Aprovados nos concursos públicos da Secretaria de
Estado da Saúde Pública (Sesap) e da Secretaria de Estado da Educação, do
Esporte e do Lazer (SEEC/RN) vivenciaram, nesta quarta-feira (21), mais um dia
no cenário de angústia e incerteza que vem sendo a tentativa de cumprir uma das
últimas etapas antes da posse: a realização dos exames admissionais na Junta
Médica do Estado, em Natal. Com a aproximação dos prazos e desafios com o
sistema de agendamento, dezenas de candidatos têm ido presencialmente ao local
em busca de encaixes, muitos sem qualquer perspectiva de atendimento. Em
resposta às queixas, a Sead destacou que desde o dia 20 foram designados mais
médicos da Sesap para atuar de forma exclusiva em apoio à Junta Médica.
Apesar do reforço, aprovados nos concursos
aguardaram desde a madrugada e ao longo de todo o dia. Alguns chegaram a dormir
no local, temendo perder o prazo e, consequentemente, a vaga conquistada após
anos de estudo. Dentre os presentes, as queixas são as mesmas: atrasos no
início dos atendimentos, número reduzido de médicos e ausência de informações
claras sobre vagas disponíveis.
O caso é relatado por Ana Luísa Barreto, de 25 anos,
que foi aprovada no concurso da SEEC/RN: desde a noite de terça-feira (20), ela
aguardou na Junta Médica tentando um encaixe. “Estou aqui desde às 21h de ontem
e não consegui. Médicos que deveriam chegar às 7h chegam às 9h. A gente tenta
marcar pelo site, como manda o edital, mas simplesmente não consegue”,
desabafou à TRIBUNA DO NORTE.
Mesmo com o transtorno, Ana Luísa foi uma das
aprovadas que conseguiu atendimento neste dia 21. Ao final da tarde da quarta,
todos os futuros servidores que aguardavam atendimento foram chamados para
realizarem seus exames. “Graças a Deus consegui, mas isso foi algo que só havia
acontecido na segunda, apenas na segunda-feira (19) eles zeraram a fila dessa
forma”, afirmou.
Segundo Ana Luísa, há candidatos passando até 14
horas por dia em frente ao computador, sem sucesso. “Cada pessoa recebe uma
informação diferente, ninguém sabe no que acreditar. Tem gente vindo de outros
municípios, gastando dinheiro, desesperadas porque o tempo está correndo”,
relata. Ela afirma já ter realizado todos os exames e enviado a documentação,
que sequer foi analisada. “É um sentimento de impotência. Fiz tudo que estava
ao meu alcance, estudei, passei, e agora corro o risco de perder a vaga.” Os
aprovados no exame da SEEC/RN têm até o dia 7 de fevereiro para tomarem posse.
Em nota divulgada nesta quarta-feira (21), a
Secretaria de Estado da Administração afirmou que segue adotando medidas
emergenciais para regularizar os atendimentos da Junta Médica. Segundo a pasta,
em um intervalo de cerca de 20 dias, o Estado realizou mais de 3 mil nomeações,
o maior volume já registrado na história do Rio Grande do Norte, o que teria
superado momentaneamente a capacidade operacional regular da Junta.
Ainda de acordo com a Sead, até o momento, mais de
mil atendimentos já foram realizados, e desde dezembro houve ampliação da
oferta de médicos do trabalho para emissão do Atestado de Saúde Ocupacional
(ASO).
Os aprovados relatam um cenário diferente. Aprovada
no concurso da SEEC/RN, Rayane Rodrigues, de 30 anos, relata que, embora o
envio de documentos pelo sistema seja simples, a marcação da Junta Médica se
tornou o maior obstáculo. “A gente não sabe quantas vagas são liberadas, nem o
horário. Precisamos ficar de plantão o dia inteiro, de madrugada, esperando o
sistema abrir”, relata. Rayane afirma que, na última sexta-feira (16), as vagas
prometidas para o meio-dia só apareceram por volta das 22h, pegando muitos
candidatos de surpresa.
Ela também aponta falta de organização no
atendimento presencial. “Tem dias com dois médicos, outros com três ou quatro.
Os atendimentos começam a ser agendados às 7h10, mas os médicos chegam às 8h ou
8h30 e vão embora ao meio-dia. Quem tenta encaixe fica esperando, sem garantia
nenhuma”, afirma. Para Rayane, o problema central é a falta de médicos e de
transparência sobre a real capacidade de atendimento.
A situação também afeta os aprovados da área da
saúde. Déborah Costa Santos, 26 anos, convocada no concurso da Sesap no dia 31
de dezembro, ainda não conseguiu sequer acessar uma vaga no sistema. “Quando
entro, o sistema está fora do ar ou não tem vaga. Meus documentos não foram
analisados e pedi prorrogação do prazo há quase 10 dias, sem resposta”, afirma,
temendo pela falta de sucesso no pedido de prorrogação, que poderá acarretar a
perda de sua vaga. O prazo original de Déborah, e dos aprovados no concurso da
Sesap, vai até 30 de janeiro.
Camila Lacerda, 26 anos, aprovada no concurso da
Educação, descreve a situação como “desgastante e desumana”, e relata uma
rotina exaustiva de tentativas frustradas. “Fiquei das 11h30 até 21h30 em
frente a três telas esperando as vagas que, segundo a nota da Sead, seriam
liberadas ao meio-dia. Elas só apareceram depois das 22h, quando eu já estava
exausta. No dia seguinte, surgiram rapidamente e foram preenchidas em minutos”,
conta. Para ela, o sistema lento e instável agrava ainda mais o problema. “Já
pedi demissão do meu emprego para assumir o concurso. Estudei muito e não
consegui nem comemorar a nomeação.”
O professor de Língua Portuguesa Antonio Mesquita,
27 anos, resume o sentimento coletivo: “Toda a alegria da convocação foi
interrompida por uma sequência de descaso. Não temos informações claras, não
conseguimos vaga na junta, não sabemos a data da posse. Não somos animais para
sermos tratados assim. Somos humanos e merecemos respeito.”
Além da dificuldade de agendamento, os aprovados
também demonstram preocupação com a validade dos exames, que podem expirar e
gerar novos custos, e com a necessidade de pedir prorrogação de posse. Embora a
Sead tenha informado que a prorrogação é um direito previsto em lei, muitos
temem que isso gere prejuízos, como atraso na análise da documentação ou
mudança na ordem de nomeação.
Em resposta às queixas dos aprovados, a Sead
reforçou ainda que novas vagas de agendamento continuarão sendo liberadas
diariamente às 12h, exclusivamente pelo sistema online, e orientou os
candidatos a evitarem comparecer presencialmente sem agendamento, alegando que
isso compromete a organização dos atendimentos. Questionada sobre a quantidade
de atendimentos realizados por dia, a pasta respondeu que não há previsão
exata, uma vez que depende da forma de atendimento de cada médico, podendo
então variar de 15 até 100 atendimentos por dia.
Apesar de todos presentes na Junta Médica nesta
quarta terem conseguido o almejado atendimento, os futuros servidores públicos
que ainda precisam realizar o exame de admissão expressam preocupação com a
efetividade dos agendamentos online disponibilizados. Eles pedem a
descentralização da realização dos exames médicos, uma vez que a sobrecarga da
Junta Médica é a principal justificativa apontada como causa das dificuldades
de agendamento.

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