A Polícia Federal foi às ruas, na sexta, contra
traficâncias cometidas na Amprev, a gestora do regime previdenciário do Amapá –
que despejou R$ 400 milhões no Master e que era dirigida por Jocildo Silva
Lemos, nomeado em 2023 sob ordem de Davi Alcolumbre, de quem fora tesoureiro em
2022.
Na quinta, véspera da operação, em entrevista ao
UOL, Lula disse: “Nós vamos a fundo nesse negócio. Nós queremos saber por que o
governo do Rio de Janeiro e o Estado do Amapá colocaram dinheiro do fundo dos
trabalhadores nesse banco. Qual é a falcatrua que existe entre o Master e o
BRB?” O presidente – não seja maledicente – desconhecia a operação que a PF
faria no dia seguinte. Tratou-se apenas de quando o discurso eleitoral – que
tenta associar “a falcatrua” à direita – coincide com o que será a atividade
policial. Acaso.
Na direita, na esquerda, no centro, sempre em cima,
“a falcatrua”, ecumênica, foi onipresente. O negócio da Amprev com o Master não
tem explicação em termos de mercado. Não se sustenta, se avaliado sob quais
seriam os benefícios para a instituição investidora. Isso serve para as
transações feitas pelo BRB, pelo Rioprevidência e, na Bahia petista, pelo
Credcesta – que só fazem sentido quando avaliadas a partir dos interesses do
Master. Eram – foram – boas somente para o Master. Ir “a fundo”, para valer,
significará cortar na própria carne.
No caso de BRB e Rioprevidência, a linha do tempo é
explícita: o Master perdia liquidez, a sua pirâmide exposta, e a turma veio em
socorro. O castelo de cera do banco não teria ganhado Brasília como ganhou sem
a expansão no comércio de crédito consignado que o Credcesta garantiu. Lula,
que sabia de nada, mandaria chamar Rui Costa – “que é da Bahia, que conhecia
ele (Vorcaro)” – quando decidiu atender o lobby de Mantega e receber o banqueiro
fora da agenda. Era dezembro de 2024. Mandou chamar também Galípolo, que,
diretor do Banco Central desde 2023, não poderia ignorar a existência do
problema. O BC dera um ultimato ao Master no mês anterior.
O Master estava em todo lugar. Alcolumbre está no
Senado. Controla o Congresso – para quem acredita nas chances de CPI a respeito
prosperar à vera, antes mais fácil que liquide com a do INSS. Bom para todo
mundo.
Lula, que vai “a fundo nesse negócio” explorando o
texto do combate aos “magnatas da corrupção”, recebeu Ciro Nogueira, do centrão
bolsonarista, no dia 22 de dezembro. A notícia é da Folha. O senador foi lhe
propor um acordo. Não tem votos – vestido de Bolsonaro – para se reeleger no
Piauí, mesmo havendo duas cadeiras em disputa, e quer que o presidente apoie
apenas um candidato. A situação de Ciro é delicada sobretudo porque nenhum
outro político foi tão próximo a Vorcaro. O senador, presidente do PP, teria
oferecido, em troca de ajuda, talvez para que não se vá tão “a fundo” assim,
que o partido não se aliasse a Flávio Bolsonaro neste 26.
É possível que Flávio entenda. O silêncio dos
Bolsonaro sobre esse escândalo, inexplicável eleitoralmente, explicaria.
Carlos Andreazza - Estadão