Felipe Salustino
Repórter
Sempre que precisa preencher uma vaga de emprego,
Rodrigo Vasconcelos, proprietário de uma loja especializada em flores na Cidade
Alta, em Natal, enfrenta o mesmo desafio: leva em média 45 dias para conseguir
efetivar a contratação. A principal causa é a escassez de mão de obra
qualificada, segundo ele. E Rodrigo não está sozinho. Um levantamento do FGV
Ibre, unidade da Fundação Getúlio Vargas, mostra que em todo o Brasil seis em
cada dez empresas têm enfrentado dificuldades para encontrar profissionais. No
RN, o cenário é puxado pela redução da taxa de desemprego — que diminuiu o
número de pessoas disponíveis no mercado —, falta de qualificação e até pelo
desinteresse por determinadas funções.
As dificuldades se espalham pelos mais variados
setores da economia potiguar. No comércio, segmentos com grande demanda
operacional e rotinas de alto fluxo são os mais afetados. “Supermercados, bares
e restaurantes, e atividades de facilities (limpeza, portaria, jardinagem,
segurança e manutenção) apresentam rotatividade e dificuldade de reposição
especialmente acentuadas”, descreve Marcelo Queiroz, presidente da Fecomércio
RN.
Na área de Tecnologia da Informação e Dados, o
déficit de mão de obra é estruturante para 39% das empresas parceiras do Senac,
instituição de educação profissional que integra a Fecomércio. “Há ainda
problemas no comércio e varejo em funções como telemarketing, vendedores
especializados e analistas de e-commerce”, afirma Queiroz.
Segundo a Fecomércio, 84% das empresas do comércio
atendidas pelo Senac Carreiras relatam que as dificuldades em conseguir mão de
obra se traduzem em processos seletivos mais longos e custos maiores de
recrutamento.
Na indústria do RN, as funções mais difíceis de
preencher são as de técnico industrial, operadores, profissionais de
manutenção, supervisores de produção e especialistas em qualidade, segurança e
meio ambiente.
“Os maiores gargalos concentram-se justamente nos
segmentos que sustentam a indústria potiguar: alimentos e bebidas, pesca e
agroindústria, mineração e petróleo, além de áreas estratégicas como manutenção
industrial, eletromecânica, automação e logística. Nessas atividades, as vagas
permanecem abertas por longos períodos, travando a expansão das empresas, os
investimentos e a geração de emprego e renda”, explica Roberto Serquiz,
presidente da Federação das Indústrias do RN (Fiern).
No agro, os segmentos mais afetados são aqueles que
dependem intensivamente de mão de obra operacional e sazonal, como a
fruticultura irrigada — especialmente nas etapas de colheita, seleção e
embalagem — além da pecuária e da agricultura tradicional. Segundo José Álvares
Vieira, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do RN (Faern), esses
setores concentram grande demanda por trabalhadores em períodos curtos, exigem
esforço físico e, muitas vezes, oferecem contratos temporários.
“Em um contexto de base demográfica restrita e
envelhecida, a competição por esses trabalhadores torna-se crítica,
dificultando o preenchimento de vagas em janelas produtivas essenciais”, frisa
Vieira. Em todos os setores, conforme relatos das entidades, os prazos para
preenchimento de vagas são variados e, em alguns casos, como no agro, elas
sequer são totalmente preenchidas no tempo necessário.
“Isso gera riscos operacionais, pressão sobre as
equipes já contratadas e a possibilidade real de perdas produtivas, sobretudo
em cadeias que dependem de janelas precisas de colheita para exportação”, disse
José Vieira.
Qualificação é o principal gargalo no
mercado
Rodrigo Vasconcelos, proprietário da A Graciosa
Flores, em Natal, pontua que a falta de qualificação é o principal empecilho
para efetivação de uma vaga na loja. Segundo ele, a maior dificuldade está em
contratar vendedores. “As pessoas não são capacitadas e acabam não conseguindo
a vaga. Isso ocorre em várias empresas do comércio, de um modo geral”, fala
Vasconcelos, que também é presidente da Associação Viva o Centro, na Cidade
Alta. “Outro problema são os auxílios pagos pelo Governo. Muita gente acaba
optando por eles em vez de um trabalho formal”, completa.
No agronegócio, a escassez é resultado de fatores
como o êxodo rural, o envelhecimento da população no campo e a menor
atratividade do trabalho rural para os jovens. “Soma-se a isso a penosidade
física de algumas funções e a crescente exigência por qualificação técnica para
operar novas tecnologias”, aponta José Vieira, presidente da Faern.
Michel Cosme, da Frutan, empresa de frutas com
cultivo no Distrito Irrigado do Baixo-Açu (DIBA), em Alto do Rodrigues, conta
que a necessidade de mão de obra para sua produção é de 30 funcionários, mas
atualmente ele dispõe de apenas 22 trabalhadores.
“Falta tratorista e gente para colher as frutas. O
jovem não quer mais trabalhar no meio rural e também tem os auxílios do
Governo. Mesmo a gente pagando um salário de R$ 2,2 mil, com direito a
alimentação, tem essa dificuldade de conseguir pessoal. Isso aumentou bastante
em 2024 e piorou muito no ano passado. A ausência desses trabalhadores limita
nosso crescimento, porque a gente quer ampliar a produção, mas não tem mão de
obra”, afirma Michel, que possui uma área de 100 hectares dedicada à
fruticultura no DIBA.
O subsecretário do Trabalho, Emprego, Renda e
Economia Solidária do RN, George Ramalho, avalia que há algumas dificuldades
por parte das empresas em contratar, mas, ao contrário das entidades ouvidas
pela reportagem, ele acredita que o preenchimento das vagas ofertadas pelo
Sistema Nacional de Emprego (Sine) ocorrem dentro de um prazo razoável.
No RN, o Sine é administrado pela Secretaria de
Estado do Trabalho, pasta da qual Ramalho é subsecretário. Para ele, é
importante que as pessoas busquem qualificação, a fim de melhor atender às
exigências das empresas e, assim, acelerar o tempo de efetivação das vagas.
“Diante desse cenário, um dos principais objetivos
do Governo do Estado, por meio da Sethas/Setrab é fortalecer a política de
qualificação profissional, atuando junto ao sistema S para oferecer cursos e
ações que preparem melhor os trabalhadores e ampliem suas chances de inserção
no mercado de trabalho”, afirma George Ramalho.
Entidades oferecem formação profissional
A falta de qualificação é a principal razão pela
qual o motorista de transporte por aplicativo Edson Hugo, de 55 anos, se mantém
fora do mercado de trabalho formal desde que foi demitido de uma empresa
terceirizada que prestava serviços à Petrobras no RN, há dois anos. Além disso,
fatores como os ganhos que ele consegue alcançar como motorista contam para a
permanência dele fora do mercado formal.
“Eu era marinheiro auxiliar de convés. É uma função
que aprendi na empresa e que não existe fora dela. Com a saída da Petrobras, a
terceirizada perdeu o contrato e eu fui demitido algum tempo depois. Por não
ter nenhuma formação, minha opção foi trabalhar com o carro”, narrou. Ele diz
que até pensa em buscar um emprego com carteira assinada, mas revela que os
ganhos que consegue nos aplicativos de corrida têm ajudado a protelar esses
planos. “É mais vantajoso. Inclusive, estou pensando em comprar um carro
elétrico, porque os benefícios são ainda maiores”, relata Edson Hugo.
Para Roberto Serquiz, da Fiern, é preciso apostar,
sobretudo, na oferta de qualificação para sanar o problema da escassez de mão
de obra. “O Sistema Indústria tem feito sua parte. O Senai vem ampliando e ajustando
sua oferta de cursos técnicos e de qualificação às demandas reais da indústria
de transformação, com resultados concretos na elevação do nível técnico da mão
de obra. Da mesma forma, o projeto de Meritocracia Sindical – implantado na
atual gestão da Fiern – fortalece a cultura de desempenho, capacitação e
valorização profissional, preparando melhor os trabalhadores”, explicou.
Já a Fecomércio defende medidas ancoradas na
qualificação profissional com foco em empregabilidade, conexão estratégica entre
candidatos e empresas e desenvolvimento contínuo de competências alinhadas às
demandas do mercado. “Todos os cursos do Senac desenvolvem habilidades
específicas das profissões e soft skills essenciais como comunicação, trabalho
em equipe, resolução de problemas e adaptabilidade”, frisou Marcelo Queiroz,
presidente da Federação.
A Faern, por sua vez, entende que a escassez de mão
de obra exige uma abordagem ampla para modernizar o agro, com base em pilares
como inovação e mecanização de tecnologias; valorização e qualificação do
trabalho rural; e melhoria das condições de vida no campo. “É preciso
fortalecer a infraestrutura rural, garantindo que viver e trabalhar seja uma
escolha viável e atrativa para as novas gerações”, disse o presidente José
Vieira.