sexta-feira, 27 de março de 2026

Atraso nos consignados leva servidores do RN à negativação, dizem sindicatos

 


A confirmação, por parte do Governo do Rio Grande do Norte, de um passivo acumulado de R$ 363,3 milhões em consignados não repassados a instituições financeiras acendeu um alerta entre sindicatos que representam servidores públicos estaduais. Segundo entidades ouvidas pela reportagem da TRIBUNA DO NORTE, a situação tem provocado impactos diretos na vida financeira dos trabalhadores, além de descontos e cobranças indevidas.

O coordenador do Sindicato dos Servidores Públicos da Administração Indireta do Rio Grande do Norte (SINAI/RN), Alexandre Guedes Fernandes, afirma que a situação tem gerado angústia entre os trabalhadores. “O servidor fica numa situação desesperadora. Além disso, quem paga empréstimo é porque está numa situação muito difícil”, destaca. Na avaliação dele, ao não repassar os valores às instituições financeiras, o Estado se apropria indevidamente de recursos que pertencem aos trabalhadores, gerando prejuízos de ordem moral e material.

Alexandre Guedes Fernandes explica que, diante da ausência do repasse, algumas instituições financeiras têm realizado novas cobranças diretamente na conta do servidor. “Tem situações que chegaram até nós de servidor que está tendo um duplo desconto. Isso porque é descontado pelo Governo para repassar ao banco, mas o Governo não repassa”, compartilha.

A presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público da Administração Direta do Estado (SINSP/RN), Janeayre Souto, avalia que a gestão estadual tem utilizado recursos privados dos trabalhadores para manter compromissos. “A gestão do Estado está sendo realizada através do dinheiro privado dos servidores públicos”, ressalta.

A presidente da entidade aponta que mesmo servidores que têm parcelas descontadas regularmente enfrentam dificuldades para renovar empréstimos. “Isso se soma às cobranças que chegam por e-mail, ligações e cartas de cartório, com aquele grande assédio que o servidor será negativado mesmo honrando mensalmente com suas parcelas”, completa.

Janeayre Souto esclarece que o sindicato já acionou órgãos de controle para tentar reverter o cenário. Segundo ela, o SINSP/RN denunciou o caso ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas do Estado, buscando responsabilização e medidas que obriguem o governo a regularizar os repasses. A expectativa é que haja uma intervenção que interrompa os prejuízos aos servidores.

A diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Saúde do Rio Grande do Norte (SINDSAUDE/RN), Rosália Fernandes, reforça que o problema atinge boa parte dos servidores da saúde com salários mais baixos. Segundo ela, muitos recorrem ao consignado por necessidade diante de rendimentos insuficientes, além de acumularem vínculos e plantões extras para garantir “a sobrevivência”. “Os servidores são cobrados, porque quem fica como caloteiro não é o Governo do Estado. Quem fica com o ‘nome sujo’ e não consegue realizar novos empréstimos é o servidor”, destaca.

Segundo ela, o sindicato tem recebido diversas reclamações de servidores que estão sofrendo com a situação. Atualmente, o setor jurídico do SINDSAUDE/RN está elaborando uma ação coletiva, já aprovada na última assembleia dos aposentados, pedindo a regularização dos repasses e a reabertura de novas linhas de crédito.

Cobranças

A servidora aposentada Maria Gorete de Azevedo, de 60 anos, relata que seu nome foi colocado no Serasa em virtude dos débitos do Governo com o consignado. Ela aponta que os empréstimos foram realizados no segundo semestre do ano passado, tanto na conta do Banco do Brasil quanto no KardBank, e estão sendo descontados na folha mensalmente.

Mesmo com o desconto, desde novembro do ano passado ela está recebendo notificações do cartório de Equador, município em que mora, referentes ao empréstimo no KardBank. “Já chegou cobrança em cartório e, inclusive, já enviei tudo para um advogado. O empréstimo vem sendo descontado todo mês no meu contracheque, então como é que eu estou devendo?”, ressalta.

No Banco do Brasil, por outro lado, Maria Gorete já não consegue ter acesso a quaisquer linhas de crédito. “Não temos crédito em canto nenhum por causa de uma dívida que não estamos devendo. É uma situação muito chata e você fica sem poder comprar nada”, relata.

A servidora pública aposentada da educação, Maria José da Silva, de 62 anos, tem enfrentado uma situação semelhante. Desde o ano passado, ela compartilha viver uma rotina de cobranças constantes relativas ao consignado que fez há dois anos. O valor dos descontos deveria estar na fase final, mas os atrasos do Governo a têm deixado sem uma perspectiva sobre o contrato.

“Estou recebendo mensagens do Banco do Brasil no meu e-mail e no WhatsApp, apontando que têm contas em atraso. A única conta que eu tenho com o Banco do Brasil são os consignados, que vêm sendo descontados todo mês no meu contracheque. Nós, servidores, não temos atrasado, pois o que está acontecendo é que o Governo não está fazendo repasse para o banco”, comenta.

Além do desconforto em receber as cobranças, ela relata que a impossibilidade de realizar novos empréstimos consignados tem trazido prejuízos à sua organização financeira. “ Ficamos de mãos atadas sem poder fazer nada, nem renegociar o empréstimo. Eu já tentei renegociar, porque estava precisando realmente pegar mais um dinheiro emprestado”, conta.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Opinião do Estadão: A criatividade de Moraes

  A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de conceder prisão domiciliar a Jair Bolsonaro atende a um imp...