Felipe Salustino
Repórter
O Rio Grande do Norte registrou índice de 12,8% de
inadimplência no agronegócio, o maior do Nordeste e o quarto maior entre todos
os estados brasileiros. No mesmo levantamento, a média nacional ficou em 8,3%,
e a do Nordeste, 9,7%. Os dados inéditos da Serasa Experian se referem ao
terceiro trimestre de 2025 e mostram que Roraima (com 13,3%), Amazonas (14,3%)
e Amapá (19,8%) foram as unidades federativas com maior percentual.
Arrendatários e produtores de médio porte são os mais afetados no RN.
Os dados indicam que 16,9% dos inadimplentes no agro
potiguar no terceiro trimestre de 2025 eram produtores “sem informação de
registro rural”, ou seja, arrendatários e participantes de grupos econômicos
e/ou familiares; 14,7% eram produtores de médio porte. Além disso, 13,6% eram
produtores de grande porte e 11% eram produtores de pequeno porte.
José Álvares Vieira, presidente da Federação da
Agricultura e Pecuária do RN (Faern), avalia que o cenário tem a ver com um
conjunto de fatores econômicos e estruturais que vêm se acumulando ao longo do
tempo e se intensificaram em 2025.
“De um lado, há o impacto direto do ambiente
macroeconômico, marcado por juros elevados, maior seletividade do sistema
financeiro e aumento significativo dos custos de produção, especialmente
insumos, energia e logística. Esse cenário pressiona o fluxo de caixa dos
produtores e reduz a capacidade de honrar compromissos financeiros. No caso
específico do RN, esses fatores são potencializados por características
estruturais do agro estadual, como a elevada exposição a questões climáticas e
a dependência de atividades com maior custo operacional — como a pecuária e a
fruticultura irrigada”, explica.
Vieira analisa que margens historicamente mais
estreitas, sobretudo fora das cadeias mais capitalizadas e exportadoras, também
contribuem para o cenário. “Embora o crescimento da inadimplência seja gradual,
a persistência dessa trajetória acende um sinal de alerta, indicando a
necessidade de medidas preventivas e estruturais para evitar o agravamento do
endividamento rural no estado”, diz.
De acordo com os dados da Serasa Experian, o índice
no terceiro trimestre do ano passado cresceu 0,2 ponto percentual em comparação
com o trimestre imediatamente anterior (que registrou 12,6% de inadimplência),
e 0,8 ponto percentual no comparativo com igual período de 2024, com 12% dos
negócios do agro inadimplentes no RN.
Erivam do Carmo, presidente da Federação dos
Trabalhadores na Agricultura do Estado (Fetarn), afirma que o cenário está
ligado à estiagem em áreas estratégicas para o setor. “A questão da seca tem
provocado um impacto muito grande. A falta de chuvas interfere nas safras e,
quando o prazo para arcar com financiamentos chega ao fim, o produtor não
consegue se organizar para quitar a dívida”, afirma Erivam.
Falta de registro torna produtor
“invisível”
Segundo José Vieira, o grupo mais afetado pela
inadimplência no agronegócio do estado sofre com a falta de registro rural
formalizado, fator que torna o produtor “invisível” para o acesso a políticas
públicas e ao sistema financeiro. “Arrendatários e integrantes de grupos
familiares produzem, geram emprego e renda, mas frequentemente não dispõem de
registro rural formalizado ou de garantias patrimoniais suficientes, o que
dificulta o acesso a crédito com condições adequadas”, indica o presidente da
Faern.
Já os produtores de médio porte, de acordo com
Vieira, enfrentam um desafio adicional: não se enquadram nas políticas voltadas
aos pequenos, nem possuem a estrutura financeira, jurídica e de gestão dos
grandes grupos econômicos. “Isso os torna mais vulneráveis a oscilações de
mercado, eventos climáticos adversos e aumentos de custos, além de limitar a
capacidade de renegociação em momentos de dificuldade”, falou.
Vieira defende que, para reverter a situação no
curto prazo, é fundamental que os produtores busquem renegociar as dívidas
junto às instituições financeiras, utilizando os instrumentos disponíveis no
crédito rural, como alongamento de prazos, reescalonamento de parcelas e
adequação das operações às linhas compatíveis com o próprio perfil produtivo, a
exemplo do Pronaf e do Pronamp.
“Também é importante reforçar a organização
produtiva por meio do cooperativismo, associações ou parcerias que ampliam o
poder de negociação, reduzem custos e facilitam o acesso a assistência técnica
e financeira”, disse Vieira.
“A Faern atua de forma permanente junto ao sistema
financeiro e ao Governo Federal para ampliar o acesso a crédito, reduzir
vulnerabilidades e garantir condições mais estáveis para a sustentabilidade dos
negócios rurais no RN”, acrescentou Vieira.
Valor médio das dívidas no país
Conforme levantamento da Serasa Experian, a
inadimplência rural no Brasil está concentrada, principalmente, em dívidas
contraídas com “instituições financeiras”, que alcançaram 7,3% no terceiro tri
de 2025, com dívida média de R$ 130,3 mil. “O perfil do crédito rural, marcado
por tíquetes mais altos, prazos mais longos e maior exposição financeira, faz
com que poucos inadimplentes concentrem montantes expressivos de dívida,
ampliando o risco, mesmo em um cenário de taxa relativamente controlada”,
explica Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa.
A avaliação por idade revelou que a parcela da
população rural acima dos 80 anos tem a menor taxa de inadimplência no Brasil.
Por outro lado, aqueles com faixa etária de 30 a 39 anos foram os mais
inadimplentes, marcando 12,7%. No recorte por regiões, o Sul do país (com 5,5%)
marcou o menor percentual de inadimplência no trimestre analisado, seguido pelo
Centro-Oeste (9,4%), Nordeste (9,7%) e o Norte (12,4%).
Considerando-se o recorte das unidades federativas,
o Rio Grande do Sul apresentou menor índice de inadimplência (5,1%), juntamente
com Paraná (5,8%) e Santa Catarina (5,8%). Para o Indicador de Inadimplência do
Agronegócio da Serasa Experian foram consideradas apenas dívidas vencidas com
mais de 180 dias e até 5 anos somando pelo menos R$ 1.000, dentre aquelas que
estão relacionadas ao financiamento e atividades do agro.

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