O atual cenário internacional, marcado por tensões
geopolíticas, tem acendido alertas entre economistas sobre os rumos da economia
global. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, publicada nesta segunda-feira
(27), o economista e ex-presidente do Banco Central, Arminio Fraga, afirmou que
o mundo atravessa uma ruptura estrutural na ordem internacional e alertou para
riscos econômicos relevantes, como o aumento do endividamento global e a
possibilidade de estagflação.
Segundo o economista, o cenário atual é marcado pela
fragilização de instituições multilaterais e pelo fortalecimento do papel dos
Estados nacionais, em um ambiente de maior disputa geopolítica. “É um mundo
onde a ordem global acabou. Não adianta tentar pintar um quadro mais róseo.
Acabou mesmo”, afirmou. Como fatores que influenciam nesse cenário de
instabilidade global, o economista cita o enfraquecimento de organismos como o
Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC) e
o Banco Mundial, além de conflitos em curso, como a guerra na Ucrânia e tensões
no Oriente Médio.
"Com esse cenário que vivemos, incomoda, a
médio prazo, o endividamento global das nações. Está todo mundo muito
endividado. Isso pode criar certas tensões econômicas. No momento, há o choque
de oferta que tem origem claríssima no que acontece no Oriente Médio. Nos
indicadores de mercado e implícito nos preços dos ativos ainda existe certo
otimismo de que aquilo vai acabar bem, mas não há quem possa garantir. É um
choque de oferta muito grande. Então, já está criando essa situação de
estagflação", considerou Fraga.
Fraga também destacou o peso das transformações
econômicas e tecnológicas em curso, incluindo os impactos da inteligência
artificial e as dificuldades de coordenação global em temas como mudanças
climáticas. Para ele, a ausência de uma resposta coordenada compromete
iniciativas como o mercado global de carbono. “Sem coordenação, o bem público
fica mal atendido”, afirmou, ao comentar os desafios para enfrentar a crise
climática em um cenário de menor cooperação entre países.
Ao analisar o Brasil, Fraga reconheceu resultados
positivos recentes, como o crescimento econômico e o nível de emprego, mas fez
ressalvas sobre a situação fiscal. “Acho preocupante um país que está com 80%
do PIB de dívida pagando na média perto de 8% acima da inflação, uma economia
que já mostra sinais de estresse. Embora tenham sido três anos de bom
crescimento e desemprego baixo, e tudo isso é ótimo, mas ainda com taxa de
investimento relativamente baixa e muita fragilidade fiscal, e, de certa forma,
em decorrência dessas taxas de juro. Todo dia vemos notícias que as famílias
estão endividadas e carregando dívidas pesadas”, afirmou.
Ele avaliou que, apesar de iniciativas do Ministério
da Fazenda, ainda faltam medidas mais estruturais. “O Banco Central precisa de
ajuda fiscal, mas imensamente. Não é coisa pequena. Há muitas áreas onde vai
ser possível, se houver vontade política, dar uma guinada, mas isso hoje
ninguém fala. Mesmo alguns economistas mais ortodoxos dizem que o Ministério da
Fazenda está trabalhando bem e fez muita coisa boa. É fato e merece crédito.
Mas o mais importante, na parte fiscal, não fez”, declarou.
Apesar do cenário desafiador, Fraga apontou
oportunidades para o Brasil em áreas como energia renovável e economia verde,
mas esse avanço depende de maior coordenação internacional. “O Brasil tem
energia eólica, é um gigante em hidro. Espero que os rios não sequem. É uma
potência solar, em biomassa. Tem tudo. O Brasil está muito bem nessa área, e
isso é bom para o Brasil e para o mundo. Mas não significa que um choque de
petróleo não vá nos afetar", considerou. Arminio é um dos principais
investidores e conselheiros da re.green, empresa brasileira de restauração
ecológica que pretende recuperar 1 milhão de hectares na Amazônia e na Mata
Atlântica.
Ao comentar perspectivas futuras, o economista evitou
previsões mais concretas, mas reforçou o ambiente de incerteza. “Essa situação
macroeconômica não vai acabar bem. O que vai acontecer? Difícil prever”, disse.
Para ele, o momento atual reflete uma transição global marcada por
"turbulências", com impactos ainda indefinidos para a economia
mundial e para o Brasil.