O presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu na
quarta-feira (5) pela primeira vez a possibilidade de excluir de sua chapa à
reeleição o vice Geraldo Alckmin (PSB), peça central da estratégia petista em
2022 para ampliar as alianças e derrotar Jair Bolsonaro. O movimento ocorre no
momento em que o PT busca atrair o MDB para fazer uma dobradinha na corrida ao
Palácio do Planalto.
Na quarta-feira, Lula afirmou que tanto Alckmin
quanto o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), ou a ministra do
Planejamento, Simone Tebet (MDB), podem ser candidatos ao governo de São Paulo.
O presidente aumentou a pressão para uma definição ao dizer que Alckmin e
Haddad sabem que “têm um papel a cumprir”.
— Nós temos muito voto em São Paulo e temos
condições de ganhar as eleições em São Paulo. Eu ainda não conversei com o
Haddad, ainda não conversei com o Alckmin, mas eles sabem que têm um papel para
cumprir em São Paulo. Eles sabem. A Simone (Tebet) também tem um papel para
cumprir, também não conversei com ela — disse Lula em entrevista ao Portal UOL.
Cartas na mesa
Segundo integrantes do governo, Lula passou a
indicar que está no momento de colocar todas as cartas na mesa sem descartar
nenhum cenário para a eleição, até para dificultar a estratégia dos
adversários. Um auxiliar do presidente com assento no Planalto afirma que Lula
vê com bons olhos a entrada de Alckmin na disputa de São Paulo.
A expectativa é que a decisão só ocorra na metade do
ano. Seja para disputar governo estadual, Senado ou para se manter na vice,
Alckmin precisa deixar o Ministério da Indústria e Comércio até o início de
abril.
Um grupo de lideranças petistas afirma que Lula só
tiraria o seu atual vice da chapa se fosse para atrair justamente o MDB para a
aliança, mas o apoio do partido é considerado difícil.
Já aliados de Alckmin minimizaram a declaração, ao
argumentar que Lula estava apenas convocando-o para articular o cenário
político no estado. O próprio vice também tem revelado nos bastidores que não
acredita que exista um desejo do mandatário de vê-lo na disputa estadual.
Pessoas próximas ao vice dizem que o eleitor que
votava em Alckmin em São Paulo no passado migrou para o atual governador,
Tarcísio de Freitas (Republicanos), e hoje não tem mais identificação com o
vice-presidente, justamente por causa da sua aliança com PT. Assim, hoje o
ex-tucano acredita ser mais importante no projeto nacional do que na disputa em
seu estado de origem.
Já Haddad tem dito publicamente que não quer ser
candidato neste ano, mas é instado por correligionários a disputar as eleições
em São Paulo. A preocupação do PT é evitar que o candidato de oposição a Lula
na corrida ao Palácio do Planalto abra uma grande vantagem sobre o petista no
estado, o que, segundo essa avaliação, pode ocorrer se o palanque estadual não
for forte.
Nesse contexto, é lembrado o papel de Haddad em
2022, quando o petista levou a eleição contra Tarcísio ao segundo turno e
contribuiu para que o ex-presidente Jair Bolsonaro não se distanciasse tanto de
Lula, que chegou a ser mais votado do que o adversário na capital. Na ocasião,
Haddad perdeu para Tarcísio por uma diferença de 2,4 milhões de votos — ou
55,34% a 44,66% dos votos válidos.
No caso de Tebet, o cenário mais provável é que a
ministra deixe o MDB para disputar o Senado por São Paulo, uma vez que o
diretório paulista do partido é próximo ao bolsonarismo e deve apoiar os
candidatos do atual governador. Ela tem convite para se filiar ao PSB.
— Acho que a gente pode ganhar as eleições (para o
governo estadual) em São Paulo se a gente escolher um candidato a governador, o
Alckmin ou o Haddad, a Simone Tebet. Nós vamos ganhar aquelas eleições em São
Paulo, porque é o seguinte: quem é que fez mais política social? Quero comparar
com os governadores — disse Lula.
Caso um acordo para uma chapa presidencial entre PT
e MDB vingue, os citados para eventualmente ocupar o posto de vice de são Renan
Filho e o governador do Pará, Helder Barbalho. Ambos têm, no momento, planos de
disputar a eleição em seus estados, concorrendo ao governo e ao Senado,
respectivamente. O MDB tem um longo histórico de divisões regionais. Mesmo
quando a legenda formalizou as alianças com Dilma Rousseff em 2010 e 2014 com a
indicação de Michel Temer para vice, houve dissidências.
Haddad também têm sido pressionado por ministros
petistas, como Camilo Santana (Educação) e Gleisi Hoffmann (Relações
Institucionais), a ser candidato em outubro. O titular da Fazenda tem resistido
e afirma que prefere participar da coordenação da campanha à reeleição e, nesta
semana, disse que na conversa definitiva com Lula sobre o assunto “resta saber
quem vai convencer quem”.
Mandato para o STF
Lula também reafirmou na quarta que defende um
mandato para ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo ele, no
entanto, essa decisão nada tem a ver com a tensão entre os Poderes que tem se
acirrado após os atos golpistas do 8 de Janeiro.
O presidente relembrou que a instituição de um
mandato para ministros da Corte estava previsto no programa de governo do PT,
quando Haddad disputou a Presidência em 2018. A medida também estava prevista
em sua plataforma de 2022.
— Eu acho que nada está livre de mudanças. Durante a
campanha do Haddad em 2018, estava um mandato para o STF. Eu acho que vamos
discutir isso, porque não é justo uma pessoa entrar com 35 anos e ficar até 75
anos, é muito tempo — disse o presidente, ressaltando que esta decisão cabe ao
Congresso.
Os nomes para a eleição no estado
Fernando Haddad - O ministro é o plano A do PT para
disputar a eleição ao governo de SP, apesar de ele declarar com frequência que
esse não é o seu desejo. A avaliação é que, mesmo que Haddad saia derrotado,
ele dará um palanque forte para Lula no maior colégio eleitoral do país.
Geraldo Alckmin - Ex-governador do estado, o
vice-presidente, assim como o seu partido, o PSB, defende a sua manutenção na
chapa de Lula. Mas seu recall em São Paulo o coloca como nome competitivo para
o Senado, além de ser alternativa para disputar o Bandeirantes.
Simone Tebet - O bom desempenho da ministra do
Planejamento nas eleições presidenciais faz com que ela seja considerada para
disputar o Senado por São Paulo. Para isso, contudo, Tebet tem até 4 de abril
para trocar seu domicílio eleitoral, hoje no Mato Grosso do Sul.
Pacheco ainda é esperança em Minas
Para a disputa do governo de Minas, estado que
costuma refletir o resultado da eleição nacional, o presidente Lula voltou a
defender que o senador Rodrigo Pacheco seja o candidato. O ex-presidente do
Senado está filiado hoje ao PSD, mas deve trocar a legenda pelo União Brasil,
numa articulação feita pelo atual presidente da Casa e seu aliado de primeira
hora, Davi Alcolumbre (União-AP).
— Ainda não desisti de você, viu, Pacheco. Vamos ter
uma conversa e acho que você pode ser o futuro governador de Minas Gerais —
afirmou ontem o presidente em entrevista ao UOL.
A mudança de partido de Pacheco, prevista para
acontecer após o carnaval, ocorre após o PSD filiar o vice-governador de Minas,
Matheus Simões, que deve disputar a sucessão de Romeu Zema (Novo), adversário
de Lula.
Pacheco ainda não decidiu se vai concorrer.
Paralelamente, o PT articula outras alianças, incluindo com Alexandre Kalil,
nome do PDT.
O Globo