Quem acompanha a trajetória política de Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) testemunhou nesta semana uma transformação que seria
impensável há dois anos. Do plenário do Senado, o pré-candidato à Presidência
fez o discurso mais duro de sua carreira contra o ministro Alexandre de Moraes
(inclusive, questionando sua legitimidade, denunciando perseguição e acusando-o
de querer desequilibrar as eleições de 2026).
É o mesmo Flávio que, em abril de 2024, declarou ao
vivo no Roda Viva: "Sou contra o impeachment de Moraes. Não resolve os
problemas." O mesmo que, em agosto de 2025, quando a ala bolsonarista mais
radical recolhia assinaturas para o impedimento do ministro, evitou assinar o
pedido.
De moderado a protagonista do embate
A mudança não foi acidental. Até março de 2026,
quando começou a se posicionar como pré-candidato ao Planalto, Flávio cultivava
deliberadamente um perfil de moderação. O próprio Moraes chegou a classificar a
postura do senador como "moderada" em conversas reservadas,
contrastando-o com o estilo combativo do pai.
Mas a abertura do inquérito por calúnia — motivada
por um post em que Flávio escreveu que "Lula será delatado" após a
captura de Maduro — mudou o cálculo político.
No Senado, o senador não poupou palavras: "Onde
está a imunidade parlamentar? Onde está a liberdade de expressão? Uma petição
simples de ser arquivada. Não se trata de ofensa, mas da opinião de um senador
da República."
E foi além, apontando diretamente para as eleições:
"Já que Moraes não está mais no TSE, vai querer desequilibrar as eleições
lá do Supremo. Isso vai ser usado para tentar me impedir de falar a verdade —
inclusive sobre ele."
O cálculo por trás da virada
A mudança de tom responde a uma equação eleitoral
precisa. Com pesquisas mostrando Flávio competitivo contra Lula no segundo
turno (42% a 40%, segundo Genial/Quaest), manter a moderação passou a ser um
risco — não uma virtude.
O eleitorado bolsonarista cobra firmeza. Jair
Bolsonaro, da prisão domiciliar, articula uma bancada de senadores que priorize
o impeachment de ministros do STF em 2027. E o próprio Flávio, que em março já
havia defendido a "renúncia ou impeachment" de Moraes nas redes
sociais, precisava transformar palavras em ação.
O inquérito de Moraes forneceu o pretexto perfeito:
agora Flávio não ataca — reage. A narrativa de perseguição permite endurecer
sem parecer irresponsável.
O apoio de Magno Malta
O senador Magno Malta (PL-ES) ampliou o alcance do
confronto ao subir na tribuna logo após Flávio. Com seu estilo inflamado, Malta
chamou Moraes de "lobista com capa preta", mencionou o caso do
colchão de R$ 129 milhões e disparou: "Quem é Alexandre Moraes? Quem é
você? Te ponha no teu lugar."
A dupla Flávio-Malta sinaliza uma estratégia
coordenada: enquanto o pré-candidato questiona a legalidade do inquérito com
tom institucional, Malta faz o trabalho pesado do confronto direto — permitindo
que Flávio mantenha um pé na moderação e outro na trincheira.
O risco da estratégia
A virada tem custos. Moraes segue sendo relator do
inquérito das fake news — aberto há sete anos e que pode atrair qualquer fato
que o ministro considere relevante. Cada declaração mais dura de Flávio pode se
transformar em novo combustível processual.
Por outro lado, recuar agora seria fatal
eleitoralmente. O novo Flávio apostou suas fichas: entre a cautela que o
protegeu por anos e a combatividade que a eleição exige, escolheu a segunda.
Resta saber se o STF lhe dará espaço — ou se o inquérito será exatamente a
mordaça que ele denuncia.
Esse texto foi copiado do Blog do Gustavo Negreiros
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