O Banco Master concedia empréstimos para algumas
empresas que não pagavam as parcelas, gerando assim uma receita somente no
papel, aponta investigação do Ministério Público Federal (MPF). O valor dessas
operações de crédito era repassado, em poucos minutos, quase que integralmente,
a fundos administrados pela gestora de recursos Reag, que simulavam uma
rentabilidade irreal. Ao final, o dinheiro voltava para a própria instituição
financeira em aplicações. Esse fluxo financeiro entrou na mira da Polícia
Federal, que deflagrou uma operação para apurar suspeitas de gestão
fraudulenta, manipulação de mercado e lavagem de capitais.
De acordo com documentos da investigação, os prazos
de carência para o pagamento das parcelas eram prorrogados às vésperas das
datas previstas para o início da quitação. Na prática, segundo o inquérito,
“não houve efetivo pagamento de juros nem amortizações”.
Para mapear o caminho do dinheiro, a área de
supervisão do Banco Central (BC) pediu ao Master, em julho de 2024, a
comprovação de que um dos fundos que receberam os recursos dos empréstimos
tomados por empresas teria saldo suficiente em caso de necessidade de resgate.
Os técnicos da entidade monetária solicitaram também
a apresentação dos controles implementados para monitoramento da evolução dos
projetos que deveriam ser bancados com os empréstimos e o acompanhamento dos
valores já liberados para cada cliente.
Em resposta ao BC, o Master disse que esses
questionamentos deveriam ser dirigidos à Reag, administradora dos fundos. Esse
posicionamento chamou a atenção de técnicos da entidade monetária, porque
deixou clara a “falta de adequado acompanhamento das operações estruturadas”.
Já a Reag disse ao BC que os ativos dos fundos que
receberam recursos oriundos do Master eram, em sua quase totalidade, compostos
por papéis do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), considerados de
baixo valor pelo mercado. Nessa mesma correspondência, a gestora afirmou
garantir liquidez de até R$ 1 bilhão por mês para pagamento de resgates, caso
necessário, utilizando-se de outro fundo, o Gold Style.
Porém, além dos problemas nos papéis do Besc, o BC
identificou que não havia ativos líquidos na carteira do fundo Gold Style
capazes de suportar os resgates. Para a entidade monetária, essas constatações
evidenciam “o não atendimento de preceitos para o gerenciamento do risco de
crédito das operações estruturadas”, com descumprimento da lei.
Procurada, a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que as
afirmações "não correspondem aos fatos". "O Banco Master era
submetido a auditorias independentes, supervisão permanente e a rotinas de
fiscalização contínua. A defesa segue colaborando integralmente com as
autoridades competentes e confia que o avanço das apurações afastará premissas
que não possuem sustentação técnica ou documental", diz a nota. A Reag não
respondeu.
Rentabilidade extraordinária
Documento do Banco Central enviado ao MPF reforça
que as operações entre Master e Reag envolviam uma “reavaliação indevida de
ativos, que permitiu aos fundos de investimento auferir rentabilidade
extraordinária”.
O caso mais ilustrativo é o empréstimo de R$ 459
milhões concedido pela instituição financeira de Vorcaro para a Brain Realty
Consultoria e Participações Imobiliárias, dirigida por uma ex-funcionária da
Reag. Conforme O GLOBO revelou na semana passada, tão logo esses recursos foram
recebidos pela empresa, o dinheiro foi repassado para o Fundo Brain Cash,
criado pela Reag 20 dias antes, com um patrimônio de R$ 15 mil.
A aplicação de R$ 450 milhões no fundo Brain Cash
foi relâmpago. Uma hora e meia depois de receber esses recursos, o dinheiro foi
repassado para o Fundo D Mais, também ligado à Reag e que tinha em sua carteira
de investimentos papéis do Besc. Três minutos depois, o Fundo D Mais transferiu
R$ 450 milhões ao FIDC High Tower para liquidar parte de uma aquisição de
papéis do Besc.
Esse fundo, segundo a investigação, reavaliou esses
ativos de baixa liquidez para R$ 10,8 bilhões, registrando uma rentabilidade de
10.502.205% em 2024. No mesmo ano, para efeito de comparação, a maior
criptomoeda do mundo rendeu em torno de 120% de retorno em dólar, enquanto o
ouro valorizou 61,6% em reais no mesmo período.
A PF também suspeita que, após circularem por
estruturas administradas pela Reag, os recursos tenham retornado ao próprio
Master por meio da aquisição de Certificados de Depósito Bancário (CDBs),
principal forma de captação do banco no mercado.
Diante dessas suspeitas, investigadores deflagraram
uma operação nesta quarta-feira para realizar buscas e apreensões de documentos
em endereços ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, e a João
Carlos Mansur, fundador da Reag.
A gestora de recursos também entrou na mira da
Operação Carbono Oculto, realizada em setembro do ano passado pela Polícia
Federal e pelo Ministério Público para apurar um esquema de lavagem de dinheiro
envolvendo integrantes da facção Primeiro Comando da Capital (PCC).
Ao menos três fundos administrados pela Reag que
fizeram negócios com o Master também constam da lista de investigados na
Operação Carbono Oculto. Dentre eles, estão o Hans 95, Reag Growth e Anna FIC,
que também realizavam repasses relâmpagos.
A gestora de recursos nega qualquer irregularidade e
tem enfatizado que a associação “não consta de nenhum documento oficial, de
nenhuma denúncia, relatório de análise ou manifestação das autoridades
competentes”.
O Globo