domingo, 30 de novembro de 2025

Culturas exóticas transformam perfil do agronegócio potiguar

 


Felipe Salustino
Repórter

Destaque em todo o País pelo cultivo de frutas como o melão, especialmente, o Rio Grande do Norte tem despontado cada vez mais para as culturas não tradicionais no estado, mas já bem estabelecidas em outras regiões do Brasil. De acordo com a Secretaria de Agricultura, Pecuária e Pesca do RN (Sape), a produção de açaí, cacau e café tem se desenvolvido em escala significativa nos últimos anos, fazendo com que as chamadas cadeias exóticas avancem mais de 400% em cinco anos. Guilherme Saldanha, titular da pasta, afirma que cerca de 150 hectares em todo o estado estão reservados ao plantio dessas culturas atualmente, um número ainda considerado pequeno diante do potencial local.

De olho em diferentes nichos de mercado e de novas oportunidades de negócio para o campo, o Sebrae-RN atua para fomentar o cultivo desses produtos. De acordo com Elton Alves, gestor da área de culturas exóticas do Sebrae-RN, o café tem se mostrado como uma das cadeias exóticas mais promissoras no estado, mas há casos bem sucedidos de plantação de pitaya e morangos ecológicos.

De modo geral, o cultivo dos produtos não tradicionais no RN é responsável por cerca de 500 postos de trabalho, conforme o secretário Guilherme Saldanha. “São oportunidades geradas direta e indiretamente”, afirma.

Ainda segundo Saldanha, as áreas onde há o cultivo promissor dessas cadeias estão localizadas em municípios como Martins, Jaçanã e Ceará-Mirim. Mas também existem bons exemplos em Touros, Maxaranguape e Ceará-Mirim.

“O grande destaque é o café, que já começou em escala significativa em Ceará-Mirim”, frisa o secretário. Antes conhecida como a “terra da cana-de-açúcar”, o Vale do Ceará-Mirim é hoje celeiro importante do cultivo de produtos não tradicionais. O local abraça pequenos empreendedores que chegaram de diversas regiões do país.

É o caso de Silmara Campos, de 62 anos, que produz abacaxi ornamental desde 2013 em uma área da Fazenda Tamanduá, onde ela mantém cinco hectares reservados à cultura. O mercado principal é a Holanda, que responde por 95% do que é produzido. “Os holandeses são loucos pelo nosso abacaxi. Quanto ao mercado nacional, nosso principal destino é São Paulo. Só uma pequena fatia fica em Natal”, revela Silmara. A beleza que o produto imprime faz do item uma verdadeira joia para o mercado europeu.

O sucesso das exportações é tão grande que a meta para 2026, de acordo com a produtora, é conseguir atender a todos os pedidos que chegam da Holanda. “Há, de fato, uma demanda que nós não estamos conseguindo suprir. Então, nossa meta é ampliar a quantidade enviada, que gira em torno de cinco hastes, o equivalente a cerca de 230 quilos de abacaxi a cada 15 dias. A gente quer aumentar esse número para 300 quilos por quinzena”, revela.

Tradição familiar
Depois de consolidada a produção de abacaxi ornamental em Ceará-Mirim, Silmara começou a alçar novos voos. Em março deste ano, ela iniciou a plantação de café Robusta Amazônico, da espécie canéfora. A escolha pela nova cultura se deve aos incentivos do Sebrae para estruturar a produção dessa cadeia no Estado, mas tem a ver, sobretudo, com um importante apelo familiar, segundo a empreendedora.

Natural do interior Paraná, Silmara vive no RN há 40 anos. Ela conta que o avô materno era proprietário de uma fazenda de café no estado natal, mas a propriedade foi dizimada por uma forte geada em 1975.

“A geada negra, como a que ocorreu naquele ano, queima a seiva da planta. Meu avô perdeu todo o cafezal. Já aqui em Ceará-Mirim, 50 anos depois, vi meu vizinho plantando café, então, toda a história da minha família me veio à cabeça. Procurei o Sebrae, descobri que essa cadeia estava sendo reestruturada no Rio Grande do Norte e resolvi apostar, porque tornou-se algo com um sentido todo especial para mim, de resgate de toda uma memória”, relata.

Por enquanto, a área reservada é de um hectare, mas Silmara tem planos de expandir para até 5 ha, se os resultados forem positivos. A expectativa é de que as primeiras colheitas aconteçam em maio de 2027.

Quem também se prepara para o cultivo da espécie no Vale do Ceará-Mirim é o casal Carlos André Mendes e Ana Luiza Coelho, ambos de 48 anos. Para o cultivo, eles aguardam a chegada das mudas do Espírito Santo, com expectativa de iniciar o plantio em dezembro no assentamento Vale Verde, onde os dois já produzem outras culturas.

“Reservamos um hectare para a plantação, mas poderemos ampliar para mais um, a depender da evolução dessa cultura”, menciona André. Por enquanto, ele e a esposa cultivam uma variedade de frutas como a manga, que é o carro-chefe da produção, além de banana e goiaba. Em áreas menores, estão o cultivo de macaxeira, mini jerimum, maracujá, batata-cenoura, batata-beterraba, abacate, pepino, jambo, abacaxi e outros.

“Existe uma ansiedade muito grande pelo café. Nem plantamos ainda, e muita gente já nos procura por causa desse produto”, fala Ana Luiza, animada. De acordo com Carlos André, o grande diferencial do negócio atualmente é a certificação orgânica alcançada por todos os produtos, os quais são comercializados no espaço Frutos Vale Verde, no Mercado da Agricultura Familiar, em Natal, e também por meio de programas como o de Aquisição de Alimentos (PAA), do Governo do Estado, e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

 

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