O presidente do Conselho de Farmácia do Rio Grande
do Norte (CRF/RN), Joselito Rangel, aponta que o desabastecimento de insumos
não é um problema recente no Walfredo Gurgel e tem impactado a prestação de
assistência aos pacientes: “Os profissionais têm relatado dificuldade para
poder desenvolver suas atividades no dia a dia pela falta de medicamentos e
materiais hospitalares”.
Segundo ele, o CRF constantemente solicita
explicações da Sesap/RN sobre o déficit e deve realizar uma inspeção na unidade
nesta terça-feira (25). A ideia é que a ação resulte em um relatório que será
encaminhado à Secretaria e ao Ministério Público do Estado (MPRN). “O Conselho
está programando uma inspeção para que a gente possa identificar [o déficit] e
tomar as providências para que o trabalho dos profissionais, assim como o
atendimento à população, não seja comprometido. Essa semana está prevista a
realização dessa inspeção”, destaca.
Em resposta à TRIBUNA DO NORTE, o Conselho Regional
de Medicina do Rio Grande do Norte (Cremern) disse que acompanha a situação do
abastecimento do Walfredo Gurgel com preocupação: “O Conselho tem acompanhado o
problema e espera da Sesap e dos demais responsáveis a adoção de medidas para
regularizar o abastecimento, garantindo condições adequadas de trabalho aos
médicos e, principalmente, a segurança e a qualidade da assistência prestada à
população”.
A reportagem da TRIBUNA DO NORTE esteve no Walfredo
Gurgel na manhã desta segunda-feira (24) e colheu relatos de acompanhantes que
denunciam os problemas de assistência no hospital. Uma balconista, de 42 anos,
que preferiu não ser identificada, disse que foi informada sobre a limitação no
estoque de itens como pomada e esparadrapo, mas até o momento não precisou
desembolsar a compra dos insumos para o namorado, que está internado há onze
dias.
Quem também destaca os problemas na unidade é a
cuidadora e vendedora Maria Catiane, de 38 anos, que foi ao local visitar uma
amiga que estava internada. Embora não tenha informações sobre a falta de
insumos para atender a paciente, ela aponta que o local carece de macas
adequadas, além de registrar corredores cheios e falhas no elevador. “O
hospital do Estado que mais precisa de melhora na estrutura é o Walfredo”,
compartilha.
Normalização
A Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap)
afirma que já está adotando medidas para recompor o estoque de medicamentos e
insumos do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, que registrou desabastecimento
total de 189 itens, equivalentes a 25% do catálogo da unidade, na semana
passada. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o titular da pasta, Alexandre Motta,
disse que 37 produtos estão empenhados, com previsão de entrega em até 15 dias,
enquanto outros 89 estão em processo de pregão. Além disso, 18 itens chegaram
ao hospital entre a última quinta-feira e esta segunda-feira (24).
O levantamento da Divisão de Farmácia do Walfredo,
divulgado pela TRIBUNA DO NORTE no sábado (22), apontou que, além dos 189 itens
zerados, outros 11% estavam em nível crítico, com estoque suficiente para menos
de um mês. Apenas 64% dos itens eram considerados regulares. Entre os produtos
em falta estavam luvas, seringas, agulhas, esparadrapos, antibióticos, soro
fisiológico e medicamentos como noradrenalina e sedativos.
Motta, no entanto, afirma que o relatório da
farmácia é um instrumento interno utilizado para orientar a gestão e que as
providências já estavam em andamento antes da divulgação do documento. “Dos 189
itens, nós temos 37 empenhados com previsão de entregas em até 15 dias, 89
deles com processo de pregão, em fase de conclusão de parecer e emissão de
empenho, e 18 itens já chegaram de quinta-feira até hoje”, afirmou.
Entre os materiais recebidos, o secretário citou
soro fisiológico, luvas de procedimento, gazes, seringas e alguns antibióticos.
Segundo ele, itens como noradrenalina e sedativos também já estão sendo
faturados.
Ele não estabeleceu uma data única para a
normalização do estoque, argumentando que cada produto está em uma etapa
diferente de aquisição. Uma das estratégias utilizadas pela Sesap é o
remanejamento de materiais entre os 22 hospitais da rede estadual. “Quando
falta um determinado produto em um hospital, eles fazem permuta com outros hospitais.
Então, a gente tem uma rede de 22 hospitais e isso acaba fluindo”, explicou.
Questionado se o problema é recorrente, Motta
afirmou que há dificuldades pontuais na rede, mas classificou as crises de
abastecimento como parte da dinâmica da saúde pública. “Não é que seja
recorrente, as crises na saúde são habituais”, declarou.
O secretário atribuiu parte das dificuldades
financeiras enfrentadas pela saúde estadual à redução da arrecadação provocada
pela redução na alíquota do ICMS em 2024. “Isso gerou um resto a pagar que é
sempre renegociado ciclicamente”, afirmou.
Apesar da falta de materiais, o secretário nega que
o abastecimento esteja provocando atrasos nas cirurgias de urgência no Walfredo
Gurgel. Segundo ele, a unidade continua realizando os procedimentos de trauma,
acidentes e violência, enquanto outras cirurgias podem ser direcionadas para
unidades da rede estadual ou para serviços privados. “Obviamente que isso
atrapalha, mas as cirurgias de urgência continuam acontecendo”, afirmou.
Uma decisão de 4 de agosto passado, do juiz da 5ª
Vara da Fazenda Pública de Natal, Luiz Alberto Dantas Filho, determinou que o
Estado comprovasse em 15 dias a situação atualizada do abastecimento das
unidades hospitalares da rede estadual em Natal, incluindo o Hospital Monsenhor
Walfredo Gurgel; o estágio de tramitação dos processos licitatórios e demais
medidas administrativas destinadas à regularização dos insumos em falta; e a
documentação dos processos administrativos SEI referentes ao monitoramento de
abastecimento do HJPB (Santa Catarina), do Hospital Pediátrico Maria Alice
Fernandes (HIMAF) e da UNICAT.
Em ofício encaminhado à Sesap, a Procuradoria-Geral
do Estado solicitou as informações e documentação até o dia 31 de agosto de
2026.