Já disse aqui neste espaço que o Lula da campanha de
2026 seria mais parecido com o de 1989 do que com aquele de 2022. As pautas e
os discursos que constroem sua candidatura estão muito mais à esquerda do que
na ideia da “frente ampla” para derrotar Jair Bolsonaro há quatro anos. Mas a
nova estratégia, que serviu para Lula sair das cordas no momento de pior
popularidade em seu governo, começa a oferecer efeitos colaterais. Cada vez
mais, o presidente está preso ao eleitor de esquerda e com dificuldade de se
conectar com outros espectros da população brasileira.
Dados de monitoramento das redes sociais
disponibilizados pela AP Exata medem o índice de narrativas de cada candidato,
baseado nas menções a eles. Esse índice indica que Lula tem navegado cada vez
mais à esquerda, enquanto os demais pré-candidatos transitam muito melhor pelos
espectros, se aproximando do centro, por vezes, a depender do assunto em
discussão. Flávio Bolsonaro, que tem feito um esforço para se mostrar mais
moderado, por exemplo, se coloca menos à direita do que Renan Santos (Missão),
que começou a ser notado nas pesquisas.
O reflexo nas últimos levantamentos de intenção de voto
também é sentido, com a diminuição do espaço de crescimento do ex-presidente e
com uma votação bastante concentrada naqueles que já votaram no presidente na
última disputa. A pesquisa Atlas/Bloomberg mostrou Lula perdendo para Flávio,
por exemplo, entre os que votaram em branco/nulo ou entre os que não votaram
naquela corrida e que podem decidir uma eleição tão polarizada.
Essa cara mais à esquerda de Lula é dada quando o
governo encontrou, na narrativa do combate à desigualdade, usada de modo a
contrapor ricos e pobres ou empresários e funcionários, o norte para um
discurso que não tinha ainda no atual mandato.
A discussão sobre o fim da escala 6x1, que tende a
se aprofundar com a o debate no Congresso, e a discussão sobre a isenção do
imposto de renda para quem ganha até R$ 5.000, com taxação dos mais ricos, que
o governo pretende enfatizar na campanha, forçam um discurso mais social e que
tem aderência maior na esquerda. Enquanto isso, temas mais caros ao centro e à
direita, como a segurança pública, a saúde e a educação ficam em segundo plano.
Para não perder a condição de favorito que o dono da
máquina costuma ter, Lula precisará, até outrubro, reverter o quadro. Oferecer
um discurso que saia da bolha da esquerda. Nesta semana, o presidente deu as primeiras
declarações mais diretas nesse sentido, na sanção do PL Antifacção. Em meio aos
tradicionais discursos garantistas mais comuns à esquerda, aplicou doses de
punitivismo, ao reclamar do fato de a polícia prender e, muitas vezes, o
criminoso ser liberado ou ao defender o corte do auxílio-reclusão para famílias
de faccionados. Uma mudança perceptível, em gestação, embora ainda pequena para
tratar com outro público que não o seu.
Ricardo Corrêa - Estadão

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