A presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE),
Bianca Borges, admite que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
está desconectado da juventude. Ela afirma que havia um “consenso” na esquerda
de que bastava Lula fazer um governo de entregas para que a população
respondesse positivamente. Mas, na sua avaliação, as coisas mudaram.
“As pesquisas recentes indicam que não é bem assim.
Acho que falta a gente se conectar com o sentimento das pessoas, né? Esse
talvez seja o grande desafio do presidente Lula", afirmou Bianca à Coluna
do Estadão.
“O que o brasileiro quer hoje? Não dá só para
ampliar o Sistema Único de Saúde (SUS), inaugurar mais universidades – e a
gente sabe a importância disso tudo –, mas não é isso que está deixando a
população satisfeita“, destaca a presidente da UNE, citando uma pesquisa
qualitativa feita pela Genial/Quaest na qual eleitores se mostraram frustrados,
entre outras coisas, com o fato de não conseguirem trocar de celular.
Bianca Borges tem 26 anos, é formada em Direito pela
USP e atualmente estuda Letras no Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia de São Paulo (IFSP). Para ela, a eleição de outubro terá importante
influência da juventude. “Essa eleição vai ser fortemente influenciada por
fatores geracionais”, afirmou.
Na sua avaliação, o fato de jovens serem
desconectados do período da ditadura militar pode ser atribuído a falhas no
sistema educacional do País, o que beneficiaria o discurso conservador.
“Os jovens hoje são muito desconectados da própria
história do nosso País e, como desconhecem a história, não valorizam esse olhar
para o político, social e econômico dos governos progressistas”, argumentou.
Lula x Nikolas Ferreira
Ao comentar o alcance e contundência do discurso nas
redes sociais, Bianca cita o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) como um
contraponto ao próprio Lula, que não tem celular.
‘De um lado, o Lula que não tem nem celular; do
outro, o Nikolas Ferreira, que caminhou mil km outro dia só para ir gravando
stories e fazer cortes para as redes sociais. Então, com certeza, isso é parte
do nosso desafio“.
Juventude está mais conservadora
Como mostrou a Coluna, pesquisas recentes de
intenção de voto acenderam alertas no governo Lula e jogaram luz em um problema
que o PT conhecia, mas talvez não estivesse ciente da real dimensão: a
dificuldade de Lula de falar com o eleitor mais jovem.
O levantamento Atlas/Bloomberg mostrou que quase 73%
dos jovens da geração Z, entre 16 e 24 anos, desaprovam o presidente Lula.
Apenas um mês antes, em pesquisa do mesmo instituto, o número era de 58,6%, uma
escalada de desaprovação pessoal de 14 pontos porcentuais.
Uma pesquisa Atlas/Intel do fim do ano passado
também trouxe dados que revelaram como a geração Z está mais conservadora. No
levantamento, 52% desses jovens se consideravam de direita ou centro-direita, e
apenas 31% dos entrevistados disseram ser de esquerda ou centro-esquerda.
Jovens hiperconectados e frustrados
Para Bianca, os jovens da sua geração são
hiperconectados, mas não têm ferramentas para filtrar as informações que
recebem. Segundo ela, isso favorece o discurso da direita e da extrema-direita.
“A juventude é amplamente conectada, mas pouco
preparada para lidar com informações e, ao mesmo tempo, tem uma certa
frustração com as condições de vida”, observou a presidente da UNE. E concluiu:
“O país está longe de ser o mais igualitário do mundo, mas o outro lado não
oferece saída para essas questões que nós enfrentamos.”
Coluna do Estadão