Relatório técnico da Polícia Federal que embasou as
quebras de sigilo de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula,
apontou suspeitas de que a mudança dele para o exterior poderia ter o objetivo
de fugir das investigações sobre desvios no Instituto Nacional de Seguro Social
(INSS). A defesa dele nega essa intenção e afirmou que ele se mudou antes da
deflagração da Operação Sem Desconto.
O documento está sob sigilo e foi enviado ao Supremo
Tribunal Federal em dezembro, quando a PF solicitou a quebra de sigilo bancário
de Lulinha, autorizada pelo ministro André Mendonça. O Estadão teve acesso ao
relatório, que analisou detalhes da relação entre o filho do presidente e o
empresário Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS, preso sob suspeita de
comandar um esquema de desvios de aposentadorias.
“Do ponto de vista investigativo, asseveramos que
Lulinha viajou para o exterior, sem previsão de volta, o que denota possível
evasão do País, considerando estar associado aos fatos associados ao principal
operador das fraudes bilionárias a milhões de aposentados do Brasil”, diz o
relatório.
Lulinha admitiu pela primeira vez ao STF, em petição
apresentada na segunda-feira, 16, que tinha relação “esporádica e de natureza
social” com o Careca do INSS e disse que o empresário bancou uma viagem deles a
Portugal para conhecer um projeto de canabidiol medicinal. A apuração da PF
identificou que o Careca pretendia abrir uma empresa desse ramo, a World
Cannabis.
Na viagem, eles chegaram a visitar um terreno onde
seria construída a fábrica. A defesa de Lulinha afirmou, porém, que o negócio
não foi adiante e ele não recebeu recursos do empresário.
A PF aponta que o empreendimento de canabidiol do
Careca do INSS seria financiado com recursos provenientes do esquema de desvio
de aposentadorias e constituiria uma etapa de lavagem desse dinheiro.
Além da viagem em conjunto, a PF apreendeu anotações
com o Careca do INSS que indicariam encontros dele com Lulinha em Brasília e
apura se houve pagamentos. Uma testemunha, Edson Claro, ex-funcionário do
Careca do INSS, disse ter ouvido dele que pagava uma mesada de R$ 300 mil para
Lulinha. A quebra de sigilo bancário do filho do presidente, entretanto, não
continha nenhum repasse do Careca do INSS para as contas do filho do
presidente.
Defesa apresentou explicações ao STF
A defesa de Lulinha apresentou uma petição na
segunda-feira, 16, explicando sua relação com o Careca do INSS. A petição foi
apresentada depois das notícias da quebra do sigilo bancário do empresário e
diante do receio de que ele seja alvo de novas medidas da Polícia Federal.
Os advogados afirmam que, em março de 2025, entraram
em contato com instituições de ensino na Espanha para matricular os filhos do
casal e viabilizar a mudança.
A primeira fase da Operação Sem Desconto, porém, foi
deflagrada no mês seguinte e na época já haviam sido publicadas reportagens
sobre as suspeitas de irregularidades envolvendo o Careca do INSS.
A defesa de Lulinha disse que ele começou a planejar
a mudança a Madri em 2024, apesar de só ter tomado medidas efetivas para isso
no ano seguinte.
Lulinha diz ainda que foi apresentado ao Careca do
INSS por meio de sua amiga Roberta Luchsinger em 2024 “como um bem-sucedido
empresário do mercado farmacêutico”. Lulinha afirma que não tinha conhecimento,
na ocasião, da atuação dele junto ao INSS.
“Era com esse ANTÔNIO CAMILO, suposto empresário de
sucesso da área farmacêutica e parceiro comercial de sua amiga, que o
peticionário teve relação esporádica e de natureza social. FÁBIO LUÍS jamais
firmou qualquer tipo de relação comercial com ANTÔNIO CAMILO, tampouco tinha
conhecimento sobre fraudes no INSS ou outras ilegalidades”, afirmou a defesa ao
STF.
Na petição, Lulinha diz que teve interesse quando o
Careca do INSS lhe contou sobre um projeto comercial de produção de canabidiol
medicinal, porque tem uma sobrinha que faz tratamento médico com a substância e
enfrentou dificuldades com a qualidade e disponibilidade dos medicamentos.
“Nessa mesma conversa, ANTÔNIO CAMILO contou que
iria a Portugal para conhecer a produção dos medicamentos e convidou o
peticionário a acompanhá-lo sem qualquer compromisso. O convite foi aceito e
ANTÔNIO CAMILO levou FÁBIO a Portugal em novembro de 2024, arcando com os
custos da viagem. FÁBIO LUÍS acompanhou a visita a possíveis fornecedores e
propriedades e essa foi toda a extensão da relação do peticionário com o
projeto. Ele não participou de negociações, não investiu trabalho ou valores e
tampouco recebeu convite para associação, participação ou compra de cotas”, diz
a petição.
A defesa também afirma que, se tivesse firmado algum
negócio sobre esse tema com o Careca do INSS, o fato não constituiria crime.
“Entendia estar acompanhando um bem-sucedido
empresário da área farmacêutica, em uma viagem para conhecer um projeto
supostamente legítimo. Assim como todos à sua volta, FÁBIO entendia o projeto
como lícito e conhecia apenas a figura do ‘empresário de sucesso ANTÔNIO
CAMILO’. Essa imagem pública somente veio a se alterar muitos meses após a
viagem a Portugal, com a deflagração da Operação Sem Desconto em 23/4/2025,
quando foi amplamente publicizada a possível relação de ANTÔNIO CAMILO com as
fraudes do INSS”, afirmou a defesa.
Estadão

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