Programas usados em investigações da Polícia Federal
podem desbloquear celulares e recuperar o conteúdo de conversas no WhatsApp. Em
alguns casos, conseguem até acessar imagens apagadas pelo dono do aparelho.
Na investigação do caso Master, a PF realizou uma
análise técnica para obter mensagens trocadas em 17 de novembro entre Daniel
Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF),
informou o jornal "O Globo" em 6 de março.
A conversa incluía prints com mensagens escritas
pelo banqueiro no aplicativo de bloco de notas e enviadas pelo WhatsApp como
imagens de visualização única. O jornal afirmou que teve acesso ao conteúdo
obtido por um software da PF que exibe, de forma conjunta, mensagens e arquivos,
o que permitiu reverter a visualização única.
Em nota enviada anteriormente, Moraes afirmou que os
prints de mensagens de Vorcaro não aparecem como enviados a ele e que uma
análise técnica indicou que as imagens de visualização única não correspondem
aos contatos do ministro.
O perito em segurança digital Wanderson Castilho
explicou ao g1 que a estratégia de Vorcaro de criar capturas de tela do bloco
de notas para ocultar o conteúdo das conversas pode, na prática, ter
contribuído para criar mais evidências.
"É até mais fácil recuperar imagens do que a
conversa propriamente dita. Quando ele transformou a conversa em imagem, deixou
um rastro maior", afirmou.
Segundo o especialista, as imagens enviadas por
Vorcaro podem ter sido recuperadas de locais como:
O aplicativo bloco de notas;
A galeria de fotos que armazena a captura de tela;
Pastas ocultas que podem manter arquivos
temporariamente no dispositivo.
Tanto o bloco de notas quanto a galeria de fotos
possuem lixeiras que guardam arquivos excluídos por alguns dias. Mesmo depois
de removidos da lixeira, esses arquivos podem deixar rastros na memória do
aparelho.
"Conseguimos analisar todas essas correlações e
chegar à mensagem de visualização única que, em tese, ninguém mais conseguiria
ver", disse Castilho.
A estrutura do WhatsApp, que armazena as conversas
no próprio aparelho e não em um servidor externo, permite que autoridades
recuperem mensagens quando estão com o dispositivo em mãos, explicou o perito.
O WhatsApp usa criptografia de ponta a ponta, que
impede o acesso às mensagens por terceiros, incluindo a própria plataforma. As
conversas são protegidas por uma espécie de cadeado, aberto apenas com as
chaves armazenadas no celular de cada usuário.
Como funcionam os programas usados pela PF
Programas como o israelense Cellebrite e o americano
GrayKey, ambos de uso restrito, conseguem acessar mensagens e arquivos em
iPhones e celulares Android mesmo quando estão bloqueados.
Outra ferramenta é o IPED (Indexador e Processador
de Evidências Digitais), programa criado por peritos da PF em 2012. Ele faz
varreduras em celulares apreendidos e permite buscar rapidamente informações em
conversas e arquivos.
Segundo Castilho, a técnica usada para extrair os
dados varia conforme a condição do dispositivo:
Se estiver com a tela bloqueada, podem ser usados
programas como GrayKey e Cellebrite, que tentam descobrir a senha e baixar
informações ao se conectar ao aparelho por cabo USB;
Se estiver desligado ou danificado, pode-se usar a
técnica chamada chip-off, na qual o chip de memória é removido do aparelho e as
informações contidas nele são transferidos para outro dispositivo.
Apesar de arquivos e mensagens não desapareçam
imediatamente da memória, o ideal é que a extração com esses programas seja
feita o quanto antes.
Peritos têm pressa porque alguns registros que
ajudam a acessar o material ficam em uma espécie de memória temporária do
aparelho, explicou Castilho. É o caso da senha de bloqueio da tela, por
exemplo.
Alguns celulares são reiniciados automaticamente
para dificultar a extração da senha. A empresa que criou o GrayKey informou em
2024 que uma atualização do iPhone faz o aparelho reiniciar automaticamente se
permanecer bloqueado por mais de três dias.
Busca por mensagens
O IPED, criado pela Polícia Federal, facilita a
busca por informações em um celular e consegue até extrair texto de imagens.
O sistema usa um princípio semelhante ao de radares
de trânsito que fotografam placas e transformam os números em texto para
identificação no sistema, explicou ao Fantástico o presidente da Associação dos
Peritos em Computação Forense, Marcos Monteiro.
"Todas as imagens são identificadas e
transformadas em texto. A ferramenta já pega as imagens, extrai os textos que
ali existem, correlaciona ou organiza isso de uma forma legível. E, quando você
vai fazer uma busca textual, por exemplo, ela vai identificar esses
dados", disse Monteiro. (veja no vídeo abaixo)
O programa permite fazer buscas por padrões, como
CPF e valores monetários, o que ajuda a agilizar investigações. Ele também
consegue analisar mensagens apagadas, mas não as que têm visualização única.
O código-fonte do IPED está disponível na internet
desde 2019, permitindo que desenvolvedores contribuam com melhorias na
ferramenta.
G1

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