Acho que a democracia brasileira ainda permite que
eu possa dar esta opinião: Davi Alcolumbre é, de longe, o pior presidente de
Senado que o Brasil já teve, e olhe que a competição é forte.
A última dele foi ignorar — eu diria solenemente, se
Alcolumbre fosse capaz de ter alguma solenidade — a ordem de André Mendonça
para ler o requerimento de prorrogação da CPMI do INSS, ordem proferida pelo
ministro na liminar concedida para que o trabalho da comissão pudesse
prosseguir pelo prazo a ser determinado pelos senadores, de até 120 dias, no
máximo.
Alcolumbre saiu dizendo que a liminar era uma
interferência descabida do Judiciário. Descabida, não é, uma vez que ele vinha
ignorando o pedido de prorrogação, muito legítimo diante das revelações
recentes sobre as ligações perigosas do Careca do INSS com Lulinha, por
exemplo.
O que cabe dizer é que o presidente do Senado não
quer que a pouca vergonha com os pobres adentre o ano eleitoral, contaminando a
campanha de reeleição de Lula, mas não só. Neste momento, ao que parece,
Alcolumbre deixou de chantagear o presidente da República, apesar de todas as
diferenças entre ambos.
Também cabe dizer que, se a CPMI do INSS for
interrompida abruptamente, os seus integrantes deixarão de ter acesso ao mar de
lama que jorrou do celular de Daniel Vorcaro, cujo Banco Master fraudou
milhares de aposentados e pensionistas com operações de empréstimo consignado
não consentidas.
Aliás, Alcolumbre é mais um a fugir de uma CPI do
Banco Master, como o canhoto da cruz. Faz o diabo para não ter de seguir o
regulamento e abrir a comissão que obteve as assinaturas necessárias para ser
instaurada.
Sabe como é, a Amapá Previdência, dirigida por um
aliado do presidente do Senado, aprovou um investimento de R$ 400 milhões em
letras financeiras do Master, apesar do alto risco apontado por técnicos.
Há também os amigos do STF envolvidos com Vorcaro.
Imagino que Alcolumbre tenha recebido desses amigos o recado de que a liminar
de Mendonça que prorroga a CPMI do INSS poderá ser derrubada pela corte,
atendendo ao argumento de que se trata de interferência descabida.
É que o que não era interferência descabida na época
da abertura da CPI da Covid, ordenada por Luís Roberto Barroso (que o Rio de
Janeiro o tenha), pode virar interferência descabida hoje, graças à
jurisprudência em vigor no STF, a de ocasião.
Vamos ver se os amigos de Alcolumbre estão certos ou
se Mendonça terá o apoio dos seus pares no julgamento da liminar, um bom
indicativo de como eles se comportarão quando tiverem de examinar o caso Master
devidamente autopsiado pela delação de Vorcaro.
Há dois dias, a coluna da minha colega Andreza
Matais publicou um áudio no qual Alcolumbre orienta um aliado político no
Amapá, Pedro DaLua, a procurar o desembargador do Tribunal de Justiça do estado
que iria julgar uma ação contra o prefeito eleito de Macapá, adversário local
do presidente do Senado.
Transcrevo um trecho do diálogo:
“Segunda, 10 horas, no gabinete dele, no tribunal,
para você relatar as questões jurídicas e políticas, sem advogado”, ordena o
senador (a Pedro DaLuna).
No diálogo, Alcolumbre deixa claro que intermediou o
encontro com o desembargador, a quem chama de “meu irmão”.
“Meu irmão, preciso da sua ajuda para restabelecer a
autoridade do presidente da Câmara, que é meu irmão, sempre esteve comigo, me
ajudou nos momentos mais difíceis da minha história política e não pode ser
subjugado”, disse (Alcolumbre ao desembargador).
O senador contou ter afirmado ainda ao magistrado, a
quem se refere como presidente, que “sabe reconhecer quem está ao seu lado”.
“Eu disse a ele (ao desembargador) que faço política
de grupo, de entrega, e sou grato às pessoas, reconhecendo aquelas que
trabalham”, afirmou.
No áudio, Pedro DaLua diz que ficou “todo arrepiado”
ao ouvir o relato de Alcolumbre. Eu também fico todo arrepiado quando vejo ou
escuto Alcolumbre, mas por razões diametralmente opostas.
Mario Sabino - Metrópoles

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