O novo valor mensal do Documento de Arrecadação do
Simples Nacional (DAS) pago por microempreendedores individuais (MEIs) irá
impactar mais de 60% das empresas do setor de alimentação fora do lar que estão
enquadradas nesse tipo de regime em todo o País, de acordo com a Associação
Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). Com o reajuste do salário mínimo
para R$ 1.621 em 2026, o novo valor, que antes era de R$ 75,90, inicialmente,
passou a ser de R$ 81,05, podendo chegar a cerca de R$ 87, conforme a atividade
exercida, com reflexos nos custos do empreendedor e impactos para o consumidor
final.
Thiago Machado, presidente da Abrasel no Rio Grande
do Norte, avalia que a elevação agrava a pressão de custos fixos sobre os
pequenos negócios do setor operados por MEIs, diminui margens de lucro e acende
um alerta para o aumento do risco de endividamento. “Isso [o reajuste] reduz
margens já apertadas, especialmente quando 32% dos empresários não conseguem
repassar inflação aos preços. A alta soma-se a outros custos crescentes, como
mão de obra qualificada escassa e insumos mais caros devido à inflação
acumulada, de 44,05% entre 2020 e 2025”, afirma Machado.
“Pequenos estabelecimentos enfrentam dificuldade em
equilibrar preços sem perder clientes em um setor com histórico de dívidas da
pandemia e exigências regulatórias crescentes. A disputa por consumidores
intensifica-se, com risco de endividamento ao absorver aumentos sem repasse”,
acrescenta o presidente da Abrasel no RN.
Suerda Cassiano, de 34 anos tem focado em investir
na venda de café, água, sucos, refrigerantes, bolos e salgados, desde que abriu
o registro de MEI, há um ano. Além da divulgação nas redes sociais, ela aposta
na qualidade e no bom atendimento. Em seu ponto de vendas, localizado na Rua João
Pessoa, na Cidade Alta, Suerda também comercializa misto quente, pães e cuscuz
recheado. Com o aumento da contribuição, que no caso dela saiu de R$ 81,90 para
R$ 87,50, o reajuste no preço do café com leite foi inevitável. “Eu estava
ciente de que pagaria mais pelo DAS, então desde o mês passado fui avisando aos
clientes do novo preço do café com leite, para deixá-los precavidos”, contou à
reportagem.
Suerda avalia que o reajuste no valor do Documento
de Arrecadação do Simples Nacional é justificável, desde que isso se reverta em
melhores serviços públicos para a população. “Eu espero que essas melhorias
aconteçam. Atuar como MEI não é fácil. A gente lida com despesas diárias. E
esse não é o único aumento que nos afeta. Tem os preços de produtos como o açúcar
e outros, que também sofrem reajuste e nos afetam”, sublinha.
O comerciante Arnaldo Arlindo, que também atua no
segmento de alimentação fora do lar e possui como carro-chefe a venda de
água-de-coco na Cidade Alta, não aprovou a mudança no valor da contribuição.
Ele disse não ter ainda consultado o novo valor que terá de pagar, mas reclamou
do aumento.
“A gente vai ter que tirar esse reajuste de algum
lugar, ou seja, do cliente. Isso porque no mês passado já fiz um reajuste. O
coco menor, que era R$ 2,50 passou para R$ 3. E o maior custava R$ 3, passou
para R$ 4. No meu caso, que vendo principalmente água de coco, é bom lembrar
que o microempreendedor que me vende gelo também terá uma nova alíquota a
pagar. Ou seja, existe uma bola de neve”, aponta.
Impacto sobre pequenos negócios
A Abrasel pontua que o aumento da contribuição
ocorre independentemente do faturamento do microempreendedor, já que o valor da
contribuição é definido exclusivamente com base no salário mínimo (a
contribuição equivale a 5% do piso definido para o mínimo), o que amplia o
impacto sobre os negócios de menor porte.
A Associação destacou que o reajuste se deu em meio
a um cenário em que cerca de 35% das empresas do setor no Brasil estão
endividadas, enquanto mais da metade (60%) reajustaram os preços dos cardápios
abaixo da inflação ou apenas para acompanhar o índice.
“O MEI continua sendo uma porta de entrada
importante para a formalização, mas qualquer aumento de despesa fixa pesa no
orçamento de negócios muito pequenos, que já lidam com custos elevados e
recomposição de margem”, avalia Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel
Nacional sobre o reajuste no valor da contribuição para os microempreendedores.

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