Em ano eleitoral, março é um período de intensa
atividade política. É o último mês para trocas partidárias e para que futuros
candidatos renunciem aos seus cargos no governo. Muitas alianças serão seladas
nas próximas quatro semanas.
Porém, nos últimos dias, as notícias mais
importantes dos cadernos de política foram a quebra do sigilo bancário de
Lulinha e a prisão de Daniel Vorcaro. Ambas aumentam as chances de que as
investigações sobre o INSS e o Banco Master desestabilizem um cenário eleitoral
ainda muito marcado pelo equilíbrio entre Lula e Bolsonaro. A Operação Carbono
Oculto completa a trinca de apurações explosivas; neste caso, com o potencial
de elucidar a relação entre política e crime organizado.
No início do ano, argumentei que essas investigações
representavam a maior fonte de incerteza para o cenário político brasileiro em
2026. Isso continua verdadeiro, dada a impossibilidade de prever, desde já,
quais políticos serão envolvidos nos escândalos. Figuras do governo, da
oposição e do Judiciário têm sido implicadas, e cada um desses lados tem muito
a perder com a investida da Polícia Federal e de órgãos de controle.
Mas, de janeiro para cá, ficou clara a tendência de
que as apurações ganhem mais força. O ministro André Mendonça indica que permitirá
um ritmo mais intenso de trabalho no caso Master. Isso representa um risco
maior para Lula do que para a oposição.
Hoje, Lula é o favorito à vitória porque tem uma
taxa de aprovação razoável, de 45% em média. De acordo com um banco de dados de
mais de 500 eleições, coletado pela IPSOS Public Affairs, governantes com
aprovação acima de 40% são reeleitos na maior parte das vezes. Esse nível de
popularidade está relacionado ao bom desempenho da economia.
Mas é mais difícil manter o foco dos eleitores em
boas notícias quando histórias de corrupção começam a dominar o noticiário. A
cada operação policial, o tema cresce mais um pouco na lista de preocupações
dos brasileiros, e isso nunca é bom para quem ocupa o poder e precisa defender
uma mensagem positiva, de continuidade.
O caso de Lulinha é especialmente preocupante para o
governo, pois força Lula a dar satisfações sobre o assunto quando ele gostaria
de falar em salário mínimo, imposto de renda zero e redução da jornada de
trabalho.
A campanha de Lula certamente explorará as conexões
de Flávio e de seus aliados com o Banco Master. Isso já aconteceria de qualquer
maneira. Mas, com o foco da campanha mais longe de temas econômicos, prevalece
um sentimento de desordem que aumenta o desejo por mudança.
Vale lembrar que a eleição será decidida por um
grupo pequeno de eleitores que não são petistas nem bolsonaristas e que, em sua
maior parte, sequer gostam de política. Na ausência de um terceiro candidato
viável, Flávio pode se beneficiar de um ambiente de decepção e raiva.
Nos próximos meses, teremos mais elementos para
entender a profundidade de cada caso e o potencial de dano a Lula ou a Flávio.
Em 2014, Dilma foi reeleita mesmo após os protestos de 2013 e a eclosão da Lava
Jato, e a história pode se repetir com Lula, pelo menos quanto à vitória
eleitoral. Porém, se os escândalos deslocarem o debate público dos temas
econômicos para a corrupção daqui até outubro, Lula poderá perder sua vantagem
sobre Flávio.
Silvio Cascione - Estadão
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