Cláudio Oliveira
Repórter
Após o aumento das tarifas imposto pelo presidente
americano Donald Trump, o Rio Grande do Norte perdeu espaço no mercado dos
Estados Unidos e conseguiu redirecionar para outros países apenas cerca de 2%
das vendas que deixaram de ser realizadas. Dos US$ 37,3 milhões que o Estado
deixou de exportar aos americanos nos produtos diretamente afetados pelo
tarifaço, somente US$ 0,9 milhão reapareceu em outros destinos. O dado indica
que a retração foi, em sua maior parte, uma perda efetiva de mercado, e não
apenas uma mudança na rota das mercadorias.
A conclusão consta da análise da balança comercial
do RN, elaborada pelo Sebrae/RN, que acompanha o comércio exterior entre 2020 e
o primeiro semestre de 2026. A substituição foi baixa ou inexistente para
pescado, produtos de origem animal, granitos, confeitos e sal. A principal
exceção parcial foi a castanha de caju, que conseguiu transferir parte da perda
americana para compradores do Peru, Chile, Equador, El Salvador e França.
Para o economista Helder Cavalcanti, o resultado
evidencia a dificuldade de substituir rapidamente relações comerciais
consolidadas. “Uma relação comercial é construída ao longo do tempo. Envolve
compradores, contratos, logística, padrões de qualidade, exigências sanitárias,
preços e confiança entre as empresas”, afirma. Segundo ele, a barreira
tarifária reduziu a competitividade dos produtos potiguares sem que surgissem
compradores alternativos na mesma velocidade. “Em resumo, é muito mais rápido
perder um mercado do que construir um novo”, resume.
A análise do Sebrae identifica uma relação temporal
entre a imposição das tarifas e a redução das exportações potiguares aos EUA.
Antes do tarifaço, o RN exportava, em média, US$ 8,7 milhões por mês para o
mercado americano. Nos três meses de vigência plena da tarifa de 50%, a média
caiu para cerca de US$ 3 milhões mensais. Considerando apenas os produtos
afetados, a retração chegou a 58%.
A recuperação acompanhou o desmonte das barreiras
após a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, em fevereiro de 2026. O
fluxo passou para aproximadamente US$ 3,9 milhões mensais na fase de alívio
parcial e chegou a US$ 4,8 milhões após a decisão, ainda abaixo dos US$ 8,7
milhões anteriores ao tarifaço.
Na comparação dos 11 meses entre agosto de 2025 e
junho de 2026 com o período anterior, os produtos mais afetados foram os de
origem animal impróprios para alimentação humana (-91%), atuns frescos, com
perda superior a US$ 7,8 milhões, granitos trabalhados (-94%), outros peixes
frescos (-90%), castanha de caju (-77%), confeitos (-29%) e sal marinho (-47%).
O Sebrae faz uma ressalva em relação ao pescado: os
atuns também apresentaram retração em outros mercados, indicando a combinação
de fatores específicos do setor com o ambiente tarifário. Por isso, o relatório
não atribui toda a queda às tarifas. A redução das vendas de derivados de
petróleo aos EUA também não é considerada efeito do tarifaço, já que esses
produtos estavam isentos desde o início.
A TRIBUNA DO NORTE procurou a Secretaria de
Desenvolvimento Econômico (Sedec/RN), a Federação das Indústrias do Estado
(Fiern) e o Sindicato da Indústria da Pesca do RN (Sindipesca/RN) para avaliar
os efeitos da perda de mercado, mas não recebeu retorno sobre o assunto até o
fechamento desta edição.
Mudança leva a recorde
O impacto do tarifaço ocorreu em meio a um primeiro
semestre de 2026 recorde para o comércio exterior potiguar. O RN exportou US$
639,1 milhões entre janeiro e junho, alta de 30% em relação ao primeiro
semestre de 2025. As importações somaram US$ 242 milhões, aumento de 5,9%,
resultando em superávit recorde de US$ 397,1 milhões, 51,2% acima do registrado
no ano anterior.
O resultado foi puxado principalmente pelas
exportações. Petróleo e derivados responderam por US$ 291,1 milhões; ouro, por
US$ 157,5 milhões; e frutas frescas, por US$ 105,2 milhões. Juntos, os três
grupos representaram 86,7% das vendas externas do Estado no semestre. Na
sequência aparecem tecidos de algodão (US$ 10,7 milhões), sal (US$ 9,4 milhões),
açúcar (US$ 7,8 milhões) e tungstênio (US$ 6,8 milhões).
Petróleo e ouro responderam, sozinhos, por
aproximadamente 71% da pauta. O petróleo alcançou US$ 291,1 milhões,
praticamente o mesmo valor do primeiro semestre de 2025. O ouro ganhou
relevância com a produção de Currais Novos e alcançou US$ 157,5 milhões, diante
de uma base praticamente nula no ano anterior. Nenhum dos dois está no centro
do impacto do tarifaço: o petróleo estava entre os produtos isentos das tarifas
amplas americanas e o ouro tem como principais destinos Canadá e Suíça.
A fruticultura também alcançou seu melhor desempenho
semestral, enquanto sal, pescado e tungstênio reforçaram a diversificação da
pauta. Ao mesmo tempo, petróleo e ouro passaram a representar uma concentração
de cerca de 71% das exportações.
Sal mantém produção e clientes, mas perde vendas
No setor salineiro, o impacto aparece principalmente
na comercialização e nas margens, e não na produção. O presidente do Sindicato
das Indústrias do Sal do Estado do Rio Grande do Norte (Siesal/RN), Airton
Paulo Torres, relembra que o sal vendido aos Estados Unidos é utilizado
principalmente no degelo de estradas, o que provoca oscilações conforme a
intensidade do inverno americano. “Com isso, precisamos ver a estatística em um
período maior”, aponta.
Segundo ele, entre 2019 e junho de 2025 o Brasil
exportou, em média, cerca de 530 mil toneladas de sal por ano aos EUA. “A
partir de julho de 2025, o impacto tem sido severo, afetando as margens das
empresas exportadoras”, diz. “A partir da vigência do tarifaço não houve queda
na produção. O excedente está sendo ofertado no mercado interno e,
principalmente, utilizado para recomposição de estoques”, completa.
O sindicato não identifica ruptura das relações
comerciais. “Enquanto perdurar o tarifaço, vai ocorrer perda de vendas, sem
contudo estabelecer-se uma ruptura junto aos clientes”, afirma Airton Torres.
A dificuldade de encontrar novos compradores,
segundo ele, está relacionada às características do produto. “O sal brasileiro,
pelo baixo valor agregado que tem, está limitado à costa oeste da África, EUA e
um pouco no Canadá.”
Os dados do Sebrae corroboram a concentração. Entre
2020 e junho de 2026, Nigéria e Estados Unidos responderam juntos por 81,3% do
valor exportado de sal pelo RN. No primeiro semestre deste ano, o Estado
exportou US$ 9,4 milhões do produto, 8,2% menos que no mesmo período de 2025. O
volume físico, contudo, cresceu 15,3%, passando de 454,6 milhões para 524,3
milhões de quilos. A queda do valor foi provocada principalmente pelo recuo do
preço médio.
Itamaraty cita negociações em andamento
O Ministério das Relações Exteriores afirma que “a
busca pela diversificação de parcerias é uma diretriz da política comercial
brasileira” e aponta a abertura de novos mercados e a consolidação de parcerias
existentes como focos da atuação comercial. O Itamaraty cita o acordo
Mercosul-União Europeia, em vigor desde maio; o acordo Mercosul-Singapura, em
vigor para o Brasil desde agosto; e o acordo Mercosul-EFTA, com entrada em
vigor prevista para outubro.
Também estão em negociação acordos com Emirados
Árabes Unidos, Canadá, Vietnã e Japão, além da ampliação do acordo comercial
com a Índia. Com Emirados Árabes Unidos e Canadá, as negociações estão em
estágio avançado.
A necessidade de diversificação ocorre em meio à
retração do comércio bilateral. Segundo o MDIC, as exportações brasileiras para
os EUA somaram US$ 17,4 bilhões no primeiro semestre de 2026, queda de 13% em
relação ao mesmo período de 2025. As importações brasileiras de produtos
americanos também recuaram, levando a uma redução de 12,8% na corrente de
comércio entre os dois países.
Para Helder Cavalcanti, o mercado americano não é
insubstituível, mas difícil de substituir rapidamente. O economista defende que
a diversificação seja permanente e diz que o desafio estratégico é reduzir a
dependência de qualquer mercado específico. “É preciso conseguir chegar ao
comprador com preço, qualidade, escala, regularidade e logística competitiva.”
COMO O TARIFAÇO EVOLUIU
Fevereiro
de 2025:
EUA anunciam medidas tarifárias setoriais sobre produtos de ferro e aço.
Abril de 2025:
Governo americano anuncia uma tarifa “recíproca” de 10% sobre as importações
brasileiras.
Agosto de 2025:
Entra em vigor uma tarifa adicional de 40%, elevando a alíquota total para 50%
sobre grande parte dos produtos brasileiros, com uma lista de exceções que
inclui, entre outros itens, o petróleo.
Novembro de 2025:
EUA retiram a sobretaxa de 40% de alguns produtos brasileiros, entre eles café,
carnes e frutas.
Fevereiro de 2026:
Suprema Corte americana invalida a base legal das tarifas amplas impostas pelo
governo Trump. Permanecem tarifas setoriais e uma sobretaxa global temporária
de 10%.
Julho de 2026:
Estados Unidos anunciam novas sobretaxas sobre produtos brasileiros com
encargos adicionais de 25% e 12,5% para diferentes grupos de produtos.
Dependendo da mercadoria, as tarifas podem chegar a 37,5%.

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