terça-feira, 24 de março de 2026

A origem e as consequências do rombo de R$ 3 bilhões nas contas do Governo do RN; déficit pode ser ainda maior?

 


O rombo nas contas do Governo do Rio Grande do Norte para 2026 é de R$ 3 bilhões. O montante não é novidade e é reconhecido pelo próprio governo. O que pouca gente fala é que essa situação é ilegal. No entanto, a lei não é levada a sério. E, no final, quem vai pagar é você. Nesta terça-feira (24), o Cidade Alerta RN, em reportagem especial de Murilo Meireles, mostrou a origem desse problema e as consequências, como o atraso no desenvolvimento do estado.

Para deixar mais clara a dimensão, o valor seria suficiente para comprar 1.200 apartamentos cada um valendo R$ 2,5 milhões, em algumas das áreas mais valorizadas de Natal. Porém, no caso do RN, o problema é que faltam R$ 3 bilhões. É dinheiro que falta para recuperar estradas ou pagar fornecedores de hospitais, como o Walfredo Gurgel.

Com R$ 3 bilhões, daria ainda para garantir a folha dos servidores estaduais por, pelo menos, três anos. O problema é grave, mas os gestores públicos parecem não se preocupar com as consequências ou possíveis punições para o descontrole das contas. A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), em vigor desde 2001, prevê a obrigação de equilibrar o dinheiro que entra e o que sai. 

No papel, a LRF prevê limites de gastos com o funcionalismo público, além de definir que haja transparência nas informações. A legislação também traz penas para o gestor que permite o descontrole, só que o problema é apenas empurrado para frente.

O advogado Ricardo Duarte atuou como consultor jurídico do poder público estadual sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal nos anos 2013 e 2014. O aumento salarial para os servidores é um desafio, segundo ele. Na hora de escolher entre a LRF e um Plano de Cargos, os gestores tomam uma decisão mais política do que técnica. Tudo começa e termina no Executivo, ou seja, no Governo do Estado.

"O estado nunca foi de observar muito a Lei de Responsabilidade Fiscal. Inicia no Executivo, que envia para ALRN e depois volta para o governador sancionar ou executar. No momento em que você aprova um plano de cargos e salários que não observa a LRF, você acaba por ferir, sim, a LRF", explica. 

Mas é possível vetar? Segundo o advogado, sim. Mas esse caminho ainda não foi utilizado. "Eu não conheço nenhum veto aqui no estado do RN de projeto de Lei para plano de cargos e salários e aumento salarial em virtude da LRF", aponta o advogado, que também fala sobre as punições previstas. "Multa no próprio salário do governador, suspensão dos direitos políticos por 5 anos e outras questões", acrescenta.

Contudo, essas punições nunca foram aplicadas por aqui. Então, ao longo dos anos, o Estado tem forçado os limites. A legislação diz que o Governo só pode gastar com pessoal, incluindo os três poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário -, até 60% da Receita Corrente Líquida. O RN gasta 56,41%, colado com o limite prudencial, que é de 57%.

De acordo com a lei, se bater em 57%, o Estado pode ser proibido de conceder novos aumentos de salário, fazer concursos, criar cargos. Se passar dos 57%, pode deixar de receber dinheiro do governo federal. Ainda em fevereiro, o secretário de Fazenda e pré-candidato ao governo, Carlos Eduardo Xavier, disse que o RN conseguiu reduzir o nível de comprometimento do dinheiro público com a folha de pagamento. A conta do secretário indica um grande aumento da Receita Corrente Líquida, dinheiro que entra também pela arrecadação de impostos. Mas esse número de R$ 3 bilhões de rombo aparece nos cálculos desde o início do atual governo, quase 8 anos atrás.

“Lá em 2018, a Receita Corrente Líquida era de R$ 9 bilhões. Em dezembro de R$ 2025, a gente encerrou com R$ 19 bilhões”, disse o secretário.

Ou seja, tem R$ 10 bilhões a mais entrando nos cofres estaduais. Ainda assim, o buraco de R$ 3 bilhões, mesmo valor de 2018, continua. Em uma análise mais detalhada percebe-se que o buraco é ainda mais fundo. Isso porque algumas dívidas, como financiamentos de longo prazo junto ao Banco Mundial, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, algumas dessas dívidas estão sendo pagas pelo governo federal. Só em 2026, já foram mais de R$ 84 milhões. A informação é do deputado estadual José Dias (PL), vice-presidente da Comissão de Finanças da Assembleia Legislativa.

O parlamentar aponta ainda outro dado preocupante. No orçamento enviado pelo governo este ano, existe uma conta que, segundo o deputado, nunca tinha surgido e que pode indicar uma dívida ainda maior que os R$ 3 bilhões. “Nós tivemos este ano de 2026 um orçamento votado no ano passado com um fato histórico que é a previsão de um déficit de R$ 1,5 bilhão. Se está previsto isso, é um negócio para alguns bilhões. A dívida atual é em torno de R$ 10 bilhões. Incompetência, houve. Má-fé, houve. Descumprimento da lei, houve”, afirma Dias.

Em comparação com a Paraíba, estado vizinho ao RN, o mesmo relatório que apontou o rombo nas contas potiguares mostra também que lá o dinheiro público está sobrando. São R$ 4 bilhões de superavit, o que expõe uma distância no que diz respeito ao controle dos gastos públicos.

Tudo depende de quanto dinheiro entra e quanto sai. Por exemplo, a solução não pode depender apenas do aumento do ICMS, que pulou de 18% para 20% no RN, no ano passado. É necessário fortalecer a economia, gerar empregos, atrair o dinheiro para o estado. De acordo com o presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern), existem dificuldades, como a demora em modernizar leis com a 272/2004, que trata dos licenciamentos. Uma proposta de revisão apresentada pela Fiern, com medidas que poderiam gerar previsibilidade e agilidade nos processos de licenciamentos ambientais no RN foi entregue ao governo em setembro de 2024. Contudo, até hoje, o projeto não andou. Uma realidade que afasta investidores. “Nós temos recebido várias empresas aqui. E há uma certa frieza por conta da dificuldade do licenciamento”, avalia Roberto Serquiz, presidente da Fiern.

Com os cofres vazios, o Rio Grande do Norte ficou muito atrasado em aspectos básicos que fazem muita diferença para a economia. “O estado vem há anos sem capacidade própria de investimento. Vem há anos trabalhando para pagar folha. Se a gente comparar a quantidade de rodovias duplicadas nos estados vizinhos, isso é um ponto de desequilibro. Infraestrutura de estrada é importante. Enquanto estamos recuperando estradas, eles estão duplicando estradas”, completa Serquiz.

No fim das contas, é a população que paga pelo desrespeito à Lei de Responsabilidade Fiscal. Para o próximo governador, vai restar o desafio de administrar um estado praticamente quebrado. “A população é que vai à falência. Mas o estado continua”, encerra o deputado José Dias.

O secretário-adjunto de Planejamento do Rio Grande do Norte (Seplan-RN), José Dionísio Gomes da Silva, disse que a dívida não corresponde à realidade. “A dívida apresentada de R$ 10 bilhões não corresponde à realidade. Na verdade, se trata de valores relacionados aos precatórios, que são dívidas antigas e que dizem respeito ao pagamento que é feito de forma escalonada. Ou seja, pagamentos que ocorrerão no futuro e que estamos em dia. Portanto, é uma dívida gerenciável. Do ponto de vista do orçamento, o déficit de R$ 1,5 bilhão não é financeiro, é orçamentário. Quando fizemos essa projeção em maio de 2025, nós fizemos equilibrado. Em agosto, houve um desequilíbrio, pois naquela oportunidade a gente imaginava que poderia acrescentar a questão de aposentados, da saúde, da educação, mas sempre do ponto de vista da projeção. O que nós gerenciamos no dia a dia é o fluxo de caixa. Dentro disso, está funcionando de acordo com as diretrizes do governo”, afirma.

Já o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema) declara que está trabalhando na modernização da lei sobre os licenciamentos. “O Governo do Estado do Rio Grande do Norte está trabalhando na atualização, da modernização da lei ambiental estadual. É importante frisar que esse processo começou em 2024 com a portaria publicada pela Semarh. Em seguida, teve um processo de consulta popular, com diversos seguimentos, que resultaram em uma versão final, que foi disponibilizada para consulta pública e que agora está em fase de revisão, tendo em vista as mudanças nacionais”, pontua Thales Dantas, diretor-técnico do Idema.

 

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