terça-feira, 17 de março de 2026

Eliane Cantanhêde: Vorcaro e Martha Graeff, os personagens centrais e explosivos do caso Master

 


São dois, e não um, os personagens chaves e explosivos do caso Master: Daniel Vorcaro, o onipresente, e Martha Graeff, sua namorada da época bilionária e glamurosa, que sabe de tudo, ou de muita coisa, e nos lembra o quanto as mulheres, como Thereza Collor, foram decisivas para esclarecer grandes escândalos nacionais, da Velha à Nova República.

Hoje, a República – melhor não adjetivá-la – está em suspense não só diante da muito provável delação premiada de Daniel Vorcaro, mas também do momento em que Graeff decidir botar a boca no trombone e contar o que vai além do intrincado jogo de fundos, superfaturamento, compras e vendas, para chegar até quem, quando e onde mergulhou fundo nesse jogo.

A competição com o Oscar é evidente, no roteiro, protagonistas, coadjuvantes, luxo, festas, jatos, mulheres lindas, garotas de programa, banditismo, “quebrar os dentes” de jornalistas, suicídio na cadeia e, o mais impactante, o envolvimento de pastores e blogueiros a políticos, juízes e governadores. A realidade supera a ficção.

A delação de Vorcaro é esperada com pânico pelos múltiplos suspeitos e com ansiedade por investigadores e pela sociedade brasileira, já desconfiada de que um só cidadão, com um sócio embrenhado no mundo político, um cunhado pastor e um criminoso contratado, não seria capaz de corromper tantos, ao mesmo tempo, nos sistemas político, financeiro e empresarial para um “negócio” dessas proporções.

Afinal, Vorcaro é o dono do Master e o cérebro de tudo isso, ou é apenas parte pública e visível de uma engrenagem muito maior do que ele, além do que a vista alcança? Seja o que for, é razoável supor que ele vá nessa linha de defesa, para envolver o maior número possível de poderosos e se embolar com eles na vala comum, ou na lama. Como se fosse “só mais um”.

O banditismo e a corrupção não chegam a ser novidade, mas no Brasil controlam valores que chocam até os países mais ricos do mundo. Nada aqui é contado em milhares, mas em milhões e, cada vez mais, em bilhões. E as regras de sobrevivência são ter cúmplices políticos, “amigos” no Judiciário e na mídia, advogados com muita visibilidade e seguir dois princípios: “quem não tem defesa ataca” e “meter todos na lama”, para confundir e diluir.

Assim, Vorcaro vai dividir sua desgraça com todos os que desfrutaram da sua pujança, cobrando dos parceiros o compromisso de um casamento: “na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, até que a morte (ou a prisão?) nos separe”. Que poderes e que grupos políticos, empresariais. passarão ilesos?

Se Vorcaro não tem mais nada a perder e joga no tudo ou nada, este não é o caso de Martha Graeff, jovem, linda, que ficou noiva numa festa de princesas, de R$ 200 milhões, mas não chegou a fazer o juramento do matrimônio. Ufa! Escapou por pouco. E vai jogar tudo, todos e o ex-noivo na fogueira para, apesar de chamuscada, tentar não virar cinzas.

A quebra de sigilo dos telefones do namorado, ou noivo, mostram o quanto ela sabe das coisas e dos encontros, interlocutores, acertos e crimes, e sua estratégia de defesa é diferente da de Vorcaro. Enquanto ele traz todos para a lama para tentar um acordo camarada para ele, ela joga todos, inclusive ele, para tentar salvar a própria pele.

Vorcaro vai contar tudo dos outros, Martha vai contar tudo dos outros e dele. As duas versões se embolam num enredo que pode brilhar no Oscar, na sequência de “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”. Aliás, sucesso, Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura!

Eliane Cantanhêde - Estadão

 

 

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