O presidente Lula, em entrevista ao ICL Notícias,
referiu-se ao ministro do STF Alexandre de Moraes como “companheiro Alexandre”
para, três frases depois, jogar o companheiro Alexandre aos leões. Dois dias
após a CPI do Banco Master revelar que o patrimônio do magistrado triplicou
desde a sua chegada ao STF — e que só os 17 imóveis que possui com a mulher
estão avaliados em R$ 31,5 milhões —, Lula afirmou que quem quer “ficar
milionário não pode ser ministro da Suprema Corte”. Disse ainda que “salário de
deputado, governador, presidente da República não permite que ninguém seja
rico”. E acrescentou: se alguém enriquece durante o mandato, é “porque teve
outras coisas para ficar rico”. Um pouco mais e Moraes ficaria tentado a
enquadrar Lula num de seus inquéritos imorríveis.
O presidente tem vários motivos — até onde a vista
alcança, todos de natureza eleitoral — para largar a mão daquele a quem, por
mais de uma ocasião, chamou de salvador da democracia — uma das togas mais
poderosas do tribunal que foi o parceiro institucional e instância de
sustentação de seu governo nos choques com o Congresso.
A primeira razão para Lula descartar o até aqui
aliado Moraes é que a sucessão de revelações sobre as ligações cada vez mais
escancaradas entre o Banco Master e os cada vez menos egrégios ministros do
Supremo tornou improvável a contenção do escândalo — e ele não pode se dar ao
luxo de ficar na contramão da opinião pública. Segundo a última pesquisa
Quaest, mais brasileiros não confiam no STF (49%) do que confiam (43%); e 66%
querem votar em candidatos ao Senado que apoiem o impeachment de ministros. O
pior dado para Lula: 59% veem a Corte como aliada do governo.
Há uma segunda razão para ele abandonar Moraes —
cuja biografia disse ter tentado salvar sugerindo ao ministro uma declaração de
impedimento e um truque retórico (“Diga textualmente: ‘Minha mulher estava
advogando, minha mulher não tem que pedir licença pra mim, ela faz as
coisas…’.”). Essa razão passa pelo fato de, assim como Lula, Flávio Bolsonaro
dar um braço para não ter de subir num palanque e falar sobre o envolvimento de
ministros do STF no caso Master.
O filho de Jair Bolsonaro segue com o freio de mão
puxado no assunto não apenas por ter pai presidiário e à mercê da Corte, mas
por temer pela própria sorte. Assombra-o a hipótese — até agora nem cogitada,
nem fundamentada — de integrantes da Corte produzirem um fato jurídico que leve
o TSE a indeferir o registro de sua candidatura. Por isso, até aqui, o
bolsonarista vem tratando com ponderada distância os passivos de Moraes e Dias
Toffoli — o combinado é que, provocado, ele jogue para os candidatos ao
Congresso a resposta sobre eventuais impeachments. Próceres do PL receiam ainda
pelo destino de cinco pré-candidatos do partido ao Senado que respondem a ações
no Supremo, entre eles Carlos Bolsonaro.
Por motivos distintos, tanto Lula quanto Flávio
pretendiam manter a maior distância possível do inconveniente assunto dos
magistrados radioativos. A entrada de Caiado na eleição, porém, tende a obrigar
os dois a mudar o jogo. Na segunda-feira, o candidato do PSD declarou que,
antes mesmo de um eventual impeachment de ministros, o STF deveria “cortar na
própria carne” e afastar os nomes envolvidos no escândalo. Ao arrastar o tema
para a arena presidencial, Caiado obriga Flávio a segui-lo, ao mesmo tempo que
força Lula a se mexer para não ficar com o mico na mão.
A terceira razão para o petista buscar
distanciamento sanitário do ex-aliado Moraes nasce do solo fértil da
especulação: é que um passarinho, altamente informado sobre o andamento das
investigações policiais do Master, contou ao presidente que mais coisa pesada
vem por aí — e que não há salvação para a biografia do companheiro Alexandre.
Thais Oyama - O Globo

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