Enquanto o Rio Grande do Norte enfrenta uma das
situações mais graves de vulnerabilidade hídrica do Nordeste, com 118
municípios em situação de emergência reconhecida pelo Governo Federal, o
próprio Executivo federal passou a ser alvo de acusações de ter reduzido o
fluxo de água da transposição do Rio São Francisco que deveria beneficiar o
estado.
Na última sexta-feira (3), o Ministério da
Integração e do Desenvolvimento Regional, por meio da Defesa Civil Nacional,
reconheceu a situação de emergência em Carnaubais, no Oeste potiguar, em razão
da estiagem. A falta de chuvas, segundo o próprio reconhecimento federal,
compromete o abastecimento de água, a produção agrícola e a criação de animais,
atingindo diretamente famílias, trabalhadores rurais e pequenos produtores.
O caso de Carnaubais se soma a um quadro alarmante.
De acordo com dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, o RN
possui atualmente 118 municípios com reconhecimento federal de situação de
emergência. São 103 cidades afetadas pela seca, 14 pela estiagem e 7 por
enchentes provocadas por fortes chuvas. O reconhecimento permite que as
prefeituras solicitem recursos à União para compra de água mineral, cestas
básicas, kits de higiene, kits de limpeza e outras ações emergenciais.
Mas, em meio ao avanço da seca e da estiagem, o
pré-candidato a deputado federal pelo PL, Nilvan Ferreira, divulgou um vídeo
acusando o Governo Federal de ter fechado comportas e reduzido a água da
transposição do Rio São Francisco que chegaria ao Rio Grande do Norte. No
registro, feito em estruturas do canal em Bom Jesus, ele afirma que o local
estaria secando após a interrupção do fluxo.
Segundo Nilvan, a água teria sido liberada apenas
temporariamente para produzir imagens de divulgação e propaganda política.
Depois disso, ainda conforme a denúncia feita por ele, as comportas teriam sido
fechadas, deixando a população sem o abastecimento prometido. “Vocês fizeram
gambiarra com container, vocês fizeram gambiarra com ponte, vocês fizeram
gambiarra, um espetáculo cinematográfico para você vir fazer toda aquela
propaganda”, afirmou.
A acusação é grave porque ocorre justamente no momento
em que o próprio Governo Federal reconhece oficialmente a emergência hídrica em
dezenas de municípios potiguares. Para Nilvan Ferreira, a população nordestina
teria sido enganada com imagens de fartura de água, enquanto, na prática, o
canal estaria voltando a secar e a promessa de segurança hídrica não estaria
sendo cumprida.
O contraste é direto: de um lado, o Governo Federal
publica portarias reconhecendo que municípios do RN precisam de socorro por
causa da estiagem e da seca; de outro, é acusado de reduzir ou interromper o
fluxo da principal obra hídrica prometida para aliviar o sofrimento do
semiárido. Se confirmada, a situação expõe uma contradição dura: o governo
reconhece a calamidade, mas seria apontado por adversários como responsável por
limitar justamente a água que poderia amenizar a crise.
A situação reacende o debate sobre a efetividade da
transposição do São Francisco e sobre a prioridade dada ao abastecimento do Rio
Grande do Norte. Para os municípios em emergência, a discussão não é apenas
política. É uma questão de sobrevivência, produção, dignidade e acesso à água.
O espaço permanece aberto para manifestação do Governo Federal sobre as
acusações.

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