Passado mais de um mês desde a rejeição da segunda
proposta de delação premiada de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal (PF) e a
Procuradoria-Geral da República (PGR), um novo personagem passou a rondar os
bastidores da defesa do ex-dono do Banco Master. Além do criminalista Cezar
Bitencourt, o ex-juiz federal Erik Navarro Wolkart visitou o executivo no
Complexo da Papuda e tem negociado com a família sua entrada na equipe de
defesa.
Segundo fontes ouvidas pela equipe da coluna,
interlocutores da família Vorcaro fizeram chegar à PGR e à PF a intenção de contratar
Wolkart, usando como principal cartão de visitas o fato de ter sido magistrado
do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) até 2023 – quando deixou a
carreira para se dedicar às redes sociais, onde atua como uma espécie de coach
do uso da inteligência artificial na advocacia.
O pano de fundo, segundo sinalizaram, seria buscar
uma terceira proposta de colaboração premiada — que, nas palavras desses
emissários, agora seria pra valer. A resposta dos investigadores, porém, não
foi muito animadora. Segundo eles, uma troca na defesa só faria diferença na
situação do ex-CEO do Master se ele se dispuser a entregar tudo o que sabe,
algo em que a esta altura quase ninguém acredita.
Nos anexos das duas delações rejeitadas, Vorcaro
pouco avançou sobre o que a Polícia Federal já extraiu de seus celulares
apreendidos e até omitiu informações cruciais do escândalo.
Nas redes sociais, Wolkart faz postagens defendendo
o uso da IA na advocacia e comentando questões tão variadas quanto o novo
patrocinador do Corinthians e estratégias digitais de outros influencers,
algumas vezes sem roupa e só de toalha enrolada na cintura. Não há postagens
recentes sobre delação premiada ou questões criminais.
O surgimento desse novo personagem tornou ainda mais
tenso o ambiente na equipe de defesa, capitaneada por Sérgio Leonardo. Conforme
mostrou o colunista Lauro Jardim, a movimentação de Bitencourt, ex-advogado do
tenente-coronel Mauro Cid, que delatou a trama golpista no inquérito que levou
Jair Bolsonaro para a cadeia, provocou muito desconforto.
Para ampliar a cizânia, Wolkart também bateu ponto
no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, a Papudinha, para
oferecer sua proposta ao banqueiro.
Preocupados, os atuais defensores de Vorcaro foram
até a cadeia tentar tirar dele uma posição sobre as visitas que está recebendo.
Ouviram do ex-banqueiro que não haverá mudanças e repetiram essa versão nas
conversas com jornalistas nos últimos dias. Disseram, ainda, que não vão
admitir a entrada de novos integrantes no time, menos ainda advogados que na
visão deles podem tumultuar ainda mais um caso que já é complexo.
Procurado sobre as sondagens junto a Daniel Vorcaro
na Papudinha, Erik Navarro Wolkart não quis comentar.
Segundo a equipe da coluna apurou, o ex-juiz chegou
a Vorcaro por intermédio da mãe do ex-banqueiro, Aline, e a irmã dele, Natália
Vorcaro.
Advogada e pastora, Natália é casada com Fabiano
Zettel, apontado pelos investigadores como operador financeiro do esquema do
Master e atuou no jurídico do banco antes da instituição ser liquidada. Além do
irmão e do marido, também estão presos seu pai, Henrique, e o primo, Felipe.
Pressão sobre a família
Desde sua segunda prisão, em março, já deixaram a
defesa de Vorcaro os advogados Pierpaolo Bottini, Roberto Podval e José Luis
Oliveira Lima, o Juca. Questionado pelos atuais advogados sobre as conversas
mantidas com outros profissionais, o banqueiro desconversou e atribuiu
justamente à família as investidas de Bitencourt e Wolkart.
Com o executivo completando um mês na Papudinha e
sem perspectiva de uma reabertura das negociações, a pressão dentro da família
Vorcaro por uma solução jurídica tem aumentado. E com um agravante: a equipe de
defesa tem atuado sem remuneração desde o início do ano, com o prospecto de
receber os honorários com o eventual encaminhamento do processo.
Isso, porém, não impediu advogados como Cezar Bitencourt
e Erik Navarro Wolkart de abordar o executivo na prisão, de olho no perfil do
potencial cliente e da projeção do caso Master.
Mas enquanto Bitencourt tem sólida atuação no
direito criminal e a turbulenta, mas bem-sucedida, delação de Mauro Cid no
currículo, o perfil do ex-juiz do TRF-2 chama atenção.
Wolkart deixou a magistratura em 2023 após ser alvo
de um inquérito da Corregedoria Nacional de Justiça por suspeita de atuar como
coach de advogados, o que é vedado pelo Conselho Nacional da Magistratura. O
então corregedor-geral, Luis Felipe Salomão, determinou a derrubada de seus
perfis por conta de conteúdos que prometiam, por exemplo, fórmulas para
acelerar a tramitação de processos, entre outros.
Em resposta, apresentou sua renúncia ao cargo. Em
uma carta, afirmou ter tomado a decisão com “angústia e aflição”, mas com base
em um “chamado que encanta meu coração” através da “docência para milhares de
pessoas, através da tecnologia disponível”.
No seu perfil no Instagram, onde tem 190 mil seguidores,
o ex-juiz explora diferentes formas de adotar a inteligência artificial no
cotidiano de escritórios de advocacia com a promessa de ampliar ganhos,
aumentar o número de clientes e dinamizar tempo, incluindo cursos oferecidos
pelo próprio Wolkart, que diz ter elaborado um modelo de advocacia “100%
digital e com faturamento previsível”.
As publicações fixadas, por exemplo, destacam “o
maior evento de inteligência artificial para advogados do Brasil” a ser
realizado em São Paulo sob o mote “três dias para destravar uma advocacia de
alta performance”. Organizada por ele, a conferência promete ser uma “imersão
presencial” no tema.
Não se sabe se foram esses os atributos oferecidos
como diferenciais na conversa a sós com Daniel Vorcaro.
Malu Gaspar O Globo

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