quinta-feira, 5 de março de 2026

Silvio Cascione: Onda de investigações ameaça favoritismo de Lula

 


Em ano eleitoral, março é um período de intensa atividade política. É o último mês para trocas partidárias e para que futuros candidatos renunciem aos seus cargos no governo. Muitas alianças serão seladas nas próximas quatro semanas.

 Porém, nos últimos dias, as notícias mais importantes dos cadernos de política foram a quebra do sigilo bancário de Lulinha e a prisão de Daniel Vorcaro. Ambas aumentam as chances de que as investigações sobre o INSS e o Banco Master desestabilizem um cenário eleitoral ainda muito marcado pelo equilíbrio entre Lula e Bolsonaro. A Operação Carbono Oculto completa a trinca de apurações explosivas; neste caso, com o potencial de elucidar a relação entre política e crime organizado.

 No início do ano, argumentei que essas investigações representavam a maior fonte de incerteza para o cenário político brasileiro em 2026. Isso continua verdadeiro, dada a impossibilidade de prever, desde já, quais políticos serão envolvidos nos escândalos. Figuras do governo, da oposição e do Judiciário têm sido implicadas, e cada um desses lados tem muito a perder com a investida da Polícia Federal e de órgãos de controle.

 Mas, de janeiro para cá, ficou clara a tendência de que as apurações ganhem mais força. O ministro André Mendonça indica que permitirá um ritmo mais intenso de trabalho no caso Master. Isso representa um risco maior para Lula do que para a oposição.

 Hoje, Lula é o favorito à vitória porque tem uma taxa de aprovação razoável, de 45% em média. De acordo com um banco de dados de mais de 500 eleições, coletado pela IPSOS Public Affairs, governantes com aprovação acima de 40% são reeleitos na maior parte das vezes. Esse nível de popularidade está relacionado ao bom desempenho da economia.

 Mas é mais difícil manter o foco dos eleitores em boas notícias quando histórias de corrupção começam a dominar o noticiário. A cada operação policial, o tema cresce mais um pouco na lista de preocupações dos brasileiros, e isso nunca é bom para quem ocupa o poder e precisa defender uma mensagem positiva, de continuidade.

 O caso de Lulinha é especialmente preocupante para o governo, pois força Lula a dar satisfações sobre o assunto quando ele gostaria de falar em salário mínimo, imposto de renda zero e redução da jornada de trabalho.

 A campanha de Lula certamente explorará as conexões de Flávio e de seus aliados com o Banco Master. Isso já aconteceria de qualquer maneira. Mas, com o foco da campanha mais longe de temas econômicos, prevalece um sentimento de desordem que aumenta o desejo por mudança.

 Vale lembrar que a eleição será decidida por um grupo pequeno de eleitores que não são petistas nem bolsonaristas e que, em sua maior parte, sequer gostam de política. Na ausência de um terceiro candidato viável, Flávio pode se beneficiar de um ambiente de decepção e raiva.

 Nos próximos meses, teremos mais elementos para entender a profundidade de cada caso e o potencial de dano a Lula ou a Flávio. Em 2014, Dilma foi reeleita mesmo após os protestos de 2013 e a eclosão da Lava Jato, e a história pode se repetir com Lula, pelo menos quanto à vitória eleitoral. Porém, se os escândalos deslocarem o debate público dos temas econômicos para a corrupção daqui até outubro, Lula poderá perder sua vantagem sobre Flávio.

 Silvio Cascione - Estadão

 

 

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