Pedir exames faz parte da prática médica, afinal,
são eles que ajudam a confirmar hipóteses, afastar diagnósticos e orientar
condutas. O problema começa quando os exames deixam de ser ferramenta clínica
para se tornarem um “negócio”, especialmente em consultórios que também vendem
a solução: soroterapia, implantes hormonais, fórmulas manipuladas e protocolos
personalizados com a promessa de um atendimento mais centrado no perfil do
paciente.
Nos últimos anos, especialmente com o avanço das
redes sociais, uma série de exames laboratoriais ganhou popularidade fora das
indicações tradicionais. Na maioria das vezes, eles são solicitados para
investigar sintomas inespecíficos como cansaço, queda de libido, desânimo,
dificuldade para emagrecer ou “falta de energia”. O roteiro costuma ser
parecido: uma bateria extensa de testes, a identificação de um “desequilíbrio”
e, em seguida, a oferta de reposições hormonais, vitaminas injetáveis ou
combinações manipuladas.
O problema é que, do ponto de vista da medicina
baseada em evidências, vários desses exames não têm indicação validada em
diretrizes clínicas para os fins com que vêm sendo utilizados. E o prejuízo nem
sempre é apenas financeiro. Resultados fora da faixa de referência, mesmo sendo
clinicamente irrelevantes, podem levar a novas investigações, rótulos
desnecessários e tratamentos com potenciais efeitos adversos. Em vez de simplificar,
o excesso pode medicalizar sintomas comuns da vida moderna.
O endocrinologista André Gonçalves, superintendente
do Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí (HU-UFPI) e
professor na mesma instituição, fez um post em sua rede social chamando a
atenção para esse movimento. “Tem sido cada vez mais comum a solicitação ampla
de múltiplos exames sem um contexto clínico adequado. Isso é vendido como
medicina personalizada, medicina ortomolecular, medicina de alta performance.
Os nomes vão mudando, mas, na prática, é a mesma coisa”, afirma. Segundo ele,
muitas vezes os exames são pedidos de forma genérica, seguindo praticamente o
mesmo roteiro para todos os pacientes, apesar do discurso de individualização.
A endocrinologista Karen de Marca, presidente-eleita
da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), relata ter se
deparado recentemente com uma situação que ilustra o fenômeno. “Uma pessoa da
minha família estava se preparando para engravidar e me mostrou uma lista de exames
que pediam dosagem de endorfina, resveratrol, ômega-3. Perguntei: ‘Isso é uma
prescrição?’. Ela respondeu que a ginecologista que fala de fertilidade no
Instagram diz que é preciso dosar esses itens para garantir o desenvolvimento
do feto.”
Karen destaca que, além de não terem nenhuma
indicação clínica para investigação de fertilidade, esses exames muitas vezes
não são cobertos pelos planos de saúde.
Custo além do bolso
De acordo com os especialistas, o impacto no bolso
do paciente não é o único. “Às vezes, o paciente acha que não está gastando
porque o plano de saúde cobre. Mas o custo daquele exame é diluído no cálculo
atuarial. Se o médico pede exames indiscriminadamente, o custo para todos os
usuários aumenta”, explica Gonçalves.
Karen vai além: “Quando são pedidos muitos exames,
podemos encontrar alterações que, na maioria das vezes, não têm nenhum
significado clínico. Aí o profissional diz que o paciente está com deficiência
de ‘x’ nutriente, prescreve manipulado, protocolo da clínica, infusão”.
“Tudo que for vendido como protocolo clínico,
desconfie”, alerta a médica. “Sair pedindo tudo na expectativa de encontrar e
vender a solução parece ser incompetência ou abuso.”
Tarcila Campos, nutricionista do Centro
Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, observa
que os exames inespecíficos se tornaram ferramenta de marketing também no campo
da nutrição, especialmente para quem busca resultados estéticos.
“Hoje o exame virou agregador de valor. Parece que
quanto mais eu procuro, mais eficiente será o tratamento. Mas, muitas vezes, o
paciente não está fazendo o básico: não dorme bem, não se alimenta direito, não
faz atividade física.”
Ela lembra que a prática baseada em evidências
começa por uma boa anamnese. “Menos é mais. O exame não substitui a conversa, o
entendimento do contexto daquela pessoa.”
A seguir, especialistas citam alguns exames que têm
sido pedidos sem contexto clínico e explicam por que não devem ser solicitados
de rotina.
1- T3 reverso
O T3 reverso é uma forma inativa do hormônio T4
(tiroxina). A tireoide produz principalmente o T4, que no organismo é
convertido em T3 (a forma ativa, responsável por regular o metabolismo). Em
algumas situações, porém, o corpo transforma o T4 em T3 reverso, que tem
estrutura semelhante, mas não exerce efeito biológico relevante. Essa conversão
costuma aumentar em contextos de doença grave, infecções importantes ou
estresse metabólico, como parte de um mecanismo de adaptação para reduzir o
gasto energético.
“Ele costuma aparecer na síndrome do eutireoidiano
doente e visa poupar energia diante de uma doença aguda. Mas ele não define
hipotireoidismo ou hipertireoidismo, por isso não tem indicações para ser
dosado de rotina. O que define desordem na tireoide é TSH (hormônio
tireoestimulante) e T4 livre”, explica Karen.
2- Serotonina plasmática
A serotonina é um neurotransmissor associado à
regulação do humor, sono, apetite e bem-estar. Na prática médica, a dosagem de
serotonina plasmática tem indicação bastante específica, como na investigação e
no acompanhamento de tumores neuroendócrinos (especialmente a síndrome
carcinoide). “Não é um exame validado para diagnosticar depressão, ansiedade ou
‘falta de felicidade’, nem para orientar suplementação de serotonina”, alerta
Gonçalves.
Alguns medicamentos com efeito antidepressivo são
inibidores de recaptação de serotonina, ou seja, aumentam a disponibilidade de
serotonina no espaço entre os neurônios (fenda sináptica) — daí essa ligação
com bem-estar e felicidade. “Mas isso não significa que sua dosagem no sangue
diagnostique depressão. Os pacientes que têm dosado serotonina têm sido
submetidos à reposição de serotonina no soro com a promessa de melhorar o
desânimo, a tristeza”, diz.
3- Cortisol para ‘medir estresse’
O cortisol é um hormônio produzido pelas glândulas
suprarrenais e desempenha papel central na resposta ao estresse. Diante de uma
situação desafiadora, seja ela física ou emocional, o organismo ativa o chamado
eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, aumentando a liberação de cortisol para
mobilizar energia, elevar a glicose no sangue e preparar o corpo para reagir.
Embora o estresse possa elevar temporariamente seus
níveis, o cortisol varia naturalmente ao longo do dia (é mais alto pela manhã e
cai à noite), e sua dosagem isolada no sangue não é um método confiável para
“medir estresse”. O exame tem indicação específica para investigar doenças
hormonais, como síndrome de Cushing ou insuficiência adrenal, e não para
quantificar o estresse do cotidiano. “O estresse pode elevar o cortisol, mas
não existe diretriz que mande dosar cortisol para quantificar estresse”, diz
Karen.
4- Testosterona em mulheres para ‘deficiência’
A dosagem de testosterona em mulheres tem indicação
restrita e deve ser pedida com cautela. Diferentemente dos homens, mulheres
produzem pequenas quantidades desse hormônio, e os métodos laboratoriais nem
sempre são precisos para medir níveis tão baixos. O exame costuma ser útil
principalmente quando há suspeita de excesso de andrógenos, como na
investigação de síndrome dos ovários policísticos ou tumores produtores de
hormônio. Já para diagnosticar uma suposta “deficiência de testosterona”
feminina, muitas vezes associada a queixas como baixa libido ou cansaço, não há
critério bem estabelecido.
“Talvez esse seja o tema mais recorrente. A gente
não consegue nem definir o que seria um hipoandrogenismo feminino”, explica
Karen. Segundo ela, queixas como baixa libido e indisposição precisam ser
avaliadas no contexto. “Na maioria das vezes, é queda de estrogênio ou desordem
da tireoide.” Gonçalves complementa que os resultados baixos acabam sendo
usados para justificar reposição hormonal, incluindo implantes e fórmulas
manipuladas.
5- Lítio
A dosagem de lítio é indicada principalmente para
monitorar pacientes que usam medicamentos com o elemento no tratamento de
transtorno bipolar e outras condições psiquiátricas. Como o lítio tem uma faixa
terapêutica estreita (a diferença entre dose eficaz e dose tóxica é pequena), o
controle periódico no sangue é fundamental para garantir segurança e eficácia.
“Fora desse contexto, não há recomendação para medir
lítio de rotina nem para investigar supostas deficiências, já que não existe
parâmetro clínico estabelecido para reposição e o excesso pode causar efeitos
adversos importantes, como alterações renais e neurológicas”, diz Gonçalves.
Tarcila alerta para o risco da suplementação sem
indicação. “Se eu encontro uma suposta ‘deficiência’ de lítio, o que faço com
isso? Não temos estudos que orientem dose, segurança ou benefício. E existe
risco de toxicidade.”
6- Selênio, cobre, alumínio
A dosagem rotineira de minerais como selênio e cobre
raramente tem indicação clínica para a população geral. A investigação costuma
ser indicada apenas quando há suspeita de deficiência nutricional importante
(como em casos de desnutrição grave ou após cirurgia bariátrica) ou de
exposição e intoxicação, especialmente ocupacional ou ambiental.
Segundo os especialistas, se a pessoa não tem
restrição alimentar (não é vegana, por exemplo), não há por que o médico
imaginar que ela tenha deficiência de múltiplos minerais, por isso não faz
sentido pedir esses exames.
Tarcila ressalta que para pessoas sem sintomas ou
fatores de risco claros, esses exames não são recomendados como rastreamento,
pois pequenas variações nos níveis laboratoriais nem sempre têm significado
clínico e podem levar a suplementações desnecessárias ou potencialmente
prejudiciais. “Preciso ter um contexto clínico muito claro antes de prescrever
uma suplementação. Mesmo em pessoas com alimentação precária é difícil ter
deficiência de selênio”, diz.
7- Marcadores tumorais
Marcadores tumorais são substâncias, geralmente
proteínas, que podem estar aumentadas no sangue em alguns tipos de câncer, mas
não são exames de rastreamento para a população geral. Eles costumam ser usados
principalmente para acompanhar a evolução da doença em pacientes que já têm
diagnóstico confirmado, ajudando a monitorar a resposta ao tratamento ou
detectar recidiva.
“Marcador tumoral não é exame de rotina. Quando
solicitados sem indicação clínica clara, podem gerar resultados
falso-positivos, ansiedade e uma cascata de exames desnecessários”, diz Karen.
Dosagens de CA-125, CEA, CA 19-9, por exemplo, devem ser usadas no seguimento
de quem já teve câncer ou em investigação direcionada, não como rastreamento
genérico.
8- Tolerância à lactose e anticorpos para doença
celíaca
O teste de tolerância à lactose deve ser solicitado
somente quando há sintomas ou suspeita clínica consistente. Ele costuma ser
indicado diante de queixas como distensão abdominal, gases, dor e diarreia após
o consumo de leite e derivados, e não como rastreamento em pessoas
assintomáticas.
O mesmo vale para a investigação de doença celíaca,
que envolve a dosagem de anticorpos específicos no sangue e é recomendada
quando há sinais como diarreia crônica, anemia inexplicada, perda de peso ou
histórico familiar.
Fazer esses exames sem sintomas pode levar a
diagnósticos equivocados e restrições alimentares desnecessárias. “Não faz
sentido pedir para quem não tem sintoma nenhum. Virou moda fazer dieta sem
glúten como se todo mundo tivesse intolerância. Não é assim que se investiga”,
diz Karen.
Papel do paciente
Os especialistas reconhecem que é difícil para o
paciente distinguir o que é necessário do que é excesso na lista de exames. Mas
alguns sinais podem servir de alerta:
listas extensas e padronizadas (aquelas com
quadradinho em que o médico assinala com um ‘X’);
indicação de fazer o exame no próprio consultório;
promessa de “protocolo” ou “equilíbrio hormonal”;
associação direta entre resultado e venda de
tratamento.
“A gente não pode ganhar em cima de prescrição
médica. Se o médico disser ‘faça aqui na minha clínica’, já é um sinal de
alerta”, diz Karen. Para Tarcila, a chave continua sendo o básico. “Fazer mais
exames não significa ter mais saúde. Ainda resolvemos muita coisa com arroz e
feijão, sono adequado e atividade física.”
Estadão

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