Às 10h15 de 19 de junho de 2024, uma quarta-feira,
Oseas Monthalggan Fernandes Costa ligou para um número de celular. Dono da
Dismed Distribuidora de Medicamentos, ele perguntou: “Cadê o negócio, entrou já
o saldo?”. A ligação durou um minuto e catorze segundos. Somada às mensagens
que o dono do número trocou naquele mês com Oseas e com a mulher dele, e ao
cargo de um irmão, foi o que a Polícia Federal levou ao tribunal para pedir — e
obter — a quebra do sigilo telefônico e telemático de Saulo David Araújo
Cabral, funcionário do Banco do Brasil. E para anotar nos autos da Operação
Mederi que o irmão dele, Lucas Ezequiel Tomaz Araújo Silveira, ocupava cargo de
confiança no Gabinete do Prefeito de Mossoró.
Saulo é, hoje, o terceiro nome da lista de vinte
pessoas cujos sigilos foram devassados na investigação. A lista é da própria
defesa da Dismed, numa petição juntada ao inquérito em 16 de junho em que
sustenta que ninguém ali tem foro no Tribunal Regional Federal da 5ª Região —
tese que a defesa levou de novo ao tribunal num
recurso de 4 de setembro, dessa vez sem nomear os vinte. Ao lado do nome
dele, a defesa escreveu a qualificação: “funcionário de instituição
financeira”.
Ser alvo de quebra de sigilo não é ser réu. Saulo
não consta entre os representados da representação criminal de novembro de
2025, nem no rol de partes do inquérito no sistema do tribunal. O que os autos
guardam sobre ele é o que a PF escreveu ao pedir as medidas, o que o desembargador
Rogério Fialho Moreira autorizou, e o que veio de volta. No caso das contas de
e-mail, quase nada. Não há manifestação de Saulo nem do irmão nos autos, e o
Blog do Dina não os procurou antes desta publicação.
A ligação
A conversa está transcrita no primeiro auto
circunstanciado da interceptação, que cobre o período de 6 a 20 de junho de
2024. A PF classificou a chamada com o assunto “Oseas cobra HNI” — homem não
identificado. É assim que ela aparece nos autos:
HNI: Oi, “Gan”.
OSEAS: Tá sem internet?
HNI: Tô, bicho, eu tô em Fortim/CE. Tô
na fazenda aqui.
OSEAS: Aí tá certo, só quer saber da
fazenda de camarão agora, né!
HNI: É, exatamente. (risos)
OSEAS: E as novidades?
HNI: Cara, por enquanto nada. Eu tô
voltando hoje à tarde para Mossoró, pretendo estar umas 3 horas. Você vai estar
pela cidade ou vai tá em Upanema?
OSEAS: Rapaz, eu vou para Upanema. Mas
qualquer coisa eu pego você.
HNI: Não, não é nada urgente não, pode
ir para Upanema (inaudível).
OSEAS: Cadê o negócio, entrou já o
saldo?
HNI: Ainda não. Tô tentando resolver uns
negócios aqui para ligar para o chefe.
OSEAS: Daqui para sexta, você acha que
tem alguma novidade?
HNI: Tá, pode deixar…
“Gan” é como o interlocutor chama Oseas Monthalggan.
Quem é “o chefe”, os autos não dizem.
Para descobrir de quem era o número, a PF consultou
os bancos de dados disponíveis. O telefone estava cadastrado como chave Pix de
uma conta do Banco do Brasil em nome de Saulo. A partir daí, a autoridade
policial escreveu que a linha “provavelmente” pertence a ele. Logo adiante,
deixou registrada uma dúvida. A ligação foi feita “numa quarta-feira (19/06),
às 10h”. O teor, escreveu a PF, “não condiz com a rotina de um bancário, o que
leva à suspeita de que a linha esteja sendo utilizada por terceira pessoa”. Por
isso, a PF pediu para “aprofundar a investigação com relação ao usuário da
linha”.
Quem é Saulo David, pelos autos
A PF o descreve, em vários documentos, como
funcionário do Banco do Brasil. No quadro-resumo da representação que pediu as
quebras, a síntese é uma frase: “Saulo é funcionário do Banco do Brasil e
mantém diálogos suspeitos com Oseas”. Numa informação policial de setembro de
2024, a frase ganha um complemento: “diálogos suspeitos a respeito de
transações financeiras com Oseas”. Um documento localizado depois, na conta de
e-mail dele, o descreve como gerente-geral do banco — a PF registra o print sem
dizer de qual agência.
Os autos não dizem em que agência ele trabalha, nem
ligam a função dele a qualquer conta da Dismed. O que dizem, em outras páginas,
é que as contas da empresa ficam no Banco do Brasil, em duas agências de
Mossoró. Foi numa agência do banco que a PF flagrou, em vigilância velada, o
sócio Maycon Zacarias fazendo saques em espécie, em julho e agosto de 2024.
Nenhuma peça lida pelo blog junta as duas pontas.
O que a análise das mensagens de WhatsApp registra,
no mês da ligação, é uma sequência de contatos. No dia 11 de junho, Saulo
mandou um áudio a Oseas às 9h22; Oseas respondeu com dois áudios cerca de uma
hora e meia depois, e a troca continuou à tarde. Na manhã seguinte, às 8h16,
Oseas enviou a Saulo “dois arquivos do tipo documento”. A partir do dia 14, as
mensagens com Saulo passaram a ser trocadas com o telefone de Roberta Praxedes,
mulher de Oseas e dona da Drogaria Mais Saúde. No dia 24, foi Roberta quem
enviou dois documentos, às 18h28; Saulo respondeu com dois áudios dois minutos
depois. O conteúdo dos áudios e dos documentos não está transcrito na peça.
O irmão no gabinete
A segunda coisa que a PF anotou sobre Saulo não é
sobre ele. É sobre o irmão.
“Saulo é irmão de Lucas Ezequiel Tomaz Araújo
Silveira, o qual ocupa cargo de confiança na Prefeitura Municipal de
Mossoró/RN, uma das principais remetentes de recursos para a empresa Dismed”,
escreveu a autoridade policial. Na informação de análise que acompanha o
pedido, o detalhe: Lucas “é lotado no Gabinete do Prefeito de Mossoró/RN, na
função de Diretor do Departamento de Cerimonial e Eventos”. A PF reproduziu nos
autos a portaria de nomeação.
O Diário Oficial de Mossoró conta o resto. Lucas
era, em outubro de 2023, gerente executivo de Cerimonial, lotado na Secretaria
de Governo. No dia 29 de janeiro de 2025, o então prefeito Allyson
Bezerra assinou o
ato coletivo que exonerou comissionados. Nele, Lucas aparece como “Diretor
Administrativo – CC6”, com a atribuição de “Diretor do Departamento de
Cerimonial e Eventos” do Gabinete. Um mês depois, ele reaparece numa comissão
de avaliação de amostras da Secretaria de Administração. De abril de 2025 em
diante, é “Diretor de Departamento de Cerimonial” da Secretaria de Cultura,
designado fiscal — ou substituto do fiscal — de contratos de estrutura, som e
camisetas para eventos. Neste ano, foi de novo designado fiscal de contrato, em
27 de abril. No dia 5 de junho, coordenava o Polo Raiá
do Dia do Mossoró Cidade Junina 2026 — já na gestão de Marcos
Medeiros, prefeito
desde que Allyson renunciou, em março.
Mossoró — Fundo Municipal de Saúde e prefeitura — é
quem mais pagou à Dismed entre os 82 entes públicos listados pela PF: R$ 13,6
milhões, como o blog mostrou
em agosto. Nada nos autos liga Lucas a esses pagamentos. A PF registrou o
parentesco e o cargo, e parou aí.
O que o desembargador autorizou — e o que voltou
Em 10 de dezembro de 2024, o desembargador Rogério
Fialho Moreira deferiu o que a PF pediu sobre Saulo David. Interceptação da
linha por quinze dias e dos aparelhos associados a ela. Quebra da conta de
WhatsApp, de quatro contas do Google e de uma da Microsoft. Os ofícios foram
expedidos nos dias seguintes.
O resultado está nos autos, e não trouxe elemento
novo contra ele. Do Google, a resposta foi que duas das contas atribuídas a
Saulo não tinham registro de criação nem atividade no período — “contas sem
dados”, na lista da PF; de uma terceira, a PF anotou que “não trouxe conteúdo
relevante”. Da Microsoft veio a conta de e-mail que confirmou o nome dele e o
print do cargo no banco. A conclusão do agente que a analisou, em 12 de março
de 2025, é literal: “o material analisado não enseja obter informações
relevantes à investigação em curso. O material, dada sua exiguidade,
impossibilita qualquer análise”. No relatório sobre a interceptação de WhatsApp
de janeiro de 2025, concluído em agosto, a conta de Saulo David está na tabela
de alvos, e o sumário aponta para uma seção sobre ele que não existe no
documento.
Fora esses registros, o nome de Saulo não volta a
aparecer em análise nenhuma da PF nos autos a que o blog teve acesso. Ele
reaparece apenas em junho de 2026, na petição da defesa — como argumento de que
a investigação correu contra vinte pessoas sem foro.
O que fica em aberto
Uma ligação de 74 segundos, uma chave Pix, mensagens
trocadas com o casal dono das empresas, um irmão no gabinete. Foi isso que
sustentou uma quebra de sigilo autorizada por um tribunal federal. O que veio
da conta de e-mail, a própria PF diz que não deu para analisar.
As perguntas que os documentos não respondem são as
que importam. Que “saldo” Oseas cobrava. Quem é “o chefe”. E se a função de
Saulo no banco tem qualquer relação com as contas por onde a Dismed movimentou
o dinheiro das prefeituras. A série completa da Operação
Mederi está reunida aqui.
O espaço está aberto para manifestação.
Atualização (19/09, à noite): o
texto foi ajustado após checagem: a lista dos vinte investigados citada pela
defesa consta de petição de 16 de junho, não do recurso de 4 de setembro; a
linha fina passou a reproduzir o “provavelmente” da PF sobre a titularidade da
linha; e a frase “impossibilita qualquer análise” foi precisada como conclusão
sobre a conta de e-mail, não sobre toda a quebra.
Com informações do Blog do Dina