O ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal
Federal, concedeu uma longa entrevista à Folha de S.Paulo publicada no sábado
(24), na qual abordou o escândalo do Banco Master, o Fórum de Lisboa, o código
de ética do STF e a rejeição de Jorge Messias ao tribunal. Mas o que chamou a
atenção não foi apenas o conteúdo das respostas. Foi o tom. Agressivo, irônico
e carregado de ataques diretos ao próprio jornal que o entrevistava. O que se
vê, no conjunto das declarações, é um magistrado que parece menos preocupado em
esclarecer e mais empenhado em atacar quem pergunta.
Ao ser questionado sobre a associação do STF ao caso
do Banco Master, Gilmar não se limitou a negar a responsabilidade da Corte.
Partiu para o ataque: "Me parece que você coloca o tribunal num corredor
polonês; depois a Folha faz pesquisa e revela uma frustração." A metáfora
é pesada. O corredor polonês remete a uma punição coletiva, em que a vítima é
agredida por todos os lados enquanto caminha. Na leitura do ministro, a
imprensa constrói a narrativa, alimenta a desaprovação popular e depois usa
essa mesma desaprovação como justificativa para continuar a cobertura crítica.
A inversão é completa: a imprensa deixa de ser fiscalizadora e passa a ser
retratada como algoz.
O golpe mais direto, porém, veio quando a Folha
perguntou se autoridades estariam repensando a ida ao Fórum de Lisboa por causa
das polêmicas envolvendo o patrocínio do Banco Master ao evento. A resposta de
Gilmar foi carregada de ironia: "Talvez pessoas que não queiram ir ao
fórum e queiram ser simpáticas à ideologia da Folha estejam ecoando isso, mas
não percebemos isso, felizmente." A expressão "ideologia da
Folha" não é uma crítica editorial qualquer. É uma tentativa de reduzir a
cobertura jornalística a uma agenda ideológica, sugerindo que o jornal não faz
jornalismo, faz militância. É o tipo de linguagem que se espera de um político
em campanha, não de um ministro do Supremo.
Em outra passagem, Gilmar tentou redirecionar toda a
responsabilidade da crise para o mercado financeiro: "Houve certa
habilidade em transferir para o tribunal a responsabilidade por fatos que são
graves e que revelam uma crise sistêmica. A crise do Master não está na Praça
dos Três Poderes, está na Faria Lima." A palavra "habilidade"
funciona como um elogio envenenado a quem, segundo ele, teria manobrado a
opinião pública para colocar o STF no centro do escândalo. O problema é que a
associação entre o caso e o tribunal não nasceu de uma manobra. Nasceu do fato
de que dois ministros da Corte, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, tiveram
ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro reveladas pela própria apuração
jornalística.
Sobre o Fórum de Lisboa, o chamado
"Gilmarpalooza", que contou com financiamento do Banco Master e já
recebeu autoridades que se tornaram alvo de investigação, Gilmar foi evasivo:
"Não temos nenhum controle sobre isso." Em seguida, contrapôs com
autoelogio: "Estamos fazendo um dos maiores eventos que já fizemos, com
mais de 470 palestrantes e disputas por lugar." A estratégia é conhecida:
negar qualquer dano, recusar qualquer autocrítica e responder com demonstrações
de grandeza.
A entrevista à Folha, porém, não é um fato isolado.
Ela faz parte de uma ofensiva midiática sem precedentes do decano. Como o
próprio jornal registrou em reportagem de 23 de abril, Gilmar concedeu ao menos
sete entrevistas a diferentes veículos em um intervalo de apenas três dias.
Repetiu os mesmos argumentos de defesa em todas elas. Atacou o relator da CPI
do Crime Organizado, o senador Alessandro Vieira, chamando sua atuação de
"covardia". Comparou críticas ao STF a "retratar Zema como
homossexual", declaração pela qual precisou se desculpar publicamente
horas depois. E afirmou que não se assusta com ameaças de impeachment,
classificando os pedidos como "perda de tempo".
O colunista Marcus André Melo, da própria Folha,
capturou bem o fenômeno em artigo de 26 de abril: "Entrevistas recentes do
ministro Gilmar Mendes têm causado perplexidade pelo tom defensivo e pelos
ataques desferidos. Em vários momentos, não fica claro se suas falas constituem
narrativas retóricas em reação à onda de críticas ao Supremo, avaliações
efetivas dos fatos ou simplesmente atos falhos." Melo ainda observou que a
postura de Gilmar sugere uma visão do STF como um "governo dentro do governo",
no qual o decano seria uma espécie de primeiro-ministro e o presidente Fachin,
um chefe de Estado meramente simbólico.
O que se extrai do conjunto dessas declarações é o
retrato de um ministro que se sente encurralado. A entrevista à Folha deveria
ser um exercício de transparência, mas se transformou numa trincheira. O volume
de ataques ao jornal, as acusações de viés ideológico, a metáfora do corredor
polonês e a recusa sistemática em reconhecer problemas internos do STF revelam
menos um magistrado disposto a prestar contas e mais um homem público que
responde à pressão com agressividade. Quando um membro da mais alta corte do
país precisa conceder sete entrevistas em três dias e, ainda assim, usa o
espaço para desqualificar quem apura os fatos, o sinal é inequívoco: a imprensa
está cumprindo seu papel, e isso claramente incomoda.

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