quinta-feira, 26 de março de 2026

Ricardo Corrêa: Lula está cada vez mais preso à esquerda e sofre para falar com outros espectros do eleitorado

 


Já disse aqui neste espaço que o Lula da campanha de 2026 seria mais parecido com o de 1989 do que com aquele de 2022. As pautas e os discursos que constroem sua candidatura estão muito mais à esquerda do que na ideia da “frente ampla” para derrotar Jair Bolsonaro há quatro anos. Mas a nova estratégia, que serviu para Lula sair das cordas no momento de pior popularidade em seu governo, começa a oferecer efeitos colaterais. Cada vez mais, o presidente está preso ao eleitor de esquerda e com dificuldade de se conectar com outros espectros da população brasileira.

Dados de monitoramento das redes sociais disponibilizados pela AP Exata medem o índice de narrativas de cada candidato, baseado nas menções a eles. Esse índice indica que Lula tem navegado cada vez mais à esquerda, enquanto os demais pré-candidatos transitam muito melhor pelos espectros, se aproximando do centro, por vezes, a depender do assunto em discussão. Flávio Bolsonaro, que tem feito um esforço para se mostrar mais moderado, por exemplo, se coloca menos à direita do que Renan Santos (Missão), que começou a ser notado nas pesquisas.

O reflexo nas últimos levantamentos de intenção de voto também é sentido, com a diminuição do espaço de crescimento do ex-presidente e com uma votação bastante concentrada naqueles que já votaram no presidente na última disputa. A pesquisa Atlas/Bloomberg mostrou Lula perdendo para Flávio, por exemplo, entre os que votaram em branco/nulo ou entre os que não votaram naquela corrida e que podem decidir uma eleição tão polarizada.

Essa cara mais à esquerda de Lula é dada quando o governo encontrou, na narrativa do combate à desigualdade, usada de modo a contrapor ricos e pobres ou empresários e funcionários, o norte para um discurso que não tinha ainda no atual mandato.

A discussão sobre o fim da escala 6x1, que tende a se aprofundar com a o debate no Congresso, e a discussão sobre a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5.000, com taxação dos mais ricos, que o governo pretende enfatizar na campanha, forçam um discurso mais social e que tem aderência maior na esquerda. Enquanto isso, temas mais caros ao centro e à direita, como a segurança pública, a saúde e a educação ficam em segundo plano.

Para não perder a condição de favorito que o dono da máquina costuma ter, Lula precisará, até outrubro, reverter o quadro. Oferecer um discurso que saia da bolha da esquerda. Nesta semana, o presidente deu as primeiras declarações mais diretas nesse sentido, na sanção do PL Antifacção. Em meio aos tradicionais discursos garantistas mais comuns à esquerda, aplicou doses de punitivismo, ao reclamar do fato de a polícia prender e, muitas vezes, o criminoso ser liberado ou ao defender o corte do auxílio-reclusão para famílias de faccionados. Uma mudança perceptível, em gestação, embora ainda pequena para tratar com outro público que não o seu.

Ricardo Corrêa - Estadão

 

 

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