Felipe Salustino
Repórter
Destaque em todo o País pelo cultivo de frutas como
o melão, especialmente, o Rio Grande do Norte tem despontado cada vez mais para
as culturas não tradicionais no estado, mas já bem estabelecidas em outras
regiões do Brasil. De acordo com a Secretaria de Agricultura, Pecuária e Pesca
do RN (Sape), a produção de açaí, cacau e café tem se desenvolvido em escala
significativa nos últimos anos, fazendo com que as chamadas cadeias exóticas
avancem mais de 400% em cinco anos. Guilherme Saldanha, titular da pasta,
afirma que cerca de 150 hectares em todo o estado estão reservados ao plantio
dessas culturas atualmente, um número ainda considerado pequeno diante do
potencial local.
De olho em diferentes nichos de mercado e de novas
oportunidades de negócio para o campo, o Sebrae-RN atua para fomentar o cultivo
desses produtos. De acordo com Elton Alves, gestor da área de culturas exóticas
do Sebrae-RN, o café tem se mostrado como uma das cadeias exóticas mais
promissoras no estado, mas há casos bem sucedidos de plantação de pitaya e
morangos ecológicos.
De modo geral, o cultivo dos produtos não
tradicionais no RN é responsável por cerca de 500 postos de trabalho, conforme
o secretário Guilherme Saldanha. “São oportunidades geradas direta e
indiretamente”, afirma.
Ainda segundo Saldanha, as áreas onde há o cultivo
promissor dessas cadeias estão localizadas em municípios como Martins, Jaçanã e
Ceará-Mirim. Mas também existem bons exemplos em Touros, Maxaranguape e
Ceará-Mirim.
“O grande destaque é o café, que já começou em
escala significativa em Ceará-Mirim”, frisa o secretário. Antes conhecida como
a “terra da cana-de-açúcar”, o Vale do Ceará-Mirim é hoje celeiro importante do
cultivo de produtos não tradicionais. O local abraça pequenos empreendedores
que chegaram de diversas regiões do país.
É o caso de Silmara Campos, de 62 anos, que produz
abacaxi ornamental desde 2013 em uma área da Fazenda Tamanduá, onde ela mantém
cinco hectares reservados à cultura. O mercado principal é a Holanda, que
responde por 95% do que é produzido. “Os holandeses são loucos pelo nosso
abacaxi. Quanto ao mercado nacional, nosso principal destino é São Paulo. Só
uma pequena fatia fica em Natal”, revela Silmara. A beleza que o produto
imprime faz do item uma verdadeira joia para o mercado europeu.
O sucesso das exportações é tão grande que a meta
para 2026, de acordo com a produtora, é conseguir atender a todos os pedidos
que chegam da Holanda. “Há, de fato, uma demanda que nós não estamos
conseguindo suprir. Então, nossa meta é ampliar a quantidade enviada, que gira
em torno de cinco hastes, o equivalente a cerca de 230 quilos de abacaxi a cada
15 dias. A gente quer aumentar esse número para 300 quilos por quinzena”,
revela.
Tradição familiar
Depois
de consolidada a produção de abacaxi ornamental em Ceará-Mirim, Silmara começou
a alçar novos voos. Em março deste ano, ela iniciou a plantação de café Robusta
Amazônico, da espécie canéfora. A escolha pela nova cultura se deve aos incentivos
do Sebrae para estruturar a produção dessa cadeia no Estado, mas tem a ver,
sobretudo, com um importante apelo familiar, segundo a empreendedora.
Natural do interior Paraná, Silmara vive no RN há 40
anos. Ela conta que o avô materno era proprietário de uma fazenda de café no
estado natal, mas a propriedade foi dizimada por uma forte geada em 1975.
“A geada negra, como a que ocorreu naquele ano,
queima a seiva da planta. Meu avô perdeu todo o cafezal. Já aqui em
Ceará-Mirim, 50 anos depois, vi meu vizinho plantando café, então, toda a
história da minha família me veio à cabeça. Procurei o Sebrae, descobri que
essa cadeia estava sendo reestruturada no Rio Grande do Norte e resolvi
apostar, porque tornou-se algo com um sentido todo especial para mim, de resgate
de toda uma memória”, relata.
Por enquanto, a área reservada é de um hectare, mas
Silmara tem planos de expandir para até 5 ha, se os resultados forem positivos.
A expectativa é de que as primeiras colheitas aconteçam em maio de 2027.
Quem também se prepara para o cultivo da espécie no
Vale do Ceará-Mirim é o casal Carlos André Mendes e Ana Luiza Coelho, ambos de
48 anos. Para o cultivo, eles aguardam a chegada das mudas do Espírito Santo,
com expectativa de iniciar o plantio em dezembro no assentamento Vale Verde,
onde os dois já produzem outras culturas.
“Reservamos um hectare para a plantação, mas
poderemos ampliar para mais um, a depender da evolução dessa cultura”, menciona
André. Por enquanto, ele e a esposa cultivam uma variedade de frutas como a
manga, que é o carro-chefe da produção, além de banana e goiaba. Em áreas
menores, estão o cultivo de macaxeira, mini jerimum, maracujá, batata-cenoura,
batata-beterraba, abacate, pepino, jambo, abacaxi e outros.
“Existe uma ansiedade muito grande pelo café. Nem
plantamos ainda, e muita gente já nos procura por causa desse produto”, fala
Ana Luiza, animada. De acordo com Carlos André, o grande diferencial do negócio
atualmente é a certificação orgânica alcançada por todos os produtos, os quais
são comercializados no espaço Frutos Vale Verde, no Mercado da Agricultura
Familiar, em Natal, e também por meio de programas como o de Aquisição de
Alimentos (PAA), do Governo do Estado, e o Programa Nacional de Alimentação
Escolar (PNAE).

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