Neste exato momento, a saúde da democracia
brasileira está submetida a um exame decisivo. A qualquer hora, a
Procuradoria-Geral da República (PGR) opinará sobre uma notícia-crime
apresentada pelo ministro Gilmar Mendes ao colega Alexandre de Moraes contra
Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais. A depender do parecer do
procurador-geral Paulo Gonet, saberemos se o aparato persecutório do Estado
ainda faz uma distinção nítida entre discursos políticos – legítimos, mesmo que
mordazes ou satíricos – e condutas penalmente reprováveis.
A eventual inclusão de Zema entre os investigados no
inquérito das fake news, como quer o decano do Supremo Tribunal Federal (STF),
será mais do que outro desdobramento da eterna investigação relatada por
Moraes. Será um novo marco definidor da liberdade de expressão no Brasil. Até
que ponto a PGR e a mais alta corte do País estão dispostas a proteger a
liberdade de expressão como pilar do Estado Democrático de Direito? Se Zema
passar à condição kafkiana de investigado sem ter cometido crime algum, restará
evidente que tanto a PGR como o STF estão dispostos a sacrificar o mais cívico
dos direitos individuais sob o altar dos interesses particulares de Suas
Excelências.
Zema, como se sabe, publicou vídeos satíricos em
suas mídias sociais nos quais bonecos de animação caricaturam os ministros
Gilmar Mendes e Dias Toffoli, valendo-se não só de fatos públicos e notórios,
como também de decisões judiciais efetivamente tomadas por ambos. Ou seja, Zema
não inventou fatos. Ridicularizou-os. E desde tempos imemoriais a sátira é uma
das formas mais usuais de criticar os poderosos. Ademais, sátira, por
definição, exagera, expõe, distorce. Submetê-la ao crivo penal, além de inútil
e descabido, diz muito sobre o mau humor dos satirizados, sem falar no pendor
para o autoritarismo.
Ao alegar que o conteúdo “vilipendia” sua honra
pessoal e a imagem do Supremo, Gilmar Mendes reforça a confusão entre a crítica
a indivíduos e o “ataque” à instituição. Nos últimos anos, essa mixórdia tem
servido para blindar alguns ministros do Supremo da devida responsabilização
por sua má conduta. Como quaisquer servidores públicos, Suas Excelências devem
satisfações à sociedade por eventuais malfeitos e conflitos de interesses nos
quais se deixam enredar. Colocar-se acima desse escrutínio é colocar-se acima
das leis. Logo, um comportamento incompatível com a ordem constitucional
democrática em vigor.
Eis aí a missão precípua da PGR: defender a ordem
jurídica, o regime democrático e os interesses individuais e coletivos
indisponíveis. Paulo Gonet está a serviço da sociedade brasileira, não do
Supremo nem muito menos de alguns de seus ministros, razão pela qual não só
deve opinar contra a inclusão de Zema no inquérito das fake news, como pugnar
pelo encerramento da investigação – seja com o arquivamento do feito, seja com
o envio dos autos para as eventuais denúncias a serem oferecidas
pelo parquet.
Há ainda um problema elementar de competência. Desde
que deixou o cargo de governador para disputar a Presidência da República, Zema
não dispõe de foro especial por prerrogativa de função. Ainda que se admitisse,
em tese, alguma ilicitude nos vídeos que ele publicou, seu julgamento não
caberia ao STF, mas à primeira instância. Ao insistir em atrair o caso de Zema
para o inquérito das fake news, a Corte não disfarça mais que esse famigerado
inquérito se tornou um instrumento de perseguição judicial a seus críticos.
O resultado é a erosão sistemática da credibilidade
institucional do Supremo, um mal de consequências imprevisíveis, sobretudo
eleitorais, que se espraia a olhos vistos. Já dissemos nesta página que a
democracia não pode prescindir de um árbitro visto como imparcial por todos os
cidadãos para dirimir a miríade de disputas sociais em jogo numa sociedade plural
e dinâmica. Mas, quando o STF age para proteger seus membros em vez de proteger
a Constituição, vai no sentido diametralmente oposto, tisnando a confiança que
alicerça sua autoridade.
Gonet tem uma excelente oportunidade de defender a
sociedade contra os arroubos autoritários do STF. Ao examinar o caso, a PGR
deve rejeitar a inclusão de Zema no inquérito das fake news, pois não há crime
a apurar, e sim um discurso político a ser resguardado.
Opinião do Estadão