No fim da tarde de 16 de março de 2022, Maycon Lucas
Zacarias Soares mandou pelo WhatsApp uma foto da fachada do Palácio da
Resistência. A imagem era para combinar o ponto de encontro com o cunhado,
Oseas Monthalggan Fernandes Costa — sócio-administrador da DISMED Distribuidora
de Medicamentos. Oseas estava dentro do prédio, sede da Prefeitura de Mossoró.
Maycon ia até lá entregar “o envelope”.
A Polícia Federal não detalha o conteúdo do envelope
em que a cena está registrada. Em mensagens anteriores na mesma conversa, Oseas
mencionara “os papéis da Roberta” — sua esposa, sócia da
Drogaria Mais Saúde —, que precisariam ser assinados. Não se sabe se a
assinatura de papéis é ou não verdadeira.
Quando a Operação Mederi se tornou pública, três
anos depois, o registro daquele encontro ganhou outra dimensão. Não pela cena
em si, mas pelo quintal em que aconteceu. Em 21 de junho de 2024,
no auge da investigação, R$ 138.547,73 caíram na conta da
DISMED. O dinheiro era do Fundo Municipal de Saúde de Mossoró — pago,
justamente, pela Prefeitura sediada no Palácio Felipe Camarão. No mesmo
dia, antes que a empresa usasse aquele dinheiro para comprar uma caixa
sequer de medicamento, a DISMED transferiu valores para Maycon, para Oseas,
para a Posto MM Soares — e depositou R$ 20 mil na conta poupança da
filha menor de Oseas,
Naquela tarde, pelo WhatsApp, Oseas lembrou ao
cunhado:
“Maikynho, só se ligue aí que é poupança
viu, tem que botar essa variação 51.”
Maycon, que acabara de sair do banco,
então chega ao Palácio da Resistência:
Quando a foto de Allyson Bezerra e Oseas, de 2024,
foi postada no Instagram e virou peça do inquérito, o ex-prefeito de Mossoró
disse não ter relação com o sócio da Dismed. Em sua defesa, nesse dia, é
preciso sublinhar que ele estava em Brasília.
A matemática que o sócio recitou
A cena é um único dia de uma rotina. Entre maio e
outubro de 2024 — seis meses —, a DISMED recebeu R$ 8,15 milhões em
pagamentos de prefeituras e sacou R$ 2,21 milhões em espécie.
Aproximadamente 27,1% de tudo o que entrou de dinheiro público, virou
cash.
O percentual não é coincidência. Em outra escuta —
desta vez ambiental, dentro do escritório da DISMED em Mossoró —, Oseas
Monthalggan recitou em voz alta a divisão. O áudio é da tarde de 13 de
maio de 2025:
“Fica cento e quarenta (R$ 140.000,00)
pra ele entregar cem por cento (100%). Dos cento e quarenta ele ganha setenta
(R$ 70.000,00). Setenta com sessenta é meu, cento e trinta (R$ 130.000,00). Só
que dos cento e trinta nós temos que pagar cem mil (R$ 100.000,00) a ALLYISON e
a FÁTIMA, que é dez por cento (10%) de FÁTIMA e quinze por cento (15%) de
ALLISSON. Só ficou trinta mil (R$ 30.000,00) pra a empresa!”
ALLYISON é como Oseas se refere a Allyson
Leandro Bezerra Silva, então prefeito de Mossoró. FÁTIMA é como aparece nas
escutas uma pessoa ainda não identificada pela PF.
Aplicando a “matemática” só ao que Mossoró pagou à
DISMED no semestre auditado — R$ 3.332.710,27, segundo o relatório
bancário —, a PF calcula um valor teórico de propina de R$ 833.177,57 apenas
para esta cidade. Os 25% que escapam da empresa, na conta da PF, “guardam
proporção próxima” do percentual de 27,1% sacado em espécie sobre o total
creditado por prefeituras.
A engenharia dos saques
A retirada do dinheiro em espécie obedece a um padrão.
Dos R$ 2,21 milhões sacados em 70 operações entre maio e outubro de 2024:
- Maycon
Lucas Zacarias Soares, cunhado de Oseas,
sacou R$ 1.784.000,00 em 20 saques — média de R$ 89.200
por operação. Representa 80,7% do total.
- Oseas
Monthalggan, sócio-administrador, sacou R$
294.000,00 em 6 operações — média de R$ 49.000 por saque.
Representa 13,3% do total.
Os 13,3% de Oseas não são arredondamento à
toa. R$ 49 mil é o limite imediatamente abaixo de R$ 50 mil —
valor a partir do qual o banco é obrigado a comunicar a operação ao Conselho de
Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Em outro período, anterior, a mesma
DISMED havia feito 22 saques exatos de R$ 49 mil —
somando R$ 1,07 milhão. Para a PF, é fracionamento deliberado para
escapar do controle automático.
Os outros 5,97% dos saques (R$ 132 mil em 44
operações) saíram pulverizados em retiradas de R$ 3 mil em terminais de
autoatendimento. Outra forma de não chamar atenção.
A conclusão da própria PF, na fl. 500 do laudo:
“os saques logo após os pagamentos tenham
servido para repasses ilícitos, inclusive a outras prefeituras.”
A sócia de fachada
A engrenagem do dinheiro em espécie tinha mais
peças. Vitória Cibele Pinheiro Bezerra Soares — esposa de
Maycon, sócia formal da DISMED até janeiro de 2024 — atuava como armazenadora
doméstica do numerário. Em diálogo do WhatsApp do dia 9 de dezembro de 2023,
Maycon escreveu para a esposa:
“Na última gaveta lá de baixo do
colaste, onde fica a minha maquininha, tem um bolo de dinheiro de 4.000,00
purgue 3.000,00 e traga.”
Minutos depois, ela confirma: “Tá aqui no
meu bolso.”
A PF conclui na fl. 477:
“Ela atuava no armazenamento e repasse
de numerário em espécie, na realização de pagamentos via contas de empresas de
fachada e na execução de transferências bancárias a mando do marido. Sua
participação reforça o caráter estruturado do esquema, no qual familiares eram
utilizados para diluir responsabilidades.”
Em 9 de janeiro de 2024, um “Aditivo 04” formaliza a
saída de Vitória do quadro societário. No lugar dela, entra o próprio Maycon. A
movimentação, segundo a PF, “reforça o uso de interpostas pessoas para
dar aparência de legalidade ao controle do grupo”.
A escala
A DISMED Distribuidora de Medicamentos Ltda. foi
fundada com outros sócios. Em 4 de fevereiro de 2021, Oseas
Monthalggan — então vereador de Upanema com rendimento declarado de R$ 4.049,05
mensais — entrou no quadro. Em 2016, à Justiça Eleitoral, Oseas declarara
patrimônio total de R$ 26 mil.
A empresa apresentou crescimento exponencial. Em
2023, o faturamento anual ultrapassou R$ 11 milhões. Entre 8 de
junho de 2018 e 14 de maio de 2023, apenas numa única instituição financeira, a
DISMED movimentou R$ 65,43 milhões.
O contrato com a Prefeitura de Mossoró é o maior do
bloco, mas não é o único. Os sócios da Dismed admitiram em conversas captadas
pela PF que o modelo de negócio deles era a propina. Sem propina, não teriam
como existir.
A Dismed também vendeu, mas não só, para os Fundos
Municipais de Saúde de Tibau, Serra do Mel, Upanema, Patu, Porto do Mangue,
Campo Grande, Triunfo Potiguar, Areia Branca, Grossos — entre outros municípios
do oeste e do Seridó potiguar. Em alguns deles, escutas registradas pela PF
mencionam o mesmo padrão de divisão por porcentagem — com prefeitos e
secretários locais sendo nomeados nos áudios.
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