segunda-feira, 25 de maio de 2026

Mais um desastre de Gilmar Mendes em forma de entrevista

 


O ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal, concedeu uma longa entrevista à Folha de S.Paulo publicada no sábado (24), na qual abordou o escândalo do Banco Master, o Fórum de Lisboa, o código de ética do STF e a rejeição de Jorge Messias ao tribunal. Mas o que chamou a atenção não foi apenas o conteúdo das respostas. Foi o tom. Agressivo, irônico e carregado de ataques diretos ao próprio jornal que o entrevistava. O que se vê, no conjunto das declarações, é um magistrado que parece menos preocupado em esclarecer e mais empenhado em atacar quem pergunta.

Ao ser questionado sobre a associação do STF ao caso do Banco Master, Gilmar não se limitou a negar a responsabilidade da Corte. Partiu para o ataque: "Me parece que você coloca o tribunal num corredor polonês; depois a Folha faz pesquisa e revela uma frustração." A metáfora é pesada. O corredor polonês remete a uma punição coletiva, em que a vítima é agredida por todos os lados enquanto caminha. Na leitura do ministro, a imprensa constrói a narrativa, alimenta a desaprovação popular e depois usa essa mesma desaprovação como justificativa para continuar a cobertura crítica. A inversão é completa: a imprensa deixa de ser fiscalizadora e passa a ser retratada como algoz.

O golpe mais direto, porém, veio quando a Folha perguntou se autoridades estariam repensando a ida ao Fórum de Lisboa por causa das polêmicas envolvendo o patrocínio do Banco Master ao evento. A resposta de Gilmar foi carregada de ironia: "Talvez pessoas que não queiram ir ao fórum e queiram ser simpáticas à ideologia da Folha estejam ecoando isso, mas não percebemos isso, felizmente." A expressão "ideologia da Folha" não é uma crítica editorial qualquer. É uma tentativa de reduzir a cobertura jornalística a uma agenda ideológica, sugerindo que o jornal não faz jornalismo, faz militância. É o tipo de linguagem que se espera de um político em campanha, não de um ministro do Supremo.

Em outra passagem, Gilmar tentou redirecionar toda a responsabilidade da crise para o mercado financeiro: "Houve certa habilidade em transferir para o tribunal a responsabilidade por fatos que são graves e que revelam uma crise sistêmica. A crise do Master não está na Praça dos Três Poderes, está na Faria Lima." A palavra "habilidade" funciona como um elogio envenenado a quem, segundo ele, teria manobrado a opinião pública para colocar o STF no centro do escândalo. O problema é que a associação entre o caso e o tribunal não nasceu de uma manobra. Nasceu do fato de que dois ministros da Corte, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, tiveram ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro reveladas pela própria apuração jornalística.

Sobre o Fórum de Lisboa, o chamado "Gilmarpalooza", que contou com financiamento do Banco Master e já recebeu autoridades que se tornaram alvo de investigação, Gilmar foi evasivo: "Não temos nenhum controle sobre isso." Em seguida, contrapôs com autoelogio: "Estamos fazendo um dos maiores eventos que já fizemos, com mais de 470 palestrantes e disputas por lugar." A estratégia é conhecida: negar qualquer dano, recusar qualquer autocrítica e responder com demonstrações de grandeza.

A entrevista à Folha, porém, não é um fato isolado. Ela faz parte de uma ofensiva midiática sem precedentes do decano. Como o próprio jornal registrou em reportagem de 23 de abril, Gilmar concedeu ao menos sete entrevistas a diferentes veículos em um intervalo de apenas três dias. Repetiu os mesmos argumentos de defesa em todas elas. Atacou o relator da CPI do Crime Organizado, o senador Alessandro Vieira, chamando sua atuação de "covardia". Comparou críticas ao STF a "retratar Zema como homossexual", declaração pela qual precisou se desculpar publicamente horas depois. E afirmou que não se assusta com ameaças de impeachment, classificando os pedidos como "perda de tempo".

O colunista Marcus André Melo, da própria Folha, capturou bem o fenômeno em artigo de 26 de abril: "Entrevistas recentes do ministro Gilmar Mendes têm causado perplexidade pelo tom defensivo e pelos ataques desferidos. Em vários momentos, não fica claro se suas falas constituem narrativas retóricas em reação à onda de críticas ao Supremo, avaliações efetivas dos fatos ou simplesmente atos falhos." Melo ainda observou que a postura de Gilmar sugere uma visão do STF como um "governo dentro do governo", no qual o decano seria uma espécie de primeiro-ministro e o presidente Fachin, um chefe de Estado meramente simbólico.

O que se extrai do conjunto dessas declarações é o retrato de um ministro que se sente encurralado. A entrevista à Folha deveria ser um exercício de transparência, mas se transformou numa trincheira. O volume de ataques ao jornal, as acusações de viés ideológico, a metáfora do corredor polonês e a recusa sistemática em reconhecer problemas internos do STF revelam menos um magistrado disposto a prestar contas e mais um homem público que responde à pressão com agressividade. Quando um membro da mais alta corte do país precisa conceder sete entrevistas em três dias e, ainda assim, usa o espaço para desqualificar quem apura os fatos, o sinal é inequívoco: a imprensa está cumprindo seu papel, e isso claramente incomoda.

 

 

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