Para conquistar o eleitorado de centro, decisivo
para a vitória nas eleições presidenciais que se avizinham, o Partido dos
Trabalhadores suavizou o manifesto resultante de seu oitavo congresso
partidário, finalizado neste domingo. Saíram do texto as críticas ao Banco
Central, por exemplo. Também ninguém cogitou atacar as classes-médias, uma das
culpadas pelos fracassos do Brasil, quando se conversa com um militante mais
exaltado, no tête-à-tête.
Apareceu uma faixa pedindo a volta do ditador
Nicolas Maduro ao poder na Venezuela, mas no máximo causou certo
constrangimento e a ideia não prosperou.
O texto, no final das contas, ficou algo anódino.
Uma pena, porque se o PT tem uma qualidade, é a de se posicionar. Um
diferencial e tanto em comparação à média das agremiações brasileiras, uma
massa amorfa de agremiações que anda aos sabores dos ventos, das conveniências
e dos desejos de seus donos ou líderes.
O PT pode ser anacrônico (parece que nunca superou a
queda do muro de Berlim), inflacionista (não apresenta saída para a economia
brasileira que não embute o risco da alta de preços ou da dívida pública), ou
equivocado (não consegue captar a nova sociedade do empreendedorismo e dos
aplicativos), mas pelo menos se expressa. Os demais, nem isso.
Algo sem saída na crítica à sociedade brasileira,
sobrou ao Partido dos Trabalhadores atacar o inimigo de sempre: o famigerado
“neoliberalismo”, que recebeu palavras duras logo no primeiro parágrafo do
manifesto: “A promessa neoliberal de crescimento econômico, estabilidade e
bem-estar mostrou-se incapaz de oferecer futuro para a maioria. Em seu lugar,
consolidaram-se a fome, a estagnação, a desigualdade, a precarização do trabalho,
a insegurança e o enfraquecimento das instituições democráticas”, afirma o
documento “Construindo o futuro: Manifesto do PT para seguir transformando o
país”.
Aliás, o presidente Lula reiterou a crítica, semana
passada, em Barcelona, quando lamentou que os governos de esquerda, no final
das contas, não aplicam seu próprio programa e se curvam à ordem neoliberal.
A questão é que o manifesto petista está profundamente
errado. Historicamente errado. Nos últimos duzentos anos, desde o advento da
ordem liberal, a partir da revolução industrial na Inglaterra, as condições de
vida dos habitantes do planeta Terra melhoraram dramaticamente. Alguns dados
para ilustrar: a esperança de vida, por exemplo, passou de cerca de 30 para
mais de 70 anos. A mortalidade infantil de mais de 1/3 das crianças para menos
de duas dezenas por cada mil nascidos vivos.
O percentual da população que vive em regimes
democráticos saltou de 1% para cerca de 50% nesses dois séculos que se
passaram. A renda per capita aumentou cerca de 10 vezes em valores atualizados.
Os índices de miséria e pobreza extrema desabaram na mesma proporção, assim
como a fome.
Para conhecer alguns desses números, fica a dica do
site “Our World in Data” (https://ourworldindata.org/). Mas muitas fontes
oficiais, como o Banco Mundial ou a ONU, confirmam as informações.
É claro que a ordem liberal tem inúmeras crises,
contradições e permite a chegada ao poder de pretensos autocratas como Donald
Trump, Vladmir Putin, Viktor Orbán e tantos outros – que adotam um discurso
antiliberal, assim como os manifestos do PT. Há também problemas ambientais
decorrentes de todos os avanços citados, guerras e a continuidade da pobreza em
muitos bolsões pelo mundo. São problemas a solucionar, não questões intrínsecas
ao sistema, já que conflito, cobiça e miséria existem há dezenas de séculos,
antes do advento do liberalismo.
Fabiano Lana - Estadão

Nenhum comentário:
Postar um comentário