Em entrevista ao repórter Fernando Rodrigues em
2006, o marqueteiro João Santana explicou o fenômeno popular de Luiz Inácio
Lula da Silva pela existência de “dois Lulas” no imaginário popular: um
trabalhador humilde que virou “fortão” e, ao mesmo tempo, o pobre, vítima do
preconceito das elites, o “fraquinho”. Vinte anos depois, o conceito segue
atual para entender como Lula pretende virar o jogo faltando cinco meses para a
eleição.
O primeiro sinal do Lula “fraquinho” veio no
pronunciamento em rede nacional de TV do Primeiro de Maio, quando acusou “o
sistema” de jogar contra seu governo:
— Os obstáculos que temos pela frente são enormes.
Cada vez que damos um passo adiante para melhorar a vida do povo brasileiro, o
sistema joga contra. O andar de cima, os bilionários, a elite que só pensa em
manter privilégios às custas do povo. Se dependesse do sistema, nem a
escravidão teria sido abolida no Brasil.
Um parêntese. Soa ridículo que o partido no poder no
Brasil por 18 dos últimos 24 anos agora pose de antissistema, mas o marketing
político tem dessas embromações. Deputado do Centrão por sete mandatos
consecutivos, Jair Bolsonaro posou de antissistema em 2018 e deu certo. Fecha
parêntese.
O Lula “fortão” reaparece com o lançamento hoje do
Desenrola 2, o programa de refinanciamento de dívidas bancárias de mais de 30
milhões de brasileiros a juros abaixo de 2% ao mês. O discurso vai reforçar a
identidade de que apenas um trabalhador no poder poderia fazer um acordo com os
bancos para favorecer outros trabalhadores.
Em propaganda do PT, Lula surge como o símbolo do
fortão. A música, um sertanejo com sanfona de forró, é uma narrativa da
superação e do trabalho duro. Diz a letra:
“Já levei muita pedrada/ já falaram sem saber/ teve
gente desejando me ver cair, me ver sofrer/ mas eu sou raiz de campo/ sou
poeira e sou chapéu/ quanto mais o vento soca/ mais eu firmo o pé no chão (.)
Eu não paro/ eu não quebro/ eu não largo minha fé/sou peão de esperança/ com
poeira no pé”.
O tom de confronto vai ganhar volume com o avanço
das discussões na Câmara para o fim da jornada 6x1. A votação do projeto deve
ocorrer até a última semana de maio. A campanha do governo será de “nós contra
eles”, repetindo a fórmula que deu certo no ano passado, quando o Congresso
virou “inimigo do povo” e terminou aprovando por unanimidade a isenção do
Imposto de Renda até R$ 5 mil. Será novamente o Lula “fraquinho” enfrentando o
“sistema”, o chavão para atacar ricos, patrões, congressistas, a família
Bolsonaro ou o governo Donald Trump.
No calendário governista, a votação do fim do 6x1
deve coincidir com as primeiras revelações da delação do banqueiro Daniel
Vorcaro sobre o esquema de favores envolvendo governadores, senadores,
deputados e ministro do STF, ou seja, “o sistema”.
Depois da rejeição de Jorge Messias no Senado, dois
ministros e um ex-ministro me disseram que Lula só tem a ganhar com uma delação
ampla, geral e irrestrita no caso Master. Perguntados qual seria a reação se o
inquérito da Polícia Federal envolver petistas da Bahia ou ministros do STF
aliados do governo, a resposta foi igual:
— Azar o deles.
Thomas Traumann - O Globo