O rebaixamento das relações diplomáticas entre
Brasil e Argentina, determinado pelo Itamaraty nesta terça-feira
(4) em resposta aos ataques do presidente Javier Milei a Luiz Inácio Lula da
Silva (PT), é a mais grave crise entre dois países que trabalharam para
construir fortes laços nas últimas quatro décadas.
A mais recente derrocada entre os vizinhos teve
início em 2019, quando o ex-presidente de esquerda Alberto
Fernández assumiu o poder no momento em que Jair
Bolsonaro terminava seu primeiro ano de mandato no Palácio do Planalto.
Desde então, houve apenas um ano de trégua, no qual
os aliados Fernández e Lula comandaram suas respectivas nações simultaneamente.
Mas, mesmo nesse período de desavenças políticas iniciado há sete anos, nunca a
relação entre Brasil e Argentina esteve em um ponto tão baixo quanto nos
últimos dias.
A tensão teve início em 25 de julho, quando
Milei chamou Lula de ladrão e presidiário durante o lançamento da
campanha de Flávio Bolsonaro (PL) em São Paulo —um combo
que uniu 1. ofensa ao presidente; 2. no evento de um adversário; 3. em solo
nacional.
A convocação dos embaixadores da Argentina e do
Brasil no dia seguinte não foi suficiente, já que o ultraliberal reafirmou os
ataques no último domingo (2), em entrevista a uma emissora argentina. Segundo
membros do governo Lula, as relações se darão apenas com os encarregados de
negócios nos dois países enquanto os ataques persistirem.
“Isso não tem precedente pelo menos desde o século
19”, afirma Miriam Saraiva, professora de relações internacionais da UERJ
(Universidade do Estado do Rio de Janeiro). “Quando um país fica sem
embaixador, precisa negociar com o segundo escalão. A relação fica mais
limitada à manutenção do que já está em funcionamento, e iniciativas novas não
conseguem ir para frente.”
O ineditismo da medida não significa que a
convivência entre os dois países sempre tenha sido pacata. A história dessa
relação, aliás, é marcada por rivalidades até o começo dos anos 1980 —incluindo
conflitos armados quando o Brasil era um império e a Argentina ainda não havia
se constituído como nação.
Mais recentemente, no século 20, as disputas se
davam principalmente pela influência regional. “No início do século 20, por
exemplo, houve a chamada Crise dos Encouraçados, a compra de armamentos navais
por Argentina e Brasil que quase incorreu no risco de uma corrida armamentista
entre os dois países”, diz Tullo Vigevani, cientista político e professor da
Unesp (Universidade Estadual Paulista).
Isso mudou na década de 1980, e os dois tratados que
simbolizam esse novo momento são um acordo para uso pacífico da energia
nuclear, primeiro passo para a criação da Abacc (Agência Brasileiro-Argentina
de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares), em 1991; e,
principalmente, a Declaração do Iguaçu, assinada em 30 de novembro de 1985
pelos então presidentes José Sarney (Brasil) e Raúl Alfonsín (Argentina) e
embrião do que seria o Mercosul.
Isso não significa que não tenha havido desacordos
ao longo desse percurso mais recente. “As tensões nas relações bilaterais entre
países sempre existiram; elas são inerentes ao convívio internacional. Assim
como existe alinhamento e acordo, existe o conflito e a disputa”, diz Leonardo
Granato, professor de administração pública na UFRGS (Universidade Federal do
Rio Grande do Sul).
Algumas das principais disputas ocorreram em 1994,
quando, sob o governo Itamar Franco, o Brasil pleiteou de forma mais explícita
um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU; e em 1999, quando o
presidente argentino Carlos Menem enviou uma carta ao então homólogo americano,
Bill Clinton, pedindo a entrada de seu país como “membro associado”
da Otan, a aliança militar ocidental.
Em nenhum momento, porém, a crise chegou ao ponto de
rebaixar as relações —mesmo quando os dois países se desencontravam
ideologicamente, o que não era um pré-requisito para a boa convivência. Isso
mudou com a nova onda de direita na região.
Após Fernández vencer as primárias, em agosto
de 2019, Bolsonaro afirmou que poderia haver uma onda de migrantes no Rio
Grande do Sul “se essa esquerdalha” ganhasse, ao que o argentino respondeu
afirmando que o ex-presidente brasileiro era “racista, misógino e violento”.
Quando Fernández por fim venceu as eleições, em
outubro, Bolsonaro disse que a Argentina havia escolhido mal seu representante.
Dois dias após o pleito, o então deputado federal Eduardo
Bolsonaro compartilhou um meme que colocava lado a lado uma foto dele
mesmo segurando um fuzil e do filho de Fernández, Estanislao Fernández, que é
drag queen.
“O que a gente viu nos últimos oito anos é inédito
nessas quatro décadas. São presidentes que não tem o menor desejo de trabalhar
juntos, de manter encontros de alto nível. Isso não é tão essencial para a
manutenção das relações —as questões práticas do dia a dia, o comércio,
investimentos, se mantém”, afirma Paulo Velasco, professor de política
internacional da UERJ. “Mas você não tem um impulso que ajude a catalizar
projetos em um momento desafiador para a América do Sul.”
Folha de São Paulo

Nenhum comentário:
Postar um comentário