir isso na presença de Lula é uma coisa; ouvir
tais promessas saírem da boca do presidente é outra. Mas tudo o que o petista
fez, como esperado, foi reclamar das taxas de juros, mantidas em nível
extremamente elevado na tentativa do Banco Central de conter os efeitos de sua
política fiscal expansionista e de suas políticas de crédito direcionado sobre
a demanda e a inflação.
Mais difícil que atacar os juros é propor uma agenda
impopular, mas necessária para que o País possa ter taxas que não afastem
investimentos nem contenham o crescimento econômico. Elegantes, os convidados
corroboraram as críticas de Lula, mas não ousaram responsabilizar a gastança de
seu governo pelo problema. Deixaram o Palácio da Alvorada como chegaram – sem
qualquer perspectiva sobre o futuro do País.
Opinião do Estadão

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