Em meio a cinco hectares de mata reflorestada e
manguezal na Redinha, o sítio histórico Gamboa do Jaguaribe preserva não apenas
a natureza, mas também a memória dos povos indígenas que habitaram a região
antes mesmo da fundação de Natal. O espaço reúne ações de educação ambiental,
valorização da ancestralidade e resgate histórico, aproximando visitantes das
origens do território potiguar e dos saberes dos povos originários.
O caminho passa por ocas, lago, trilhas e áreas de mangue
recuperadas. Cada espaço ajuda a contar uma história. “Aqui a gente trava uma
uma desconstrução do que é o povo indígena. A gente traz a educação para
mostrar que estamos presentes em todos os lugares”, explica Jaguar, integrante
do projeto.
À primeira vista, a paisagem chama atenção pela
tranquilidade. Mas basta avançar alguns metros pelas trilhas para ver a
história ser contada. O sítio histórico surgiu há 20 anos com o replantio de
manguezal e mata nativa e, desde então, tornou-se um espaço de preservação
ambiental, onde escolas e grupos interessados em saber mais sobre a história do
RN visitam para turismo pedagógico.
“Aqui foi um local onde começou a construção da
cidade de Natal. O primeiro acordo feito para construção da Fortaleza do Reis
Magos foi feito aqui com Potiguassu que é pai de Felipe Camarão”, disse Jaguar.
Segundo documentos históricos e estudos do
historiador Olavo de Medeiros Filho, o local e suas adjacências foram áreas
habitadas pelos Potiguaras. “Então, saiu um acordo aqui de Potiguassu com
Geraldo de Albuquerque. O primeiro acordo aqui em 1598 para construção da
Fortaleza foi feito nesse lugar”, afirma.
A área da Gamboa, que anteriormente abrigava
viveiros de camarão, passou por um processo de recuperação ambiental e deu lugar
a um lago e a cinco hectares de manguezal, hoje habitat de diversas espécies de
peixes, crustáceos e outros animais.
Em uma das etapas do percurso os visitantes chegam
ao rio, onde participam de atividades de contato com a natureza e podem tomar
banho em uma área cercada pela vegetação do manguezal.
Ao fim do percurso, as crianças chegam ao rio, onde
antigamente funcionava uma fazenda de carcinicultura. Hoje, o local é utilizado
para banho e atividades de contato com a natureza. A área também abriga uma
região de manguezal preservada.
Atualmente, a reserva abriga mais de 70 espécies de
árvores, entre elas pau-brasil, goiabeira e mutamba, além de cerca de 15
espécies de mamíferos, como guaxinins, raposas e cutias.
Abraçada pelas águas do Rio Jaguaribe, principal
afluente do Potengi, a área passou por um processo de recuperação ambiental que
transformou antigos viveiros de camarão desativados em um lago e cinco hectares
de manguezal, hoje habitat de diversas espécies de peixes e crustáceos.
Para manter as atividades, a reserva conta com
recursos obtidos por meio de editais culturais e, principalmente, das
contribuições arrecadadas com as visitas realizadas no espaço.
As visitas à Gamboa do Jaguaribe costumam durar um
turno inteiro. A programação inclui atividades nas ocas, onde são realizadas
rodas de conversa sobre história, cultura indígena e meio ambiente. Em seguida,
os visitantes percorrem uma trilha pela área reflorestada e conhecem o
manguezal, encerrando o passeio.
Ao final do percurso, uma escultura de uma onça
bebendo água chama a atenção dos visitantes e remete à origem do nome do local.
“Gamboa significa lugar bom para ancorar e Jaguaribe, onça e água. É por isso
que temos uma escultura da onça bebendo água”, revela Jaguar.
Ybytuguasu Potiguara, guia das visitas ao sítio,
explica que a experiência vai além do contato com a natureza. “Para os que se
consideram indígenas potiguara mesmo, e para aqueles que só moram no Rio Grande
do Norte, que carregam esse nome, é uma visão totalmente diferente. Para nós
que se declaramos indígenas, de contexto urbano, significa um espaço de força,
sabe? De se reconectar com a nossa ancestralidade”, revela.
Segundo o guia, muitos visitantes chegam ao local
com a expectativa de encontrar animais ao longo da trilha. “A gente gosta de
destacar que aqui, por ser uma mata preservada, a gente não vai ver animais
circulando normalmente. Se a gente der sorte, a gente consegue ver um macaco,
um jabuti, uma cutia.”
Ao falar sobre a importância da preservação da
cultura indígena, Ybytuguasu fala orgulhoso uma frase em tupi que, segundo ele,
resume o propósito do projeto: “Nomanõi xué ne. Tupi oikobé auieramanhe ne”,
expressão traduzida como “Tupi não morrerá. Tupi viverá para sempre”.
Reserva preserva biodiversidade
Além das ações de educação ambiental, o grupo
realiza mutirões de limpeza e recolhe toneladas de resíduos que chegam pela
maré.
Segundo os integrantes, parte significativa do lixo
encontrado é formada por resíduos hospitalares, como seringas e embalagens de
medicamentos que acabam chegando ao manguezal.
Ao longo da trilha, os visitantes encontram bancos
identificados com nomes de animais da Mata Atlântica, como cobra potiguara,
borboleta potiguara e cobra-coral. A homenagem faz referência à fauna que já
habitou a região e ajuda a manter viva a memória dessas espécies.
O espaço também guarda lembranças de uma
biodiversidade que já foi mais abundante. Segundo os integrantes do projeto,
antigamente era possível avistar animais como mico-leão, araras e papagaios,
espécies que deixaram de ser vistas na área nos últimos anos.
A Gamboa recebe, principalmente, grupos de crianças
de escolas particulares, que participam de experiências voltadas ao contato
direto com a natureza.
De acordo com Jaguar, o trabalho também envolve a
desconstrução de percepções negativas sobre a natureza.
“É uma vivência que a gente faz com as crianças que
chegam aqui elas começam a se conectar e andar sentir a terra conhecer as
árvores tem todo um trabalho de desconstrução de mostrar o que é a natureza que
não faz mal, que a mata é uma coisa sagrada”, revela.
Papel na educação
Durante as visitas agendadas, os participantes são
recebidos com milho, beiju, amendoim e suco. Também conhecem o urucum, que é
amassado e utilizado para pinturas corporais.
A proposta educativa da Gamboa vai além do contato
com a natureza. O espaço também desenvolve ações culturais voltadas à formação
ambiental e cidadã, como o CineOka, cineclube realizado desde 2017 e que já
soma mais de 30 edições.
O projeto traz questões de preservação ambiental e
indígenas do Nordeste, abordando etno-histórias, costumes e lendas por meio da
exibição de filmes relacionados a esses temas. As exibições incluem ainda
histórias de povos como Potiguara, Tupinambá e Xukuru, além de outras
comunidades indígenas.
Segundo Ta’angahara, integrante do projeto, a
iniciativa exibe produções com temáticas indígenas, ambientais e alimentares,
acompanhadas de debates que estimulam reflexões sobre questões étnico-raciais e
socioambientais. “O CineOka vem a ser uma janela do audiovisual, não somente do
Rio Grande do Norte, mas também a nível nacional”, afirma.
Ele destaca que a pauta indígena ainda tem pouco
espaço nas escolas e que há uma falta de visibilidade para a pluralidade de
culturas no ambiente escolar do estado. “Aqui são provocados debates para uma
reflexão de como o audiovisual e a indústria cultural podem contribuir para uma
lucidez étnico-racial, socioambiental e também alimentar”, afirma.
A Gamboa também recebe feiras de economia criativa,
rodas de capoeira, rodas de coco e exposições de artes visuais.
O espaço também abriga uma exposição de fotografias
produzidas por indígenas no sítio histórico, reunindo registros que dialogam
com a memória do local.
Além disso, o sítio conta com uma biblioteca ainda
em fase de formação, que deve ampliar o acesso a materiais de estudo e pesquisa
sobre temas ligados à cultura indígena, meio ambiente e saberes tradicionais.
A visitação ao espaço pode ser realizada mediante agendamento prévio pelo
telefone 84 8838-0585.

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