O número de acidentes de trânsito aumentou 82% em
cinco anos no Rio Grande do Norte, segundo dados da Secretaria de Estado da
Segurança Pública e da Defesa Social (Sesed-RN). O crescimento foi constante
entre 2021, quando foram registrados 7.498 sinistros, e 2025, com 13.649
ocorrências contabilizadas pela Polícia Civil do RN. De janeiro a abril de
2026, o estado registrou 4.337 acidentes, média de 36 por dia. O cenário acende
um alerta para a importância da conscientização no trânsito.
O maior salto ocorreu entre 2022 e 2024, quando o estado passou de 9,6 mil para
mais de 13,3 mil ocorrências. No total, entre 2021 e abril de 2026, o RN
registrou 59.732 acidentes de trânsito, dos quais 2.790 tiveram mortes. Os
dados reforçam a importância da campanha Maio Amarelo, que busca reduzir os
sinistros e tem como tema em 2026: “No trânsito, enxergar o outro é salvar
vidas”.
“Logo depois da pandemia [2020], observamos uma certa diminuição dos acidentes,
mas de 2024 para cá esse número vem aumentando, o que preocupa todas as
autoridades de trânsito”, diz o professor Emerson Melo, especialista em
legislação de trânsito. Segundo ele, a falta de sinalização em trechos
importantes contribui para o aumento dos acidentes.
Os números da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap-RN) sobre
atendimentos a vítimas de acidentes também acompanham a tendência de
crescimento. De julho de 2024 a março de 2026, o Notifica RN registrou 32.946
atendimentos em unidades de saúde. Apenas nos três primeiros meses de 2026, já
houve 8.755 notificações.
De acordo com boletim da Sesap-RN, os motociclistas formam o grupo mais
vulnerável, representando quase 62% dos atendimentos (19.730). Na sequência
aparecem motoristas (4.497 e 13,7%), passageiros (2.488 e 7,6%), ciclistas
(2.023 e 6,1%) e pedestres (896 e 2,7%). A maioria dos acidentados tem um
perfil: homens jovens, entre 20 e 49 anos.
Para especialistas, os dados reforçam a necessidade de campanhas educativas
permanentes. Emerson Melo afirma que essas iniciativas “têm que ser
intensificadas, mas não só pontualmente, como o Maio Amarelo e a Semana
Nacional de Trânsito, que ocorre em setembro.”
Na avaliação dele, é necessário ampliar as ações de conscientização desde a
escola até a universidade. “Tudo para funcionar no trânsito tem que ter o
trinômio engenharia, educação e fiscalização. A engenharia evita acidentes, por
exemplo, temos muitas vias no interior do estado sem acostamentos”, destaca.
A secretaria estadual de saúde aponta ainda predominância de acidentes com
motocicletas, com 27.186 casos entre 2024 e 2026. Bicicletas (1.965) e
automóveis (1.464) aparecem em menor número. “Em 2026, as notificações mensais
ultrapassaram 3 mil casos, refletindo ampliação da sensibilidade do sistema,
mais do que aumento real na ocorrência”, descreve o boletim. “A série temporal
das notificações […] apresenta tendência crescente no período de julho de 2024
a março de 2026, com oscilações”, completa.
Em Natal cai o número de acidentes
Enquanto
o RN registra aumento nos acidentes, Natal apresenta movimento contrário. Dados
da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (STTU) mostram redução de 32,91%
nos sinistros entre 2021 (4.227) e 2025 (2.836).
A secretária da STTU, Jódia Melo, afirma que intervenções em vias com altos
índices de acidentes contribuíram para a redução. Segundo ela, a prevenção
começa pela identificação de como e onde os acidentes ocorrem. Já o número de
mortes no trânsito em Natal oscilou entre 2021 e 2025. Foram 52 mortes em 2021,
com queda até 2024 (35), seguida de alta em 2025, quando houve 42 mortes. A
secretária destaca a quantidade de motociclistas entre as vítimas.
Sinistros com motos lideram mortes
Dos
42 acidentes fatais registrados na capital em 2025, 26 envolveram motocicletas,
o equivalente a 62%. Houve também queda nos sinistros com pedestres: os
registros diminuíram 65% entre 2024 e 2025, passando de 60 para 21 ocorrências.
O número de mortes de pedestres caiu pela metade, de 16 para 8 casos. Em 2023,
5.557 automóveis estavam envolvidos em acidentes, número que caiu para 3.121 em
2024, redução de quase 44%. Já as motocicletas registraram aumento: eram 1.540
ocorrências em 2021 e passaram para 1.834 em 2025, aumento de 19%.
A STTU destaca ainda os dados sobre motociclistas atendidos nas unidades de
saúde de Natal: a cada 50 minutos, um motociclista dá entrada em uma unidade;
no Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, uma vítima é recebida a cada 1h51. “Em
2025, cresceu muito o número de pessoas que utilizam a motocicleta para
sobreviver, para trabalhar.
A motocicleta, por vezes, era utilizada como meio de deslocamento para ir
trabalhar. Agora, você utiliza para ganhar dinheiro”, observa a secretária.
“Cada vez mais, depois da pandemia, as pessoas se acostumaram a ter essa
conveniência de pedir as coisas em casa”, acrescenta.
A Tribuna do Norte já mostrou que, entre janeiro de 2025 e abril deste ano,
4.035 pacientes foram internados no Hospital Walfredo Gurgel após acidentes de
moto. A média é de 58 atendimentos por dia — uma vítima a cada três horas. Os
dados constam em relatório do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde
(LAIS/UFRN).
Maio Amarelo: prevenção e atenção
Segundo
a STTU, a prevenção de acidentes envolve quatro pilares: educação, engenharia,
fiscalização e cidadania. “Se a gente fizer a nossa parte enquanto gestão,
enquanto política pública de segurança viária, que é tratar esses três pilares,
e o cidadão não se interessar em se conscientizar e ter empatia, [os sinistros
ocorrem]”, destaca Jódia Melo.
Ela explica que maio é um mês de conscientização para reduzir acidentes,
especialmente os mais graves, com mortes ou sequelas. A STTU realiza
levantamento mensal dos dados para orientar ações de prevenção.
“O setor de estatística, de acordo com os boletins de ocorrência e dados dos
hospitais, vai compilando tudo e faz esse dashboard. Em cima desses dados,
começamos a trabalhar a educação de trânsito, a fiscalização e a manutenção
viária”, diz.
Dentro da programação do Maio Amarelo, a STTU promove palestras em empresas,
escolas e universidades. Jódia Melo destaca ainda o retorno do programa de
formação de agentes mirins de trânsito em 2026. “É um programa para formar
crianças de 8 a 10 anos, na escola. Estamos formando 100 nesse semestre e mais
100 no próximo semestre. E eles serão multiplicadores.”
Saúde é fator de atenção
Entre
as principais causas de acidentes estão fatores comportamentais e condições de
saúde dos condutores. A Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet)
aponta que, no RN, entre 2014 e 2024, 26,1% dos acidentes tiveram causas
relacionadas à saúde.
No Brasil, nesse período, fatores comportamentais, como ultrapassagens
indevidas e excesso de velocidade, responderam por 49,4% dos acidentes, segundo
a entidade. Questões ligadas à saúde física e emocional dos condutores
representaram 27,8% dos sinistros, seguidas pelas condições da via (8%) e do
veículo (6,7%).
Segundo a Abramet, entre 2014 e 2024, o RN registrou 69.284 acidentes. Desses,
18.088 tiveram como causa fatores relacionados à saúde e 51.196 decorreram de
outras causas. Emerson Melo acredita que a falta de atenção também está entre
os principais fatores dos sinistros.
“A falta de atenção não necessariamente seria um problema de saúde. Por
exemplo, 60% dos acidentes no Brasil ocorrem por colisão traseira. E a esses
acidentes é atribuída como causa a falta de atenção. [Por exemplo,] o motorista
que não guarda a distância de segurança ideal do veículo que vai à sua frente”,
afirma. “Hoje, no Brasil, já existe uma fiscalização na renovação da
habilitação, um certo critério a mais no exame médico, que vai avaliar as
condições de saúde do candidato”, conclui Melo.
Acidentes de trânsito no RN
2021: 7.498
2022: 9.637
2023: 11.286
2024: 13.325
2025: 13.649
2026 (até abril): 4.337
Total: 59.732
Total de sinistros com morte: 2.790
Fonte: Sesed-RN