Interceptações telefônicas obtidas pela Polícia
Federal revelam detalhes de um suposto esquema de desvio de
recursos públicos e fraudes em licitações da área da saúde em Mossoró,
no Rio Grande do Norte. As conversas fazem parte de uma investigação que
apura irregularidades envolvendo prefeituras da região Oeste potiguar.
Entre os investigados está o prefeito de
Mossoró, Allyson Bezerra (União), citado nos diálogos como suspeito
de receber propina em contratos públicos. O gestor nega
qualquer prática ilegal. A apuração resultou em uma operação
deflagrada na manhã de terça-feira, quando foram cumpridos 35
mandados de busca e apreensão no estado.
De acordo com levantamento da TV Globo e
do Estadão, as ações atingiram as prefeituras de Mossoró,
Serra do Mel, Tibau, Paraú, São Miguel e José da Penha.
Pagamentos milionários chamaram atenção
da Justiça
Dados analisados a partir do Tribunal de
Contas do Estado do RN (TCE-RN) indicam que, entre 2021 e 2025,
a Prefeitura de Mossoró repassou mais de R$ 13,5 milhões a uma
das empresas investigadas. O volume colocou o município como o maior
destinador de recursos à empresa no estado, fator considerado relevante
para o avanço da investigação.
Segundo a decisão judicial, o alto montante
de recursos públicos aliado a saques elevados em dinheiro vivo já
configura um forte indício de irregularidade. A suspeita é agravada pela proximidade
política entre o prefeito e um dos sócios da empresa, evidenciada por
registros em redes sociais.
A chamada “matemática de Mossoró”
Um dos principais elementos do processo são
transcrições de áudios em que empresários descrevem como funcionaria a
divisão dos valores nos contratos públicos — prática apelidada por
eles de “matemática de Mossoró”.
Em uma das conversas, é mencionado um contrato
de R$ 400 mil, no qual apenas R$ 200 mil em produtos seriam
efetivamente entregues. O restante, segundo os interlocutores, seria
distribuído da seguinte forma:
- R$
100 mil em propina, sendo R$ 60 mil
destinados a Allyson Bezerra (o equivalente a 15% do
valor total do contrato);
- R$
70 mil ficariam como comissão
dos sócios;
- R$
30 mil permaneceriam com a empresa.
“Olhe, Mossoró, eu estudando aqui. Como é a
matemática de Mossoró. Tem uma ordem de compra de quatrocentos mil. Desses
quatrocentos, ele entrega duzentos. Tudo a preço de custo! Dos duzentos ele vai
e pega trinta por cento, sessenta R$ 60.000,00, então aqui ele comeu R$
60.000,00! Fica R$ 140.000,00) pra ele entregar cem por cento. Dos cento e
quarenta ele R$ 70.000,00. Setenta com sessenta é meu, R$ 130.000,00. Só que
dos cento e trinta nós temos que pagar cem mil R$ 100.000,00 a Allyson e a
Fátima, que é dez por cento de Fátima e quinze por cento de Allyson. Só ficou
trinta mil R$ 30.000,00 pra a empresa!”, disse Oseas Monthalggan, em maio de
2025, sobre a ‘matemática’ do município. O empresário também foi alvo de busca
e apreensão nesta terça-feira.
Para o desembargador Rogério Fialho Moreira,
do TRF-5, os trechos analisados indicam um esquema
estruturado para pagamento de propina.
Prefeito e vice no comando
A decisão aponta que o prefeito Allyson
Bezerra e o vice-prefeito Marcos Antônio Bezerra de Medeiros
(PSD) ocupavam o nível mais alto da organização criminosa,
recebendo percentuais previamente definidos sobre os contratos.
Marcos Medeiros é vice-prefeito desde 2025 e
já atuou como secretário interino do Fundo Municipal de Saúde de
Mossoró, em dezembro de 2022, órgão considerado central no
funcionamento do esquema.
A estrutura descrita pela PF é dividida em três
níveis:
- Topo: agentes
políticos responsáveis pelo recebimento da propina;
- Intermediário: três
gestores administrativos que garantiam respaldo institucional;
- Operacional: fiscais
e gestores de contrato que atestavam entregas parciais.
Os empresários citados nos diálogos seriam
os responsáveis por operacionalizar o esquema fora da administração
pública.
Tentativa de manter esquema oculto
As conversas interceptadas também indicam que o
esquema era mantido em sigilo dentro da gestão municipal. Em um dos
áudios, um empresário chega a ironizar o cuidado do prefeito em não ser
exposto, trecho que, segundo a Justiça, reforça a intenção de ocultar
a participação nos ilícitos.
“O problema porque é o seguinte: os cara…
[inaudível]…se eu fosse prefeito, meus funcionários por exemplo… ‘ah, esse
prefeito é ladrão, quem rouba é ele, pode falar, não me importa não!’ Aí os
cara é um cuidado, não porque ninguém pode saber não….” [sic], diz um dos
empresários.
Além disso, os diálogos citam planejamento
para acumular recursos ilícitos com o objetivo de financiar
uma futura campanha eleitoral, possivelmente do vice-prefeito. A
investigação identificou ainda contato direto entre um sócio da empresa
investigada e Marcos Medeiros, confirmado por mensagens e ligações.
Mais prefeituras sob investigação
A Polícia Federal afirma que ao menos seis
municípios do RN estão sob investigação. Além do prefeito e do vice de
Mossoró, também foram alvos de mandados:
- Leandro
do Rego Lima (União), prefeito de São Miguel;
- Júnior
Evaristo (PP), prefeito de Paraú;
- Secretários
municipais de José da Penha;
- e
a residência do irmão do prefeito de São Miguel.
As diligências ocorreram em Mossoró, Natal,
Paraú, São Miguel, Upanema, Serra do Mel, Pau dos Ferros e José da Penha.
Portal 98

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