segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Master: a ‘prisão domiciliar relâmpago’ de Vorcaro após acareação no STF

 


Peça-chave das investigações da fraude bilionária no Banco Master, Daniel Vorcaro se viu numa situação insólita após prestar depoimento e participar de uma acareação no Supremo Tribunal Federal (STF) com o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, que avançou até a noite do último dia 30.

O banqueiro viajou para Brasília em um voo comercial, escoltado por policiais federais, mas como a maratona de depoimentos – só o dele durou cerca de duas horas e trinta minutos – e a acareação com Costa terminaram tarde, a sua defesa pediu autorização do Supremo para que ele retornasse a São Paulo no jatinho privado fretado pelo advogado Roberto Podval, que o acompanhou pessoalmente nas oitivas.

A alegação era a de que não havia mais voo comercial direto de Brasília para São Paulo naquela noite, já que a acareação só terminou por volta de 21h30, quando as opções de viagem para São Paulo envolviam escalas em outras cidades.

Por determinação da desembargadora Solange Salgado, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), Vorcaro está com tornozeleira eletrônica e só pode se ausentar do município onde vive (no caso, São Paulo) com autorização judicial.

Como Vorcaro não tinha condições de voltar para casa em voo comercial, surgiu o impasse: autorizar a volta em jato fretado ou criar uma solução que o permitisse dormir em Brasília.

O juiz auxiliar de Toffoli, Carlos Vieira von Adamek, ligou para o ministro, que negou o pedido de Vorcaro.

Por determinação de Toffoli, o banqueiro foi obrigado a dormir em sua residência em Brasília, numa mansão localizada no Lago Sul, bairro nobre da capital, e retornou num voo comercial direto para São Paulo no dia seguinte, sob a escolta da Polícia Federal.

Na avaliação de fontes que acompanham de perto o caso, foi como se Vorcaro tivesse ficado em uma espécie de “prisão domiciliar” relâmpago, pelo menos até retornar a São Paulo, onde segue cumprindo as medidas cautelares impostas pelo TRF-1, que incluem também a proibição de manter contato com outros investigados – e a retenção do passaporte, que já foi entregue para a Justiça.

Segundo relatos obtidos pela equipe da coluna, a defesa de Vorcaro também aproveitou o depoimento para pedir o relaxamento das cautelares durante o depoimento, o que foi igualmente negado.

Senha do celular

Por parte da defesa, o depoimento de Vorcaro foi marcado por recusa do próprio executivo, que rejeitou um pedido feito por investigadores. Ele foi questionado pela delegada Janaina Palazzo se estaria disposto a informar a senha do seu celular, apreendido no momento em que ele foi preso, em 17 de novembro.

O conteúdo do aparelho de Vorcaro e sua agenda de contatos é alvo de grande preocupação nos meios políticos e jurídicos de Brasília, que temem o risco de serem arrastados para o epicentro do escândalo com o avanço das investigações.

No celular de Vorcaro estava armazenado, por exemplo, o contrato do Master com o escritório da mulher do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes. O documento, revelado em primeira mão pelo blog, previa um pagamento de cerca de R$ 130 milhões em três anos para o escritório defender os interesses do banco de Vorcaro.

A defesa de Vorcaro disse que o celular armazenava mensagens de caráter privado, que não teriam relação direta com a apuração sobre fraudes no Master.

Vorcaro foi questionado pelos investigadores sobre suas conexões políticas. Reconheceu que mantinha relações sociais com diversas autoridades, mas não deu nomes – e ninguém insistiu em obtê-los. Também não foi indagado sobre o contrato milionário de Viviane.

Momentos de tensão

O depoimento foi marcado pelo desconforto e momentos de tensão na equipe de delegados da PF liderada por Janaina Palazzo e os procuradores da República que participavam da audiência.

Toffoli mandou entregar aos investigadores 82 perguntas para que fossem feitas a Vorcaro, mas a delegada disse que não poderia fazer perguntas que não tinham sido preparadas por ela. Janaina só aceitou submeter a Vorcaro as questões de Toffoli depois que ficou registrado na ata do depoimento que tinham sido apresentadas pelo gabinete do relator, Dias Toffoli.

As perguntas Toffoli para Vorcaro eram divididas em seis blocos, que tratavam de temas como a venda do Master ao BRB e a reunião do banqueiro com integrantes do Banco Central em 17 de novembro, mesmo dia em que acabou sendo preso por decisão da Justiça Federal de Brasília.

No depoimento, ele disse que havia informado previamente ao BC que viajaria para Dubai, nos Emirados Árabes, para um encontro com um grupo de investidores estrangeiros.

Em uma das perguntas, Toffoli pede até que o banqueiro diga se o Banco Central agiu com a “celeridade necessária” levando em conta o intervalo de tempo entre os primeiros indícios de fraude detectados pela instituição reguladora e a liquidação do Master em novembro passado.

Procurada, a defesa de Vorcaro informou que não se manifestaria.

Malu Gaspar - O Globo

 

 

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