As corridas por aplicativo ficaram
significativamente mais caras no Brasil. De acordo com o Índice Nacional de
Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), o preço do transporte por aplicativo subiu, em
média, 56,08% em 2025, a maior variação anual já registrada para o serviço. O
aumento superou a inflação geral do país, que fechou o ano em 4,26%, e passou a
ter um peso de forma mais evidente no orçamento de quem depende desse tipo de
deslocamento no dia a dia, especialmente em capitais e cidades com forte
demanda. Em Natal, a percepção dos usuários sobre o serviço estar mais caro
também acompanha os dados do levantamento.
Para o economista Helder Cavalcanti, conselheiro do
Conselho Regional de Economia do Rio Grande do Norte (Corecon-RN), o avanço
expressivo tem relação direta com mudanças recentes na forma de cálculo e no
próprio modelo de negócios das plataformas. “A tarifa dinâmica, que ajusta
preços em tempo real com base na demanda, passou a ser considerada no cálculo
do IPCA, aumentando a volatilidade dos preços. Ou seja, a lei da oferta e da
procura passa a determinar os valores”, afirma. Segundo ele, a combinação entre
maior procura em horários específicos e oferta limitada de motoristas acaba
elevando as tarifas em momentos críticos.
Além da metodologia, Helder Cavalcanti aponta o peso
do aumento dos custos enfrentados pelos motoristas. “Os custos com combustível,
manutenção e seguros pressionam as plataformas a repassar esses valores aos
usuários”, explica. O economista avalia ainda que, após anos de subsídios para
ganhar mercado, as empresas passaram a buscar sustentabilidade financeira.
“Agora, as plataformas ajustam preços para garantir rentabilidade, inclusive se
prevalecendo da maior procura em determinados horários”, completa.
Na prática, os motoristas afirmam que o aumento
percebido pelos passageiros não se reflete em melhora proporcional nos ganhos.
A motorista Regina Linhares, 40, que atua exclusivamente pela Uber, relata que
não houve repasse direto. “Nada foi repassado no aplicativo da Uber”, diz.
Segundo ela, os custos aumentaram, especialmente com combustível. “Eu rodo com
etanol. A gasolina e o etanol aumentaram, então teve aumento de custo”, afirma.
Para compensar, o esforço precisa ser maior. “É horrível, porque a gente tem
que fazer todo um recálculo e trabalhar um pouquinho mais para poder ter
lucro”, resume.
Situação semelhante é descrita por Isaac Ribeiro,
58, motorista que atua em mais de uma plataforma. “Nesse momento, eu não tenho
conhecimento de ter sido repassado para os motoristas”, afirma. Ele destaca que
todas as despesas ficam sob responsabilidade de quem dirige. “O carro é nosso e
a despesa é nossa. Combustível, pneu, documentação. A Uber e a 99 não têm
responsabilidade nenhuma nisso”, diz. Segundo Isaac, o combustível é hoje o
principal fator de pressão. “É o mais caro que tem e oscila muito aqui em
Natal”, completa.
Do lado dos usuários, a alta no preço já altera
hábitos e escolhas. A estudante Fernanda Martins, 25, relata surpresa com
valores recentes. “De dezembro para cá aumentou muito. Uma corrida que eu
sempre faço, que custava no máximo R$ 21, estava quase R$ 40 fora de horário de
pico”, conta. Para driblar os preços, ela passou a comparar aplicativos. “Fico
olhando entre a Uber e a 99 qual fica mais barata. Está um absurdo. Só compensa
quando dá para dividir com alguém”, afirma.
Já Luan Ferreira, 34, também percebeu mudanças no
serviço. “Está cada dia mais difícil. Demoram para aceitar e, mesmo assim, está
caro”, relata. Segundo ele, cancelamentos são frequentes. “Às vezes aceitam e
cancelam do nada. Quando é próximo das 8h ou passa das 18h, fica pior ainda”,
diz. Luan afirma que, embora prefira carro, muitas vezes opta pela moto por ser
uma opção mais barata no aplicativo.
A elevação dos preços reforça o debate sobre impacto
no custo de vida e no uso do serviço. Para Helder Cavalcanti, há risco de
redução da demanda entre usuários de renda média e baixa, que tendem a buscar
alternativas como transporte público ou caronas. Em cidades como Natal, onde o
aplicativo funciona como complemento ou alternativa ao transporte coletivo, o
efeito pode ser mais significativo.
Metodologia
Em nota, a Associação Brasileira de Mobilidade e
Tecnologia (Amobitec), que representa empresas como Uber e 99, afirmou que “as
associadas operam modelos de negócio que buscam equilibrar as demandas dos
usuários por viagens com a oferta de motoristas”. Segundo a entidade, “o preço
das viagens é influenciado por fatores como tempo e distância dos deslocamentos,
categoria do veículo, nível de demanda no horário e local específico”, o que
pode resultar em variações dinâmicas. A entidade destacou ainda que o impacto
do setor na inflação foi de 0,13 ponto percentual, inferior ao de outros custos
relevantes para o consumidor.
“As empresas têm equipes dedicadas que fazem um
acompanhamento constante dos principais custos que impactam motoristas
parceiros e realizam reajustes nos ganhos periodicamente. De acordo com
pesquisa realizada pelo Cebrap, entre maio de 2021 e abril de 2022 (primeira
edição da pesquisa) e entre maio de 2023 e abril de 2024 (edição atual), houve
um aumento real (acima da inflação) de 5,4% na remuneração por hora em corridas
desses trabalhadores”, declarou a Amobitec. A associação ainda questionou a
metodologia usada pelo IPCA para medir os preços das corridas por aplicativo e
considerou que não há transparência sobre os critérios adotados.

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