quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Corridas por aplicativo sobem mais de 56% e pesam no bolso do natalense

 


As corridas por aplicativo ficaram significativamente mais caras no Brasil. De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o preço do transporte por aplicativo subiu, em média, 56,08% em 2025, a maior variação anual já registrada para o serviço. O aumento superou a inflação geral do país, que fechou o ano em 4,26%, e passou a ter um peso de forma mais evidente no orçamento de quem depende desse tipo de deslocamento no dia a dia, especialmente em capitais e cidades com forte demanda. Em Natal, a percepção dos usuários sobre o serviço estar mais caro também acompanha os dados do levantamento.

Para o economista Helder Cavalcanti, conselheiro do Conselho Regional de Economia do Rio Grande do Norte (Corecon-RN), o avanço expressivo tem relação direta com mudanças recentes na forma de cálculo e no próprio modelo de negócios das plataformas. “A tarifa dinâmica, que ajusta preços em tempo real com base na demanda, passou a ser considerada no cálculo do IPCA, aumentando a volatilidade dos preços. Ou seja, a lei da oferta e da procura passa a determinar os valores”, afirma. Segundo ele, a combinação entre maior procura em horários específicos e oferta limitada de motoristas acaba elevando as tarifas em momentos críticos.

Além da metodologia, Helder Cavalcanti aponta o peso do aumento dos custos enfrentados pelos motoristas. “Os custos com combustível, manutenção e seguros pressionam as plataformas a repassar esses valores aos usuários”, explica. O economista avalia ainda que, após anos de subsídios para ganhar mercado, as empresas passaram a buscar sustentabilidade financeira. “Agora, as plataformas ajustam preços para garantir rentabilidade, inclusive se prevalecendo da maior procura em determinados horários”, completa.

Na prática, os motoristas afirmam que o aumento percebido pelos passageiros não se reflete em melhora proporcional nos ganhos. A motorista Regina Linhares, 40, que atua exclusivamente pela Uber, relata que não houve repasse direto. “Nada foi repassado no aplicativo da Uber”, diz. Segundo ela, os custos aumentaram, especialmente com combustível. “Eu rodo com etanol. A gasolina e o etanol aumentaram, então teve aumento de custo”, afirma. Para compensar, o esforço precisa ser maior. “É horrível, porque a gente tem que fazer todo um recálculo e trabalhar um pouquinho mais para poder ter lucro”, resume.

Situação semelhante é descrita por Isaac Ribeiro, 58, motorista que atua em mais de uma plataforma. “Nesse momento, eu não tenho conhecimento de ter sido repassado para os motoristas”, afirma. Ele destaca que todas as despesas ficam sob responsabilidade de quem dirige. “O carro é nosso e a despesa é nossa. Combustível, pneu, documentação. A Uber e a 99 não têm responsabilidade nenhuma nisso”, diz. Segundo Isaac, o combustível é hoje o principal fator de pressão. “É o mais caro que tem e oscila muito aqui em Natal”, completa.

Do lado dos usuários, a alta no preço já altera hábitos e escolhas. A estudante Fernanda Martins, 25, relata surpresa com valores recentes. “De dezembro para cá aumentou muito. Uma corrida que eu sempre faço, que custava no máximo R$ 21, estava quase R$ 40 fora de horário de pico”, conta. Para driblar os preços, ela passou a comparar aplicativos. “Fico olhando entre a Uber e a 99 qual fica mais barata. Está um absurdo. Só compensa quando dá para dividir com alguém”, afirma.

Já Luan Ferreira, 34, também percebeu mudanças no serviço. “Está cada dia mais difícil. Demoram para aceitar e, mesmo assim, está caro”, relata. Segundo ele, cancelamentos são frequentes. “Às vezes aceitam e cancelam do nada. Quando é próximo das 8h ou passa das 18h, fica pior ainda”, diz. Luan afirma que, embora prefira carro, muitas vezes opta pela moto por ser uma opção mais barata no aplicativo.

A elevação dos preços reforça o debate sobre impacto no custo de vida e no uso do serviço. Para Helder Cavalcanti, há risco de redução da demanda entre usuários de renda média e baixa, que tendem a buscar alternativas como transporte público ou caronas. Em cidades como Natal, onde o aplicativo funciona como complemento ou alternativa ao transporte coletivo, o efeito pode ser mais significativo.

Metodologia

Em nota, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que representa empresas como Uber e 99, afirmou que “as associadas operam modelos de negócio que buscam equilibrar as demandas dos usuários por viagens com a oferta de motoristas”. Segundo a entidade, “o preço das viagens é influenciado por fatores como tempo e distância dos deslocamentos, categoria do veículo, nível de demanda no horário e local específico”, o que pode resultar em variações dinâmicas. A entidade destacou ainda que o impacto do setor na inflação foi de 0,13 ponto percentual, inferior ao de outros custos relevantes para o consumidor.

“As empresas têm equipes dedicadas que fazem um acompanhamento constante dos principais custos que impactam motoristas parceiros e realizam reajustes nos ganhos periodicamente. De acordo com pesquisa realizada pelo Cebrap, entre maio de 2021 e abril de 2022 (primeira edição da pesquisa) e entre maio de 2023 e abril de 2024 (edição atual), houve um aumento real (acima da inflação) de 5,4% na remuneração por hora em corridas desses trabalhadores”, declarou a Amobitec. A associação ainda questionou a metodologia usada pelo IPCA para medir os preços das corridas por aplicativo e considerou que não há transparência sobre os critérios adotados.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A cidade brasileira onde o sol aparece quase o ano inteiro e o ar é considerado um dos mais puros do país

  Natal, capital do Rio Grande do Norte, está situada a 185 km de João Pessoa e destaca-se como um dos destinos mais ensolarados do país. ...