Registros públicos da execução de um dos principais
contratos de fornecimento de insulina para o SUS indicam que há atraso na
entrega ao Ministério da Saúde, com uma pendência de mais de 1,57 milhão de
doses, restando apenas um mês para o encerramento do acordo. Esse volume de
doses representa cerca de 20% do total de doses acertado quando o contrato foi
assinado, em junho do ano passado.
Diante do atraso, o Ministério da Saúde optou por
notificar a Biomm, que precisou prestar esclarecimentos. Em nota, a pasta
assegurou à coluna que não há falta de insulina no SUS. Já a farmacêutica
explicou que o atraso deve-se aos conflitos na região do Golfo e às restrições
internacionais no fornecimento do produto em escala mundial (confira a íntegra
das notas ao fim desta reportagem).
O acerto foi feito entre o Ministério da Saúde e a
Fundação Ezequiel Dias (Funed), laboratório público controlado pelo Estado de
Minas Gerais. A produção da insulina, porém, não é feita diretamente pela
Funed, mas, sim, pela farmacêutica Biomm, em parceria com o laboratório indiano
Wockhardt. As três partes formaram uma Parceria para Desenvolvimento Produtivo
(PDP), aprovada pelo Ministério da Saúde em 2017, para transferência de
tecnologia.
Em meio ao contrato, houve uma alteração
significativa na estrutura societária da Biomm. Até abril deste ano, a
farmacêutica tinha como principal sócio um fundo de investimentos controlado
pelo Banco Master, de Daniel Vorcaro. Em meio ao escândalo envolvendo o Master,
esse fundo, o Cartago FIA, foi liquidado. Com isso, as ações – que
representavam quase 26% do capital social da Biomm – passaram para o controle
do Banco de Brasília (BRB). O banco estatal, porém, vendeu essas ações, logo na
sequência, para a gestora Alaska Asset Management.
Houve, também, um revés importante do parceiro
indiano. A Wockhardt apresentou à Anvisa, um mês após a assinatura do contrato,
um pedido de alteração no processo de fabricação da insulina. Não há detalhes
sobre o teor do pedido, mas trata-se de requisição sensível, que demandava
análise mais aprofundada da agência. A Anvisa fez uma série de exigências em
novembro, mas, após meses de análise, decidiu em abril pelo indeferimento da
modificação no processo de fabricação.
A empresa indiana também lida com questões tributárias
no Brasil. A empresa representante dos indianos no país, a Gerais Comércio e
Importação de Materiais e Equipamentos Médicos Ltda, consta como devedora de R$
822 mil ao estado de Pernambuco, com débito inscrito em dívida ativa.
Conforme dados do governo federal, a Funed
apresentou notas fiscais no valor total de R$ 114 milhões, referente às
entregas de insulina. Ou seja, após entregar as doses, o laboratório contratado
pelo Ministério da Saúde apresentou as faturas para pagamento. A última, NF 6146,
foi apresentada em 27 de abril, referente a 118.780 doses. Essas faturas são
emitidas para o governo sempre que lotes de insulina são entregues.
O valor total contratado, porém, foi de R$ 142,1
milhões, para fornecimento de pouco mais de 8 milhões de doses. Considerando os
valores unitários das doses contratadas, o montante pendente de apresentação de
notas fiscais nesta reta final de contrato – portanto, pendentes de entrega –
equivalem a 1.570.323 doses, ou 19,6% do total contratado pelo Ministério da Saúde
para abastecer o SUS.
Quando o contrato foi assinado, a previsão era que a
insulina fornecida pela Funed a partir dessa parceria atendesse a 50% da
demanda nacional pela substância. O fornecimento de insulina para o SUS vem
sendo um tópico delicado no governo, a ponto de a pasta vir assinando contratos
emergenciais em sequência, com laboratórios chineses que fornecem insulina sem
registro na Anvisa, como forma de impedir uma crise de desabastecimento na rede
pública.
A PDP assinada ainda em 2017 com Funed, Biomm e a
indiana Wockhardt foi alvo de questionamentos e só gerou seu primeiro contrato
no ano passado. As insulinas fornecidas por esse contrato são as do tipo humana
regular e NPH. São as mesmas previstas em novos contratos emergenciais firmados
no último dia 12 pelo Ministério da Saúde com fornecedores da China.
Biomm confirma atraso na entrega de
insulina
Em nota, a Biomm afirmou que os contratos de
fornecimento de insulina estão substancialmente atendidos e explicou que
notificações fazem parte do processo regular de monitoramento de todas as PDPs.
“Confirmamos que recentemente houve alterações no
cronograma de entrega, sem qualquer impacto no nosso contrato. As alterações
foram decorrentes da cadeia logística global, associadas aos conflitos na região
do Golfo e às restrições internacionais no fornecimento do produto em escala
mundial”, detalhou a farmacêutica. “Nesse momento, restam para entrega apenas
3% do volume contratado (445.168 carpules). Os produtos estão prontos e
aguardam apenas os trâmites de faturamento e liberações por parte da Anvisa.”
Já o Ministério da Saúde explicou que não há atraso
na distribuição de insulina ao SUS. “O Ministério da Saúde mantém envios
regulares aos estados para a oferta à população. Para suprir a necessidade do
país diante de cenário de crise global e restrição do mercado nacional, foram
feitas contratações diversificadas e promovidas parcerias de transferência de
tecnologia para fortalecer a indústria local.”
A pasta destacou ainda que, com a retomada dessa política,
o Brasil voltou a produzir insulina após mais de 20 anos.
“O Ministério da Saúde acompanha, de forma rigorosa,
a execução dos contratos, com a notificação das empresas em caso de
descumprimento do cronograma. No caso da Funed, foram executadas 85,7% das
entregas.”
Com informações de Tácio Lorran, do Metrópoles.