À medida que tudo fica mais claro a respeito do
resort Tayayá, no interior do Paraná, tudo deveria ficar mais complicado para o
ministro Dias Toffoli.
Os repórteres Valentina Moreira e Samuel Pancher, do
Metrópoles, estiveram na casa de um dos irmãos do ministro que teria sido sócio
do resort, José Eugênio Dias Toffoli.
A casa está registrada como sede da Maridt
Participações, que até março do ano passado detinha 17% das cotas do resort,
vendidas por R$ 3,5 milhões a um advogado da J&F. Antes, a Maridt tinha
como sócio no Tayayá um cunhado de Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Localizada em um bairro de classe média baixa de
Marília, no interior de São Paulo, é o endereço típico de uma empresa de
fachada brasileira: uma casa simples e maltratada, que não poderia ser nem
mesmo sede de oficina de conserto de bicicletas.
O grau de degradação chama a atenção: a casa tem
rachaduras nas paredes e no piso externos e não vê pintura há bom tempo.
Parece que dentro está muito pior, como disse a
mulher de José Eugênio, a senhora Cássia Pires Toffoli, a outro repórter que lá
esteve, Pedro Augusto Figueiredo. Ele teve a felicidade de encontrá-la antes
que os moradores da casa evaporassem.
O vídeo da conversa entre a cunhada do ministro Dias
Toffoli e o repórter, ao portão da casa, é de uma trivialidade humana que dá a
medida da nossa tragédia nacional.
Perguntada sobre se a casa era a sede da Maridt
Participações, tal como registrado na Junta Comercial, e se o marido havia sido
sócio do resort Tayayá, Cássia demonstrou espanto e indignação genuínos.
“Essa casa é minha, financiei com o meu dinheiro por
25 anos. Eu falei para as minhas irmãs que eu tenho vontade de sumir daqui. As
pessoas ficam inventando coisas, que (José Eugênio) é dono do Tayayá”, disse a
cunhada do ministro Dias Toffoli.
Mas o marido era sócio ou não do Tayayá?, insistiu o
repórter.
“Como sócio, moço? Moço, dá uma olhada na minha
casa… Você está vendo a situação da minha casa? Eu não tenho nem dinheiro para
arrumar as coisas da minha casa! Se você entrar dentro, vai ficar assustado. O
que está lá (na Junta Comercial), eu não sei. Eu sei que moro aqui há 24 anos e
não sei de nada que é sede (da Maridt) aqui. Aqui é onde eu moro.”
O irmão de Dias Toffoli já havia ao menos comentado
algo sobre o resort Tayayá?
“Eu não sei e não quero saber”, impacientou-se a
cunhada do ministro.
Durante o diálogo, ficamos sabendo que Cássia cuidou
do pai com Alzheimer até ele morrer e que agora ela abriga em casa o irmão que
tem Down.
De tudo o que veio à tona até agora, impõem-se duas
questões intrigantes com respostas não necessariamente excludentes.
A primeira delas é se o irmão de Dias Toffoli
levaria uma vida dupla: como sujeito de sorte que se tornou sócio de um grande
empreendimento turístico (tem uma casa em seu nome no resort, de acordo com a
Folha) e, ao mesmo tempo, como engenheiro eletricista que dá um duro desgraçado
e é humilde a ponto de não conseguir fazer uma reforma na casa comprada a muito
custo.
A segunda questão é se José Eugênio Toffoli apenas
emprestou o seu nome e o seu endereço em Marília para encobrir o verdadeiro
proprietário do resort Tayayá, sem o conhecimento da mulher (ou quem sabe até à
sua própria revelia, que se dê a ele o benefício da dúvida). Nesse caso, José
Eugênio seria um laranja dos mais banais.
Há outro irmão, o padre José Carlos Dias Toffoli, e
um primo do ministro, Mario Umberto Degani, que constam como sócios do Tayayá.
Seriam laranjas também?
De qualquer forma, fiquei com pena de Cássia, a
cunhada de Dias Toffoli que foi até o portão da sua casa caindo aos pedaços
para conversar com o repórter Pedro Augusto Figueiredo.
Ela me fez concluir que, no Brasil, subvertemos a
célebre frase de abertura do romance Anna Kariênina, do russo Tolstói, segundo
a qual todas as famílias felizes se parecem, ao passo que cada família infeliz
é infeliz à sua maneira. Aqui, as infelicidades familiares são bastante
semelhantes umas às outras.
Mario
Sabino – Metrópoles