Sem registros oficiais, a lobista Roberta
Luchsinger fez mais de 40 visitas a órgãos do governo federal desde o
início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em janeiro
de 2023. Por lei, reuniões com autoridades precisam ser informadas nas agendas
dos agentes públicos que participam dos encontros.
Em duas oportunidades, a lobista esteve no Palácio
do Planalto e no gabinete do ministro do Desenvolvimento Social, Wellington
Dias, acompanhada do então sócio de Lulinha. Os encontros não foram registrados
nas agendas oficiais.
Fábio Luís é alvo de inquérito aberto nesta
quinta-feira, 30, a pedido da PF, que apura se ele utilizou a influência do pai
para defender interesses empresariais com a administração pública. Segundo a
Polícia Federal, a atuação dele contou com a ajuda de Luchsinger e se
concentrou no Ministério da Saúde e no gabinete da Presidência.
Em nota, a defesa de Luchsinger afirmou que ela
representa, de forma regular, seus clientes em órgãos e agências da
administração pública federal, estadual e municipal. A defesa de Lulinha disse
que o filho do presidente não obteve nenhum pagamento por negócios de
empresários com o governo Lula.
Levantamento feito pelo Estadão com base na Lei de
Acesso à Informação mostra que, do início do terceiro mandato de Lula até abril
de 2024, a lobista esteve 42 vezes em órgãos do governo federal — 41 fora da
agenda. Não há registo de visitas depois desse período. O então sócio de
Lulinha, Fernando Bittar, participou de dois deles. Em outras 13 oportunidades,
ela esteve acompanhada de executivos da Duosystem, do Grupo Bringel, da World
Cannabis e da Unigel (nesta última, se apresentou como namorada do diretor de
relações governamentais e nora do presidente do conselho de administração da
companhia). Nas demais, foi sozinha.
A Unigel afirmou que nunca contratou a lobista e que
ela não tem parentesco com integrantes da empresa (leia mais abaixo).
Duosystem e Grupo Bringel não responderam à reportagem.
O governo nega ter havido desdobramentos contratuais
a partir de reuniões de Luchsinger. O Estadão tentou contato com
Bittar por meio do advogado Marco Aurélio Carvalho, que afirmou tê-lo contatado
e informou que ele não falaria à reportagem. A defesa de Roberta Luchsinger
disse que ela e Bittar “nunca firmaram qualquer negócio juntos”.
O gabinete de Wellington Dias foi o local do governo
mais frequentado por Luchsinger. Foram 17 visitas no período. No dia 9 de março
de 2023, a empresária foi sozinha à pasta e levou presentes ao ministro. Apesar
de o encontro não ter sido incluído na agenda oficial, o momento foi
fotografado pelo cerimonial.
Nas imagens, é possível vê-la entregar ao chefe da
pasta uma caixa de bombons da marca suíça Sprüngli e uma cópia do livro O
Alquimista, do escritor Paulo Coelho. A edição de colecionador, em capa de
couro e desenhos dourados, é rara e contém o autógrafo original do autor.
Quatro visitas de Luchsinger ao gabinete de Dias
foram acompanhadas por Efrain Saavedra, gerente comercial da Duosystem.
De acordo com pessoas que participaram de agendas
com a lobista, ela trabalhou para implantar os serviços da Duosystem no Sistema
Único de Assistência Social (SUAS), gerido pelo Ministério do Desenvolvimento
Social.
Trocas de mensagens obtidas por investigadores
indicam que Luchsinger e Ribas de Oliveira mantinham relação comercial.
Em abril de 2024, ela retornou ao gabinete de Dias
na companhia de Fernando Bittar, então sócio de Lulinha. Eles passaram pela
catraca privativa de acesso à sede do ministério às 15h52 e saíram às 16h43.
Segundo a pasta, “a pauta tratou de uma apresentação de propostas sobre
sistemas integrados para o aperfeiçoamento dos serviços prestados pelo
ministério”, mas negou ter havido algum desdobramento administrativo.
Apenas uma reunião de Luchsinger em órgãos do
governo federal foi registrada em agenda oficial, em outubro de 2023, quando
ela levou o presidente e o diretor comercial de um de seus clientes, a
Duosystem, para exibirem um programa de gestão digital de leitos hospitalares
na Secretaria de Atenção Primária à Saúde. O objetivo era incorporá-lo ao
Sistema Único de Saúde (SUS).
Assistiram à apresentação o então chefe do órgão
Nésio Fernandes, a secretária de Informação e Saúde Digital, Ana Estela Haddad,
e o então secretário-executivo adjunto Elton Bandeira.
Fora da agenda oficial, Luchsinger foi ao Ministério
da Saúde outras 16 vezes. Os locais em que foi mais assídua nas visitas à pasta
foram os gabinetes de Fernandes e do então secretário-executivo do ministério
Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger, com quem ela se reuniu, em março
de 2024, na companhia de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.
Nesse encontro, o “Careca do INSS” tratou dos
negócios da World Cannabis, por meio da qual ele pretendia comercializar
medicamentos produzidos a partir do canabidiol. A advogada Vitória Bragança
Senergio, que atuava para o empresário, e a ex-diretora da Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa) Alessandra Soares também participaram.
Uma das linhas de investigação da PF é que Lulinha
atuou para que o governo autorizasse a comercialização de cannabis medicinal.
Na representação, a Polícia Federal fala em acesso ao gabinete presidencial.
Investigadores também apuram a natureza da relação
comercial de Luchsinger com o “Careca” no âmbito da Operação Sem Desconto. Uma
das empresas dela, a RL Consultoria, recebeu R$ 1,5 milhão do empresário, que
está preso. A força-tarefa apura ainda se parte dos valores repassados a ela
teve Lulinha como beneficiário.
Em diálogo extraído por investigadores de um
celular, o “Careca do INSS” pede a um funcionário o repasse de R$ 300 mil
a Roberta Luchsinger a título de pagamento para “o filho do rapaz”, possível
alusão a Lulinha, segundo a PF.
Amiga de Lulinha leva empresário ao
Ministério da Saúde
Outra visita de Luchsinger ao Ministério da Saúde,
realizada em setembro de 2023, tinha como objetivo levar Sergio Roberto
Bringel, CEO do Grupo Bringel, à Secretaria de Atenção Primária.
O empresário, com quem ela também foi três vezes ao
Planalto, tem contratos com o governo federal desde 2010. Desde 2023, as
companhias do conglomerado de Bringel firmaram R$ 7,8 milhões em contratos na
Saúde. Atualmente, seu maior cliente no governo federal é o Grupo Hospitalar
Conceição (GHC). A estatal, vinculada ao Ministério da Saúde, administra
hospitais federais no Rio Grande do Sul e fez dois contratos no valor de R$ 3
milhões com a MIC Steriliza, controlada por uma holding da família Bringel, a
partir do início do atual mandato de Lula.
O empresário também foi com Luchsinger ao Planalto
três vezes. As visitas de Bringel com Luchsinger ao Planalto começaram em 9 de
março de 2023, quando foram ao gabinete de Alexandre Padilha, então
ministro da Secretaria de Relações Institucionais. As outras duas ocorreram no
dia 22 daquele mês e no dia 17 de abril de 2024. Contudo, não há informações de
qual autoridade os recebeu nas ocasiões.
A empresária também passou pelo gabinete do
presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, em julho de 2023 sem que seu nome
constasse em qualquer agenda oficial. De acordo com a assessoria do banco, ela
participou de reunião com executivos da Unigel, uma gigante do setor químico,
em que foi discutido possível apoio financeiro à construção de uma fábrica de
hidrogênio verde. O projeto, no entanto, não foi adiante.
“O financiamento não avançou e, portanto, não houve
qualquer investimento do BNDES no projeto. Como banco de desenvolvimento, faz
parte da rotina da instituição a realização de reuniões com empresas para a
discussão sobre financiamentos. A senhora Roberta Luchsinger acompanhou a
comitiva da empresa Unigel, na condição de familiar de um dos dirigentes da
empresa”, disse a estatal em nota.
Ela se apresentou como namorada do diretor de
relações governamentais, Leo Slezynger, e nora do presidente do conselho de
administração da companhia, Henri Slezynger.
O que dizem os citados
A Unigel afirmou à reportagem que Luchsinger não tem
parentesco com membros da empresa e negou tê-la contratado para prestar
quaisquer serviços.
“A Unigel esclarece que a Sra. Roberta Luchsinger
nunca manteve qualquer relação contratual com a companhia, jamais a representou
institucionalmente e nunca recebeu qualquer remuneração da empresa. Da mesma
forma, a Unigel nunca contratou serviços de relações governamentais prestados
pela Sra. Roberta Luchsinger”, disse, por nota.
A Duosystem não se manifestou até a conclusão da
reportagem. O Estadão tentou contato com o Grupo Bringel pelos telefones
da empresa, mas não obteve retorno.
Procurada, a Secretaria de Comunicação da
Presidência (Secom) afirmou que as agendas no Planalto “não produziram qualquer
desdobramento administrativo, contratual ou regulatório decorrente desses
encontros”.
A defesa de Roberta Luchsinger afirmou que ela e
Bittar nunca firmaram qualquer negócio juntos. Sustentou que “eventuais
presenças de terceiros em agendas de trabalho se relacionam ao exercício de sua
atividade profissional de representação institucional, não havendo nada de
irregular a esclarecer quanto a esse ponto”.
Informou ainda que a empresária representa seus
clientes em órgãos e agências da administração pública federal, estadual e
municipal. “É natural e esperado que uma profissional dessa área mantenha contato
recorrente com diferentes ministérios, autarquias e entidades públicas, no
exercício regular de sua atividade e no interesse legítimo dos clientes que
representa.”
O Ministério da Saúde disse, em nota, que seus
integrantes “recebem, em acordo com as regras da administração pública,
representantes de diversos setores da saúde para apresentação de novas
tecnologias e soluções” e negou ter havido desdobramentos contratuais a partir
das reuniões com Luchsinger.
Afirmou que o Grupo Bringel já havia firmado
contratos com o GHC em governos anteriores. “Os contratos foram celebrados
diretamente pelas unidades, por meio de pregão do tipo menor preço, sem a
participação da área de compras do Ministério da Saúde”, disse.
O Ministério do Desenvolvimento Social ressaltou que
nenhuma reunião de Wellington Dias com Roberta Luchsinger resultou em qualquer
ato administrativo. Destacou que o chefe da pasta mantém com ela “relação de
amizade de longa data”.
Segundo a assessoria do ministério, a visitas dela
“ocorreram, em sua maioria, durante passagens por Brasília para outros
compromissos, quando fazia visitas breves de caráter pessoal ao ministro”.
Estadão

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