sexta-feira, 20 de março de 2026

Delivery: Taxa mínima deve encarecer pedidos, diz Abrasel

 


Propostas em discussão no Congresso Nacional para estabelecer um valor mínimo por entrega no serviço de delivery têm gerado preocupação entre empresários do setor de bares e restaurantes no Rio Grande do Norte. Representantes do segmento afirmam que a medida pode elevar o preço final dos pedidos e reduzir o volume de compras feitas por aplicativos. Entre os entregadores, a iniciativa é vista como uma forma de melhorar a remuneração diante dos custos da atividade.

A discussão ocorre no contexto da regulamentação do trabalho por aplicativos, que prevê a criação de regras para a remuneração de entregadores. Entre as ideias debatidas está a fixação de um valor mínimo, estimado em R$ 10 por entrega, além de pagamento adicional por quilômetro rodado.

Para empresários do setor, a imposição de um piso nacional ignora a dinâmica do delivery brasileiro, que é baseado em pedidos de menor valor e entregas de curta distância, muitas vezes dentro de poucos quilômetros.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel no RN), Thiago Machado, a medida pode alterar o funcionamento do mercado. “Quando se estabelece um valor mínimo por entrega, o custo do serviço sobe imediatamente. Esse aumento tende a ser repassado para o consumidor, que passa a pedir menos. O delivery funciona com volume de pedidos. Se o preço sobe demais, o mercado encolhe”, afirma.

O setor teme que o aumento das taxas de entrega reduza a frequência dos pedidos e afete a receita dos estabelecimentos. Para muitos bares e restaurantes, o delivery representa uma parcela relevante do faturamento.

Um estudo da Pinion aponta que a proposta de criação de uma taxa mínima para o delivery pode impactar o comportamento do consumidor. De acordo com o levantamento, 67% dos clientes brasileiros afirmam que reduziriam a frequência de pedidos caso houvesse aumento no custo das entregas.

A pesquisa também indica que o consumidor já opera no limite de gastos com o serviço. Entre aqueles que desistiram de finalizar uma compra, 56,4% apontam o preço — incluindo a taxa de entrega — como principal motivo.

Segundo a simulação apresentada no estudo, uma eventual regulamentação com elevação de custos poderia provocar retração no setor, afetando negativamente 81,6% dos consumidores.

De acordo com a Abrasel, o risco é que o encarecimento do serviço torne o delivery menos acessível para parte dos consumidores, especialmente das classes B e C. “Quando o custo da entrega aumenta, o consumidor reage rapidamente. Ele reduz a frequência ou deixa de pedir. Isso diminui o movimento dos restaurantes e também o número de corridas disponíveis para os entregadores”, diz Thiago Machado.

A entidade defende que a discussão sobre renda dos entregadores avance por modelos que garantam mais previsibilidade de ganhos, como remuneração por hora trabalhada ou mecanismos de proteção social, em vez do tabelamento por entrega.

O debate ocorre em um momento de dificuldade financeira para parte do setor. Levantamento recente da Abrasel no RN indica que um em cada quatro bares e restaurantes do estado operou no prejuízo no mês de janeiro, pressionado por custos elevados e dificuldade para recompor margens.

Nesse cenário, empresários avaliam que mudanças que elevem o preço final ao consumidor podem aprofundar a retração da demanda. “O desafio é encontrar um modelo equilibrado, que garanta proteção ao trabalhador sem comprometer o acesso do consumidor e a sustentabilidade dos pequenos negócios”, afirma o presidente da Abrasel no RN.

Entregadores consideram proposta positiva

O entregador Eduardo dos Santos trabalha há seis anos com delivery por bicicleta e afirma que a categoria vê com expectativa a possível criação de uma taxa mínima. Para ele, a medida pode representar uma melhora na renda dos trabalhadores. “Esse é o nosso trabalho, é o nosso ganha-pão. Se a taxa subir para R$ 10, já ajuda a ter uma renda melhor e levar mais dignidade para dentro de casa”, defende.

Já o entregador Emerson Bruno avalia que a principal dificuldade da categoria hoje está no aumento constante dos custos, especialmente com combustível. Segundo ele, a remuneração não acompanha essa alta. “As taxas continuam praticamente as mesmas, mas o combustível só aumenta. Aí fica a pergunta: como é que a gente vai continuar fazendo as entregas do mesmo jeito?”, questiona.

O presidente da Associação dos Trabalhadores por Aplicativos por Moto e Bike do RN (ATAMB), Alexandre Silva, defende a proposta e afirma que a medida não deve impactar o consumidor. Segundo ele, a atual taxa mínima não acompanha os custos enfrentados pelos entregadores, como combustível, manutenção e desgaste dos veículos. “Esse valor já não supre mais as necessidades do trabalhador. O custo é todo do entregador: gasolina, manutenção, equipamento. A conta não fecha”, diz.

O presidente da ATAMB também critica o modelo de remuneração das plataformas afirmando que há distorções na forma como os ganhos são calculados. Segundo ele, corridas curtas pagam valores baixos e, em casos de múltiplos pedidos, o pagamento adicional ocorre apenas por quilometragem, sem considerar o número de entregas realizadas. “O aplicativo pode agrupar vários pedidos, cobrar de cada cliente e de cada restaurante, mas o entregador recebe só por distância”, afirma.

 

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