Peça-chave das investigações da fraude bilionária no
Banco Master, Daniel Vorcaro se viu numa situação insólita após prestar
depoimento e participar de uma acareação no Supremo Tribunal Federal (STF) com
o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, que avançou até a noite do último
dia 30.
O banqueiro viajou para Brasília em um voo
comercial, escoltado por policiais federais, mas como a maratona de depoimentos
– só o dele durou cerca de duas horas e trinta minutos – e a acareação com
Costa terminaram tarde, a sua defesa pediu autorização do Supremo para que ele
retornasse a São Paulo no jatinho privado fretado pelo advogado Roberto Podval,
que o acompanhou pessoalmente nas oitivas.
A alegação era a de que não havia mais voo comercial
direto de Brasília para São Paulo naquela noite, já que a acareação só terminou
por volta de 21h30, quando as opções de viagem para São Paulo envolviam escalas
em outras cidades.
Por determinação da desembargadora Solange Salgado,
do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), Vorcaro está com
tornozeleira eletrônica e só pode se ausentar do município onde vive (no caso,
São Paulo) com autorização judicial.
Como Vorcaro não tinha condições de voltar para casa
em voo comercial, surgiu o impasse: autorizar a volta em jato fretado ou criar
uma solução que o permitisse dormir em Brasília.
O juiz auxiliar de Toffoli, Carlos Vieira von
Adamek, ligou para o ministro, que negou o pedido de Vorcaro.
Por determinação de Toffoli, o banqueiro foi
obrigado a dormir em sua residência em Brasília, numa mansão localizada no Lago
Sul, bairro nobre da capital, e retornou num voo comercial direto para São
Paulo no dia seguinte, sob a escolta da Polícia Federal.
Na avaliação de fontes que acompanham de perto o
caso, foi como se Vorcaro tivesse ficado em uma espécie de “prisão domiciliar”
relâmpago, pelo menos até retornar a São Paulo, onde segue cumprindo as medidas
cautelares impostas pelo TRF-1, que incluem também a proibição de manter
contato com outros investigados – e a retenção do passaporte, que já foi
entregue para a Justiça.
Segundo relatos obtidos pela equipe da coluna, a
defesa de Vorcaro também aproveitou o depoimento para pedir o relaxamento das
cautelares durante o depoimento, o que foi igualmente negado.
Senha do celular
Por parte da defesa, o depoimento de Vorcaro foi
marcado por recusa do próprio executivo, que rejeitou um pedido feito por
investigadores. Ele foi questionado pela delegada Janaina Palazzo se estaria
disposto a informar a senha do seu celular, apreendido no momento em que ele
foi preso, em 17 de novembro.
O conteúdo do aparelho de Vorcaro e sua agenda de
contatos é alvo de grande preocupação nos meios políticos e jurídicos de
Brasília, que temem o risco de serem arrastados para o epicentro do escândalo
com o avanço das investigações.
No celular de Vorcaro estava armazenado, por
exemplo, o contrato do Master com o escritório da mulher do ministro do Supremo
Tribunal Federal Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes. O documento,
revelado em primeira mão pelo blog, previa um pagamento de cerca de R$ 130
milhões em três anos para o escritório defender os interesses do banco de
Vorcaro.
A defesa de Vorcaro disse que o celular armazenava
mensagens de caráter privado, que não teriam relação direta com a apuração
sobre fraudes no Master.
Vorcaro foi questionado pelos investigadores sobre
suas conexões políticas. Reconheceu que mantinha relações sociais com diversas
autoridades, mas não deu nomes – e ninguém insistiu em obtê-los. Também não foi
indagado sobre o contrato milionário de Viviane.
Momentos de tensão
O depoimento foi marcado pelo desconforto e momentos
de tensão na equipe de delegados da PF liderada por Janaina Palazzo e os
procuradores da República que participavam da audiência.
Toffoli mandou entregar aos investigadores 82
perguntas para que fossem feitas a Vorcaro, mas a delegada disse que não
poderia fazer perguntas que não tinham sido preparadas por ela. Janaina só
aceitou submeter a Vorcaro as questões de Toffoli depois que ficou registrado
na ata do depoimento que tinham sido apresentadas pelo gabinete do relator,
Dias Toffoli.
As perguntas Toffoli para Vorcaro eram divididas em
seis blocos, que tratavam de temas como a venda do Master ao BRB e a reunião do
banqueiro com integrantes do Banco Central em 17 de novembro, mesmo dia em que
acabou sendo preso por decisão da Justiça Federal de Brasília.
No depoimento, ele disse que havia informado
previamente ao BC que viajaria para Dubai, nos Emirados Árabes, para um
encontro com um grupo de investidores estrangeiros.
Em uma das perguntas, Toffoli pede até que o
banqueiro diga se o Banco Central agiu com a “celeridade necessária” levando em
conta o intervalo de tempo entre os primeiros indícios de fraude detectados
pela instituição reguladora e a liquidação do Master em novembro passado.
Procurada, a defesa de Vorcaro informou que não se
manifestaria.
Malu Gaspar - O Globo

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