O governo Luiz Inácio Lula da Silva recebeu, por
dois dias nesta semana, a visita de um assessor político do presidente da
Rússia, Vladimir Putin. A viagem de Nikolai Patrushev, o enviado do Kremlin,
ficou ofuscada pelo registro do telefonema direto entre Lula e Putin, na
terça-feira, dia 4. Mas foi além disso.
Além de assessor do núcleo mais próximo de Putin,
Patrushev é atualmente chefe do Conselho Marítimo da Rússia. Mas, no currículo,
tem o peso de ter sido oficial de inteligência e diretor do Serviço Federal de
Segurança (FSB) russo, órgão sucessor da KGB, e secretário do Conselho de
Segurança da Rússia.
Como costumam fazer os altos funcionários do
Kremlin, ele viajou ao Brasil em avião oficial do governo russo e cumpriu agenda
extensa na capital federal.
Encontrou-se com o próprio presidente Lula e com as
seguintes autoridades de governo: o chefe da Assessoria Especial da
Presidência, embaixador Celso Amorim; o ministro da Defesa, José Múcio; o
comandante da Marinha, almirante Marcos Olsen; a secretária-geral das Relações
Exteriores, Maria Laura da Rocha; o secretário-executivo do Ministério do
Desenvolviemnto, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Rodrigo Zerbone
Loureiro.
Patrushev discutiu com Lula conflitos e questões de
segurança internacional, algo que o petista também falou com Putin na chamada
telefônica. Lula pediu a conversa com Putin para tratar de pontos sensíveis da
pauta comercial - combustível e fertilizantes - e também discutir a situação
atual da guerra com a Ucrânia.
Os russos fizeram notar que existe coincidência de
posições entre os dois líderes em temas “fundamentais” da agenda global.
Segundo comunicado russo, Putin “expressou gratidão
ao seu homólogo brasileiro pela vontade em auxiliar na busca de uma solução
política e diplomática para o conflito ucraniano”. O presidente Volodmir
Zelenski havia pedido a Lula, em junho, que ele tentasse mais uma vez
interceder junto a Putin em prol de negociações de paz.
O assunto não dominou a agenda com demais funcionários
dos governos, segundo relato colhido pelo Estadão.
Já os ucranianos ficaram desapontados com a falta de
menção ao país na nota oficial do governo brasileiro, sobre o telefonema que
durou cerca de uma hora. O governo Lula falou apenas em “situação geopolítica
atual”, mas disse que Lula destacou a “importância do diálogo entre as grandes
potências em busca da paz” e lamentou a perda de vidas, inclusive de civis.
Para Kiev, a real motivação da viagem do aliado de
Putin não está clara e passa por dificuldades internas russas. O governo
brasileiro não dividiu resultados da conversa com os ucranianos.
O Palácio do Planalto destacou a intenção de
“intensificar a cooperação em temas como energia, ciência e tecnologia e na
área naval”.
“O presidente Lula sublinhou a importância do
comércio entre os dois países, com ênfase especial no fornecimento de diesel e
fertilizantes. Também ressaltou a necessidade de buscar maior equilíbrio no
intercâmbio comercial, com aumento das exportações brasileiras para a Rússia”,
disse a Presidência da República.
O principal tema tocado por Patrushev, segundo
integrantes do governo brasileiro e publicações da diplomacia russa, foi a
colaboração em diversos âmbitos técnicos, mas especialmente focada em aproximar
a cooperação marítima russo-brasileira.
Houve discussões sobre relacionamento militar com o
comandante Olsen e segurança com Múcio, e aspectos científicos com Amorim e
Maria Laura, bem como navegação e segurança internacional. Eles almoçaram com o
enviado do Kremlin no Itamaraty, além das reuniões de trabalho.
Eles falaram de pesquisa científica, inclusive para
energia nuclear, tendo como pano de fundo o projeto brasileiro de construção de
um submarino de propulsão nuclear, o Álvaro Alberto, contratado junto à França.
O Brasil busca conhecimento russo em pequenos reatores.
Segundo fontes do governo presentes à mesa, no
Planalto Patrushev também falou dos catamarãs russos movidos a energia solar,
algo que poderia ser uma solução para deslocamentos fluviais na região
amazônica. Os dois lados falaram em estimular o intercâmbio tecnológico e a
indústria naval, para construção de embarcações, além da pesca.
Patrushev falou, conforme a agência estatal russa
Tass, no interesse de fornecer tecnologia para construção naval e aumentar a
capacidade de produção de equipamentos para extração de petróleo e serviços em
campos petrolíferos.
Ele citou ainda a possibilidade de envolver a USC
(Corporação Unida de Construção Naval da Rússia) na construção de navios de
grande porte para importação de grãos, a expansão das instalações de construção
e reparo naval para pequenas embarcações e desenvolvimento de frota pesqueira
moderna. Ele também falou do lançamento de novas linhas de contêineres,
fomentado pelo incremento do comércio, e citou que o acordo entre os países é
da era soviética.
Com o Ministério dos Portos e Aeroportos, ele
discutiu “perspectivas para empresas de logística e melhoria da eficiência do
transporte marítimo”, conforme a embaixada russa no País.
A Rússia se converteu num dos principais
fornecedores do diesel ao Brasil, e há anos ocupa posição privilegiada como
fornecedor de fertilizantes, mas precisa recorrer a frotas fantasmas para
escapar de sanções, e corre o risco de ter seus petroleiros apreendidos por
aliados da Ucrânia ou mesmo alvejados pelas Forças Armadas e pela guerra
assimétrica empreendida por Kiev, principalmente, por drones.
O governo russo ainda decidiu proibir a exportação
do diesel, veto que pode ser prorrogado, por causa dos ataques aéreos
ucranianos que atingiram refinarias e a infraestrutura de energia do país,
elevando a demanda interna. A decisão deve afetar o fornecimento ao País, que
já busca alternativas para reduzir a dependência dos fertilizantes russos, por
causa do risco geopolítico.
No ano passado, os combustíveis representaram 52%
das importações de origem russa feitas pelo Brasil (US$ 5 bilhões), e os
fertilizantes, 42,5% (US$ 4 bilhões).
A visita de Patrushev deu sequência à viagem, em
maio, de Celso Amorim ao Fórum Internacional de Segurança de Moscou, quando
ambos também se encontraram. Em Brasília, eles voltariam a discutir parcerias
no âmbito do Brics.
Além de Brasília, Patrushev segue no País e também
visitou instalações da Marinha do Brasil, no Rio de Janeiro.
O oficial russo chegou à capital fluminense ainda na
quarta-feira. A embaixada da Rússia no Brasil não respondeu pedido para
detalhamento dos compromissos de Patrushev no Rio de Janeiro.
A reportagem pediu à Marinha e ao Ministério da
Defesa para que respondessem quais foram os compromissos militares no Rio e quais
os objetivos deles. Não houve esclarecimentos até a publicação desta
reportagem.
O histórico de serviços prestados por Patrushev à
inteligência russa e o trânsito dele no Kremlin fizeram parlamentares
brasileiros da oposição sugerir um suposto motivo oculto da visita, realizada
no contexto de animosidades do governo de Donald Trump com Brasília.
Presidente da Comissão de Relações Exteriores e
Defesa Nacional da Câmara, o deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança
(PL-SP) afirmou ao Estadão que a visita do interlocutor de Putin ocorre de
forma pouco transparente e que ela tem como pano de fundo um apoio eleitoral ao
presidente Lula, que disputará a reeleição.
“Para mim, fica muito claro o que estão esperando
desse processo eleitoral. Na minha opinião, estamos em uma ‘guerra fria’ com os
Estados Unidos. E em virtude dela estão dobrando, triplicando a aposta para
esse governo ficar”, disse.
Na avaliação do parlamentar, que faz oposição a
Lula, a visita de um oficial russo de altíssima relevância ao regime de Putin
neste momento de embates com os Estados Unidos tem potencial de representar ao
governo brasileiro apoio logístico e eleitoral.
“Com essa recepção, esse governo está buscando
aumentar rede de apoio porque vão enfrentar uma rejeição do governo americano”,
afirmou.
Estadão

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