Com o aumento do imposto de importação sobre mais de
1.200 produtos, incluindo equipamentos tecnológicos e eletrônicos, startups,
indústrias e empresas do comércio no Rio Grande do Norte já avaliam os impactos
da medida nos custos, nos investimentos e na competitividade. Para a Federação
das Indústrias do RN, o aumento pode dar fôlego à indústria nacional no curto
prazo, mas deve ser acompanhada de outras ações, sob o risco de gerar perda de
eficiência no médio prazo.
“Estamos diante de uma medida de proteção à
indústria nacional. No curto prazo, ela pode dar fôlego a setores que vinham
perdendo espaço para importados, preservando empregos e fortalecendo a produção
interna”, disse o presidente da Fiern, Roberto Serquiz, acrescentando que é
preciso olhar a cadeia como um todo, uma vez que parte da indústria depende de
insumos e equipamentos importados. “Se esses itens ficam mais caros, o custo de
produção sobe — e isso pode chegar ao consumidor”, alerta.
Ainda de acordo com o representante do setor
industrial, o ponto central da medida não é apenas proteger, mas como proteger
a indústria local.
“Se for uma medida temporária, acompanhada de
inovação, produtividade e modernização industrial, pode fortalecer o setor.
Se for apenas uma barreira tarifária isolada, o
risco é gerar acomodação e perda de eficiência no médio prazo. Ou seja, a
medida pode ajudar no curto prazo, mas seus efeitos estruturais dependerão da
estratégia que a acompanha”, pondera Serquiz.
O aumento das alíquotas do imposto de importação foi
anunciado pelo Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior
(Gecex/Camex) e engloba uma lista ampla de bens de capital que inclui máquinas,
ferramentas e equipamentos, além de bens de informática e telecomunicação. Ao
todo, são englobados mais de 1.200 produtos eletrônicos, incluindo smartphones,
freezers e painéis com LED. A elevação do imposto para os produtos incluídos na
medida pode chegar a até 7,2 pontos percentuais.
Para o economista Ricardo Valério, superintendente
do Conselho Regional de Economia (Corecon/RN), o principal impacto da alta na
taxação será o possível adiamento da modernização do parque industrial no país,
já que a medida encarece a importação de máquinas e equipamentos essenciais
para atualização tecnológica. “Os riscos de desabastecimento são poucos e,
igualmente, não deverá ocorrer redução de oferta de forma substancial”, disse.
Segundo ele, o próprio Ministério da Fazenda aponta
uma perda de 33,4% de participação no mercado interno nos últimos anos, o que
teria motivado a adoção da medida. Ele destaca, no entanto, que a ampliação da
presença brasileira em mercados como o asiático e o indiano, além do acordo
entre Mercosul e União Europeia, tendem a pressionar a indústria a buscar mais
competitividade.
“Esse cenário vai forçar o setor produtivo a se
modernizar para não ficar para trás nos avanços tecnológicos e na disputa no
mercado global”, afirma Ricardo Valério. O economista também projeta preços
mais altos para os eletrônicos.
“As maiores perdas ficam, evidentemente, para o
consumidor final, que ficará com os produtos importados entrando com preços
mais competitivos, oriundo, notadamente, dos Estados Unidos, da China e de
Singapura”, explica.
Para Hugo Fonseca, secretário-adjunto da Secretaria
de Estado do Desenvolvimento Econômico do RN (Sedec), o cenário ainda exige
cautela. “Ainda estamos analisando os possíveis impactos em nossas cadeias de
suprimentos”, afirma.
Combustíveis, trigo e energia lideram
importação
Dados da balança comercial de 2025 fornecidos à
reportagem pelo Observatório da Indústria Mais RN mostram que a pauta de
importações do RN é fortemente concentrada em combustíveis, insumos alimentares
e equipamentos ligados à matriz energética. O principal produto importado foi
“outras gasolinas, exceto para aviação”, que somou US$ 56,9 milhões, o
equivalente a 13,05% do total adquirido pelo estado no exterior. A principal
origem foi os Estados Unidos, responsáveis por 55% desse volume.
Logo em seguida aparece o trigo e misturas de trigo
com centeio, que também movimentaram US$ 56,9 milhões (13,04% do total
importado), tendo como principal fornecedor a Argentina, com 66,38% de
participação.
Equipamentos ligados à transição energética também
ganham destaque. As células fotovoltaicas montadas em módulos ou painéis
somaram US$ 33,3 milhões (7,63% das importações), sendo 96,22% provenientes da
China. Outros conversores elétricos estáticos, igualmente ligados ao setor de
energia, representaram mais US$ 18,3 milhões, também com predominância chinesa.
O gasóleo (óleo diesel) movimentou US$ 23,5 milhões, com 61% das compras vindas
da Rússia.
Tarifas exigem adaptação rápida no RN
Rodrigo Romão, diretor do Metrópole Parque, pondera
que as tarifas de importação exigem adaptação rápida para o setor de tecnologia
no RN. “A prioridade passa a ser planejamento de compras, revisão de CAPEX de
infraestrutura e busca ativa por alternativas de fornecimento e enquadramentos
legais já existentes”, disse.
Ainda segundo Romão, no estado, a medida pode
impulsionar duas frentes estratégicas: a ampliação da eficiência nos projetos,
com mais engenharia de custos e padronização, e o fortalecimento de
fornecedores e integradores locais, desde que a oferta interna atenda aos
requisitos técnicos e aos prazos estabelecidos. Para ele, “o essencial é
garantir previsibilidade para que a inovação continue avançando”.
No RN, há startups e empresas com forte atuação em
soluções que dependem de equipamentos e conectividade. Para esses negócios, a
mudança pode elevar os custos de protótipos, projetos-piloto e contratos,
conforme o diretor.
Por outro lado, também pode abrir espaço para a
integração local, serviços de manutenção, recondicionamento e eficiência
operacional, desde que a cadeia nacional consiga responder com qualidade,
escala e cumprimento de prazos.
Rodrigo Romão avalia que para não perder
competitividade no setor digital o ponto-chave é a previsibilidade. “Em um
setor que evolui rápido, mudanças de custo e prazo influenciam decisões de
investimento. Por isso, é fundamental estimular o monitoramento de indicadores
e diálogo com o ecossistema para ajustar rotas e preservar a dinâmica de
inovação e produtividade”, destaca.