Há quase vinte anos, o presidente Lula fez um
pronunciamento à Nação, em rádio e TV, num feriado de 7 de setembro, para
exaltar as descobertas da Petrobras no chamado pré-sal, as reservas bilionárias
de petróleo e gás encontradas em águas profundas pela estatal.
As fontes de riqueza, nas palavras do petista,
seriam, para os brasileiros, um “passaporte para o futuro”, um caminho para o
fim do atraso representado pelos péssimos serviços públicos na saúde e educação
e pela desigualdade social.
Se futuro havia no pré-sal, em boa parte, pode-se
dizer que foi roubado nos esquemas bilionários de corrupção vistos nos governos
do PT que se seguiriam nos anos seguintes. O país ainda hoje espera por um
futuro sem desigualdade, com saúde e educação dignas de Repúblicas
petrolíferas.
Naqueles dias do anúncio feito por Lula, como
revelou a Polícia Federal em diferentes investigações, um gigantesco plano para
desviar recursos do pré-sal — numa engrenagem composta por políticos,
burocratas, partidos e empreiteiras — já estava em pleno funcionamento nos
bastidores do governo petista.
Em nome de “criar uma poderosa e sofisticada
indústria petrolífera” no Brasil, Lula permitiu que partidos políticos
aparelhassem diretorias da Petrobras, dando controle de orçamentos bilionários
a apadrinhados do PT, do PP e do PMDB.
Esses burocratas protegidos por políticos eram
encarregados de fraudar licitações e contratos para beneficiar empreiteiras do
esquema. Essas construtoras, com a proteção política dos partidos,
superfaturavam obras para pagar propina a caciques e repassar recursos ao caixa
dois dessas mesmas siglas do esquema.
Paulo Roberto Costa, diretor de abastecimento, administrava
as propinas devidas ao PP e ao PMDB juntamente com Nestor Cerveró, da diretoria
Internacional. Já Renato Duque, diretor de Serviços, cuidava exclusivamente da
propina recolhida por petistas e pelo tesoureiro do PT, o famoso pai dos
“pixulecos”.
As empreiteiras, reunidas no chamado Clube do
Bilhão, decidiam entre si quem ficaria com qual obra. As propinas eram
tabeladas, entre 1% e 3% de cada contrato, que era sempre ampliado com aditivos
para mascarar a roubalheira.
O dinheiro do pré-sal, que seria o futuro da Nação,
segundo Lula, viajava em malas, amarrados sob a roupa de entregadores e até em
caixas de bebidas. Era tanta propina, que até um serviço de “money delivery”
foi crido pelo doleiro Alberto Youssef para dar conta da demanda, entregando o
dinheiro sujo diretamente na casa dos corruptos.
As verbas das empreiteiras eram direcionadas a
empresas de fachada desses doleiros que, a partir de notas fiscais frias,
providenciavam os saques e as entregas aos políticos. Em alguns casos, a
propina também era paga fora do país, em contas no exterior, e na forma de
serviços, como carros de luxo, festas com garotas de programa e reformas de
imóveis, como um famoso sítio em Atibaia, um triplex no Guarujá, um apartamento
no ABC, um prédio em São Paulo…
Com tantos contratos no esquema, uma das
empreiteiras chegou a comprar um banco para administrar exclusivamente a
corrupção. A lista de políticos “correntistas” desse esquema virou história.
Ex-presidente da República, Fernando Collor de Mello é ainda hoje exemplo raro
de político preso e pagando pelas propinas que recebeu do esquema, como senador
de Alagoas e aliado do petismo.
Nas contas da Polícia Federal, a roubalheira na
Petrobras tirou do futuro dos brasileiros mais de 50 bilhões de reais.
A Operação Lava-Jato, com suas 79 fases, conseguiu
recuperar pouco mais de 10% disso e quase todos os envolvidos terminaram
escapando das garras da Justiça anos depois, quando vieram a público as
mensagens da força-tarefa de Curitiba.
Condenado por corrupção na Lava-Jato, Lula derrubou
os processos, invalidou provas e reverteu sua inelegibilidade, conseguindo
voltar ao Planalto em 2022.
Agora candidato à reeleição, ele vestiu novamente o
mesmo macacão de petroleiro para, novamente com uma lata de óleo nas mãos,
anunciar uma nova chance, um novo “passaporte para o futuro” da Nação.
A nova fonte de sonho está materializada nas
potenciais reservas de petróleo da foz do Amazonas. “Pode chamar isso
(frasco de petróleo) de passaporte para o futuro desse país”, disse Lula.
Para que o país tenha futuro, é preciso que as
coincidências com o passado parem no discurso.




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