quinta-feira, 5 de março de 2026

PIB brasileiro tem pior desempenho desde a pandemia e cenário para 2026 não é animador

 


O Produto Interno Bruto (PIB) até cresceu 2,3% no ano passado em comparação com o ano anterior, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No entanto, o número, segundo especialistas, representa uma desaceleração da economia. Em volume de recursos, o Brasil gerou R$ 12,7 trilhões em valores correntes.

Com ampliação de 11,7%, a Agropecuária foi a principal responsável por puxar o crescimento da economia nacional. O setor de Serviços, responsável por quase 70% do resultado do PIB nacional, cresceu 1,8%. Já a Indústria registrou alta de 1,4% em relação a 2024.

Em 2024, o crescimento do PIB foi de 3,4%, o melhor resultado dos três anos anteriores. Em 2021, a alta chegou a 4,8%, após a contração de 3,3% em 2020, causada pela pandemia de Covid-19. O próprio Ministério da Fazenda já havia feito uma observação sobre esta possível desaceleração. 

O motivo principal, segundo documento publicado no início deste mês, foi a “manutenção da política monetária em patamar restritivo em um contexto de redução da inflação, contribuindo para elevar a taxa de juros reais para o nível mais alto da última década”. Na prática, juros básicos muito altos (atualmente, em 15% ao ano).

No quarto trimestre de 2025, o PIB apresentou variação positiva de 0,1% em comparação ao terceiro trimestre de 2025, na série com ajuste sazonal. Os serviços e a agropecuária cresceram 0,8% e 0,5%, respectivamente. Já a Indústria recuou 0,7%.

Projeção para 2026

Para este ano, a economia brasileira deverá desacelerar, com o cenário marcado por incertezas geopolíticas crescentes e uma eleição presidencial polarizada. A expectativa dos analistas é que a atividade mostre de novo um ritmo mais forte no primeiro semestre, impulsionada pela agropecuária e medidas de incentivo do governo, e esmoreça na segunda metade do ano -- assim como aconteceu em 2025.

A avaliação é que, embora o Brasil ainda possa se favorecer de certo modo das incertezas geopolíticas geradas pela escalada recente do conflito no Oriente Médio, os consumidores, o governo e o próprio Banco Central devem se tornar mais cautelosos.

"Incerteza não falta neste ano e o cenário externo alimenta mais essa incerteza. Ninguém tem um 'melhor palpite' do que vai acontecer nos próximos meses, e essa falta de previsibilidade reforça o cenário de cautela", disse Antonio Ricciardi, economista do Banco Daycoval, que prevê um crescimento do PIB em 2026 de 1,9%.

O foco agora é sobre os impactos dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, que envolvem preocupações com uma interrupção do fluxo de petróleo e do gás e com o impacto na inflação.

Por um lado, esse cenário pode favorecer o Brasil, principalmente a balança comercial, que tem forte peso nas exportações de produtos agrícolas e petróleo.

“Num cenário de guerra, o Brasil é que alimenta o mundo e, agora com o câmbio mais depreciado, a gente fica cada vez mais atraente”, disse Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, destacando a possibilidade de aumento no volume exportado do petróleo. “E outra questão é o (aumento do) preço, a gente volta a ser beneficiado.”

O outro lado da moeda é a possibilidade de impacto na inflação doméstica do aumento dos preços do petróleo, o que, nas contas de Benedito, se daria no caso do barril do combustível superar US$95. Para tanto, segundo a economista, seria necessária uma “interrupção de mais de quatro semanas no Estreito de Ormuz e baixar muito o estoque disponível”.

Eleição

A expectativa de economistas e investidores é de que o Banco Central comece a reduzir os juros na reunião dos próximos dias 17 e 18 de março, depois de ter mantido a Selic em 15% em janeiro. Embora o conflito no Oriente Médio de forma geral não tenha mudado essa visão, a avaliação é que ele impõe cautela e pode afetar o ritmo e a magnitude do afrouxamento.

Andrés Abadía, economista-chefe da América Latina da Pantheon Macroeconomics, destaca que uma escalada adicional do conflito no Oriente Médio ofuscaria as perspectivas, adicionando pressão inflacionária de curto prazo justamente no início do ciclo de afrouxamento.

“Embora preços mais altos do petróleo beneficiem a Petrobras e as receitas fiscais, o efeito líquido provavelmente levaria a uma postura de maior cautela e os cortes de juros mais lentos”, avaliou em nota Abadía, que estima a expansão do PIB este ano de 1,8%.

Depois de um início de ano com expectativa de crescimento forte do agro e estímulos do governo que tendem a contribuições o consumo, como a autorizada do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, a economia deve enfraquecer no segundo semestre, que terá como ponto focal a eleição presidencial.

"Como é ano eleitoral, os estímulos do governo devem ficar concentrados no primeiro semestre. E no segundo semestre tem desaceleração, ...porque no último trimestre tem efeito espera dos agentes econômicos, esperando para ver o cenário eleitoral", disse Rafael Perez, economista da Suno Research, que calcula um avanço do PIB este ano de 1,8%.

Pesquisas de intenção de voto recentes mostram um empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro em cenário de segundo turno. “O ciclo de cortes dos juros pelo BC deve fazer mais efeito na economia no segundo semestre, mas me parece que seria mais impedir uma queda maior do que contribuições a economia”, disse ele.

O Ministério da Fazenda estimou que o PIB crescerá novamente 2,3% este ano.

 

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