O decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar
Mendes, cobrou do presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB),
Beto Simonetti, pelas críticas que a entidade vem fazendo à atuação da Corte.
Na conversa, ocorrida em uma audiência no Supremo no final do mês passado,
Gilmar pressionou Simonetti a sair em defesa da Corte.
“Não podemos fragilizar o STF”, argumentou Gilmar,
repetindo em privado uma queixa que já fizera em público a respeito da OAB em
entrevista ao Jornal da Globo, dois dias antes da audiência, em 22 de abril.
“A OAB de São Paulo tem criticado muito o Supremo
Tribunal Federal. Mas a gente também pode fazer uma pergunta: o que a OAB tem
feito contra as fraudes perpetradas por advogados?”, indagou o decano do STF à
jornalista Renata Lo Prete.
Foi para dar uma resposta ao ministro sobre a sua
fala que Simonetti pediu para ser recebido. No encontro, ele entregou a Gilmar
um levantamento sobre as apurações e sanções praticadas pela própria entidade
contra advogados.
Mas, como Gilmar se mostrava inconformado, Simonetti
foi claro: disse que seu maior problema no momento é justamente conter os
ânimos de sua classe, que cobra dele uma atuação ainda mais combativa contra o
STF.
Segundo a equipe da coluna apurou, o presidente da
OAB disse que tem falado bem menos do que a base de advogados tem lhe cobrado
diante da crescente insatisfação do meio jurídico com a perpetuação do
inquérito das fake news, aberto em março de 2019 pelo então presidente do STF,
Dias Toffoli.
O processo foi instaurado para apurar ameaças e
ofensas contra integrantes da Corte e seus familiares – mas, na prática, se
tornou uma espécie de atalho jurídico para o tribunal enquadrar críticos e
opositores.
Na entrevista a Lo Prete, Gilmar disse que o
inquérito “vai acabar quando terminar” e defendeu que ele continue aberto pelo
menos até as eleições, o que teve repercussão ainda pior na base de Simonetti.
O ministro já tinha se mostrado particularmente
contrariado com a postura de Simonetti de entregar em março deste ano ao
presidente do STF, Edson Fachin, um ofício a favor da conclusão do inquérito
das fake news, manifestando “extrema preocupação institucional” com
“investigações de longa duração”.
Daí a citação à OAB nas entrevistas que Gilmar deu,
em resposta ao relatório que o senador Alessandro Vieira apresentou ao final da
CPI do Master propondo o indiciamento de Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e do
próprio Gilmar, e do vídeo satírico divulgado nas redes sociais pelo
ex-governador Romeu Zema (Novo) em que o decano era retratado como fantoche.
Conforme revelou o blog, Gilmar tem pressionado a
Procuradoria-Geral da República (PGR) para incluir Zema no inquérito das fake
news.
Na audiência, Simonetti argumentou que tem evitado
fulanizar o debate e entrar em embates pessoais, e disse que prefere adotar uma
linha institucional de defesa de reformas para o Judiciário, que respondam às
demandas da sociedade e ajudem o STF a sair da crise na qual mergulhou com as
revelações do caso Banco Master.
Os argumentos parecem ter surtido efeito. O que
começou como uma conversa dura acabou em tom conciliatório.
Comissão especial
No mês passado, a OAB criou uma comissão especial
para discutir mudanças no Poder Judiciário, que deverá abordar, entre outros
pontos, a limitação de decisões monocráticas e a criação de regras mais rígidas
para a atuação de parentes de magistrados na advocacia. Gilmar é um dos mais
árduos críticos da proposta de Fachin de implantar um Código de Conduta na
Corte.
Em dezembro do ano passado, o presidente da OAB-SP,
Leonardo Sica, criticou uma polêmica liminar de Gilmar que dificultou a
tramitação de pedidos de impeachment contra ministros do STF. À época, a
decisão do decano foi interpretada como uma forma de blindar a Corte do “risco
impeachment”, num momento em que a bancada anti-STF no Senado Federal deve
aumentar com o resultado das eleições de outubro.
“Não dá para entender porque que veio uma liminar,
não havia urgência, até porque, em termos práticos, está se alterando por uma
liminar o processo de impeachment de ministros. Um processo de impeachment que
nunca aconteceu, não há nenhum processo de impeachment acontecendo, então não
há emergência, não há conveniência e acho, mais uma vez, que se há a discussão,
ótimo que ela seja feita no lugar devido ao Congresso Nacional”, criticou Sica
em entrevista à rádio CBN.
Em um primeiro momento, Gilmar decidiu que apenas a
Procuradoria-Geral da República (PGR) poderia acionar o Senado para cassar
magistrados, esvaziando o poder de parlamentares e de cidadãos comuns de
ingressarem com pedidos dessa natureza. Depois, o ministro recuou desse ponto,
mas manteve o trecho da liminar que aumenta de 41 para 54 votos o número mínimo
necessário para a abertura desse tipo de processo.
Simonetti está em seu segundo mandato à frente da
OAB, que só se encerra em janeiro de 2028. Procurada, a OAB informou que
Simonetti não vai se manifestar.
Malu Gaspar - O Globo