Ex-presidente do Banco Central, um dos economistas
mais respeitados do Brasil e com grande trânsito no exterior (foi convidado no
início de julho por Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve, para coordenar
o grupo de trabalho que revisará a comunicação da instituição americana), Arminio
Fraga não esconde a preocupação com o país. Os mais de 80 milhões de
brasileiros inadimplentes e as dificuldades das empresas em rolar dívidas são
sintomas de problemas no mercado de crédito que costumam anteceder a períodos
recessivos. “O próprio governo encurta o perfil de sua dívida, o que é um sinal
claríssimo de que a situação está difícil”, diz. De acordo com Fraga, que é CEO
e sócio-fundador da Gávea Investimentos, o presidente Lula é um dos responsáveis pelos problemas.
“Dizem que já temos austeridade fiscal demais, mas que austeridade é essa que
fez a dívida pública crescer?”, questiona o economista, para quem cortar os
gastos requer um compromisso dos três Poderes.
Qual é o aspecto econômico que melhor
representa o terceiro mandato de Lula? As estatísticas
de emprego e de crescimento foram boas até agora, mas os ingredientes para que
o Brasil possa crescer a um ritmo mais acelerado e sustentável ainda não foram
acionados. A taxa de investimento continua muito baixa. Sem isso e sem ganhos
de produtividade, o país não vai andar. Nesse meio-tempo, as fragilidades da
economia estão crescendo.
Que fragilidades são essas? A
situação fiscal é bastante grave. Embora o governo tenha criado o arcabouço
fiscal, chutou o pau da barraca logo de cara e os resultados estão aí. Em
termos médicos, o Brasil está com uma baita febre, representada pelo fato de o
país pagar uma taxa muito alta de juro para tomar dinheiro emprestado. Esse
“febrão” não pode ser confundido com questões de curto prazo, cíclicas ou de
inflação, porque os juros de longo prazo também estão altíssimos. Desde 1994, o
crescimento per capita do Brasil foi de 1,3%, que é muito modesto, para não
dizer medíocre.
“A situação fiscal é bastante grave. Embora o
governo tenha criado o arcabouço fiscal, chutou o pau da barraca logo de cara e
os resultados estão aí, na forma de juros altos”
Como o desequilíbrio fiscal agrava esse
quadro? Do lado fiscal, as metas que foram definidas
no início do mandato nasceram modestas e não foram cumpridas. O fato é que a
situação não é sustentável. O mercado de crédito também dá sinais muito
preocupantes. Há, pelo menos, 80 milhões de pessoas inadimplentes. Muitas
empresas que se endividaram utilizaram instrumentos de securitização e hoje têm
dificuldades de rolar suas dívidas. O próprio governo está encurtando o perfil
de sua dívida, o que é um sinal claríssimo de que a situação está difícil. Eu
entendo que o governo não queira emitir papel de trinta anos pagando inflação
mais 8% ao ano, mas, por outro lado, assim ele aumenta o risco de sua própria
rolagem.
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Ainda que muitos problemas acompanhem o
país há décadas, há também a resistência de Lula em cortar gastos. Diante
disso, o que se pode prever de um eventual quarto mandato dele? O
presidente mantém uma liderança relevante nas pesquisas e é o favorito hoje
para vencer as eleições. A pergunta que deve ser feita é qual será o Lula que
teremos em um quarto governo. Sei que é difícil para o presidente aceitar, mas
há uma certa semelhança com o governo de Dilma Rousseff, quando foi feito um
grande esforço para vencer a eleição, estourando as contas de uma maneira
espetacular. A situação atual do Brasil requer muito mais um governo do estilo
Lula 1, do que do Lula 3 ou da Dilma. Não tem como tapar o sol com a peneira.
Tudo indica que o adversário de Lula na
eleição será o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O que se pode esperar de um
eventual governo dele? O que se pode levar em conta
é o governo de seu pai, Jair Bolsonaro, que foi imensamente problemático, a
começar pela própria questão da sobrevivência da democracia, para mim
inegociável. Seu pai trouxe um economista liberal para o governo, mas ele
próprio não é um liberal, nem do ponto de vista econômico, nem do político.
Aquilo criou várias tensões que não podemos esquecer. Foi um governo que não
apoiou vacinação, facilitou a venda de armas e munições e não esteve à altura
dos desafios sociais do país.
Recentemente, o senhor afirmou que
romper a polarização política é essencial para o país voltar a crescer. Há
condições de surgir uma terceira via nesta eleição? Entre
os nomes mais conhecidos, eu diria que os governadores Ronaldo Caiado e Romeu
Zema talvez pudessem oferecer respostas que contassem com o apoio do Congresso
para tirar o Brasil dessa situação. Quero crer que um Congresso que, apesar de
alguns traços ideológicos confusos, pode ser visto como de centro-direita se
sentiria mais responsável pelo país ao trabalhar com um governo da mesma linha
política.
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Em março, o senhor declarou apoio à
pré-candidatura de Eduardo Leite, ex-governador do Rio Grande do Sul. Sem ele
na corrida eleitoral, o senhor pretende apoiar outro nome? Não
pretendo. Eu me expus muito nos últimos anos e não me arrependo. Sou partidário
de procurar o melhor voto possível para o Brasil. Eu tenho votado na linha original
do PSDB, onde eu a encontrar. Sou um pouco órfão daquele PSDB histórico, pois é
o que representava a melhor chance de o país se desenvolver e oferecer mais
oportunidade a todos. O governador Eduardo Leite certamente se apresentava
nessa linha geral. O governador Caiado tem um histórico mais conservador, mas
fez um governo de qualidade em Goiás. Pode ser uma boa opção.
Que temas econômicos estão travados pela
polarização política e merecem um debate menos apaixonado e mais racional? É
saudável haver um pêndulo político que oscile um pouco para o conservadorismo
e, depois, para a esquerda, mas ele precisa ser curto. O Brasil é um país muito
desigual, por isso é difícil construir soluções, e é natural que haja essa
oscilação, mas o pêndulo não precisa ser uma bola de demolição. Há alguns
grandes blocos de soluções para o país se desenvolver. O primeiro é promover
uma reforma importante da previdência, hoje deficitária a perder de vista.
Outro aspecto tem a ver com a qualidade do Estado. Nenhum país se desenvolve
sem um Estado que funcione bem, que entregue serviços de qualidade à população.
Daí vêm ganhos de produtividade e sociais. Um terceiro bloco são os gastos
tributários. Quando se somam todos os subsídios e benefícios fiscais, incluindo
os estaduais, em parte injustificáveis, chega-se a 9% do PIB. Não é possível
que a gente não consiga cortar pelo menos uns 3 pontos percentuais disso. O
Brasil precisa passar por uma boa peneirada, porque o quadro geral é
desastroso. Uma verdadeira vergonha. Por outro lado, há muito espaço para
melhorar em todas as áreas, o que viabilizaria um crescimento acelerado e
inclusivo.
O senhor concorda com quem diz que, sem
um forte ajuste fiscal, o Brasil para em 2027?Eu
não diria que o país vai parar, mas pode ser até pior. Acho que podemos entrar
em uma recessão. O mercado de crédito dá sinais preocupantes e, quando isso
acontece, geralmente acaba mal. Se o pior cenário se materializar, não tem
muita mágica que se possa fazer.
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Em que ponto o atual governo mais errou?Há
quem diga que o Brasil já tem austeridade fiscal demais, mas que austeridade é
essa que fez o gasto público sair de um quarto do PIB para um terço nos últimos
quarenta anos? Não houve austeridade nenhuma. Faltou prioridade. Faltou encarar
esses gastos e também os gastos tributários que levam o governo a renunciar a
receitas. Hoje, alguém pode ser tributado em 8% e outra pessoa com a mesma
renda, em 27%.
“Não descarto uma recessão em 2027. Por isso, tenho
recomendado às empresas e às pessoas que tomem muito cuidado com as dívidas.
Preservem o caixa e não peguem empréstimos”
Mas o senhor já trabalha, de fato, com
um cenário de recessão no ano que vem?Trabalho, sim. Acho até
provável. Por isso, tenho recomendado às empresas bastante cuidado com o
endividamento. É preciso preservar o caixa. Às vezes, pessoas perplexas com o
que estão vendo me perguntam o que fazer agora. Em geral, eu começo dizendo
para não tomarem dinheiro emprestado. O empréstimo será um paliativo, mas o
custo é fatal. Não o tome. É o ponto principal. Tente organizar a sua vida.
Reconheço que, para uma parcela enorme da população, é impossível se planejar
financeiramente, porque as pessoas vivem na linha d’água e qualquer problema as
quebra. Mas, para quem pode, tome cuidado.
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Após o Plano Real, havia a sensação de
que o Brasil enfim decolaria. Em que ponto o país perdeu o rumo? O
Plano Real foi um marco. Na sequência, o país enfrentou algumas crises que
revelaram problemas antes ocultos pela inflação. Houve a crise bancária, a
crise fiscal e depois a crise cambial. Elas foram resolvidas antes do primeiro
governo Lula, que enfrentou uma crise de desconfiança. Lula e o PT tiveram uma
atuação excelente no primeiro mandato e superaram a crise. No meio do Lula 1,
eu realmente achava que o Brasil daria certo, mas logo a coisa começou a se
perder. A disciplina fiscal foi desaparecendo, ideias velhas e fracassadas
foram recicladas. Por várias razões — algumas externas, como a pandemia —, o
Brasil saiu dos trilhos e não voltou até agora. É um problema de natureza
política. Não é um problema tecnocrático. A pergunta que me faz perder o sono é
por que a gente não aprende com esses erros do passado?
Sendo um problema político, quanto o
Legislativo, que também pressiona por mais gastos, e o Judiciário, que defende
os penduricalhos, são responsáveis por essa situação crítica nas contas
públicas? Em termos econômicos, os penduricalhos do
Judiciário têm algum peso e, sobretudo, são um absurdo ético. Mas a maior
responsabilidade cabe ao Executivo e ao Legislativo. Cortar os gastos requer um
grau de negociação que tem se mostrado difícil, mas é um fato que, sem o
Legislativo, isso não andará. O maestro dessa orquestra é o Executivo, mas não
se pode atribuir a ele toda a responsabilidade.
O presidente da Argentina, Javier Milei,
é o modelo de parte da direita e promoveu grandes cortes de gastos. Como o
senhor o avalia? Ele encontrou um país destruído
por oitenta anos de peronismo. O grande mérito de Milei foi encarar essa
questão de frente, ainda que do jeito dele. Sua visão libertária da economia
tem feito muito bem à Argentina. Parte de seu ajuste foi meio tosco, mas não
tinha jeito. Havia muito o que fazer nesse caso. Não vejo nele nenhuma inclinação
ditatorial, como apontam alguns críticos, e, por isso, torço muito para que dê
certo. Seria muito bom.
Veja

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