O texto é da coluna de Mario Sabino, do Metrópoles:
No momento em que escrevo este artigo, ninguém sabe
se Flávio Bolsonaro fugiu mesmo do país depois de Alexandre de Moraes ter
ordenado a apreensão dos seus passaportes, o comum e o diplomático.
A PF pediu a apreensão minutos depois de sair o
resultado oficial das urnas, no âmbito do inquérito contra o advogado Willer
Tomaz, suspeito de lavar dinheiro para o filho de Jair. O ministro assinou a
ordem ainda na noite de domingo, sem pedir o aval da PGR.
Como Flávio perdeu a eleição, estava tudo preparado,
portanto, para que Moraes partisse para cima dele com toda a fúria da sua
imparcialidade. Diz-se que o ministro deve usar o inquérito como escudo
anti-impeachment.
É impressionante como há coincidências em Brasília.
No dia 6 de outubro, Moraes fez uma reunião secreta com mandachuvas da Polícia
Federal. Dois dias depois, o inquérito chegou ao STF, e o ministro foi sorteado
para ser o relator.
A PF suspeita de que Flávio é sócio de Willer Tomaz
e usuário master de uma conta de uma empresa do advogado no banco Santander. No
entanto, Willer Tomaz gravou um vídeo no qual mostra um documento do banco que
nega que isso seja verdade.
Ao ter o seus sigilos quebrados, o advogado se disse
vítima de pesca probatória e estranhou que informações do inquérito tenham sido
divulgadas a poucas horas do debate entre Flávio e Lula na Rede Globo.
Willer Tomaz está em Miami; ao pedir a apreensão dos
passaportes de Flávio, a PF justificou a medida dizendo que o filho de Jair
poderia refugiar-se igualmente nos Estados Unidos. Contribuição adicional foi o
fato de Eduardo Bolsonaro ter dito nas redes sociais que o irmão deveria fugir.
Como Flávio ainda é senador da república, ele não
poderia ser preso preventivamente por não ter entregado os passaportes, que
acabaram cancelados há pouco. Prisão de senadores, só em flagrante e por crime
inafiançável, se é que a Constituição brasileira ainda vale mais do que um
tostão furado. Se fugiu, o filho de Jair não quis pagar para ver. Dá para
entender.
Tudo indica que Flávio está enrolado com Willer
Tomaz, não é esse o ponto. A questão é que, se PF e STF se movem em ação
coordenada de forma premeditada, isso torna o senador um perseguido político.
Decisões da Justiça de grandes democracias, como as
de Estados Unidos, Espanha, Reino Unido e Itália, já estão certos de que o
Estado de Direito não existe em sua plenitude no Brasil.
Ontem, Moraes sofreu outro revés na Justiça
italiana. A Corte de Apelação de Catanzaro negou a extradição de Eduardo
Tagliaferro, revogou a proibição de ele sair do país e lhe devolveu o
passaporte e demais documentos.
Na decisão, a corte afirma que o processo contra
Tagliaferro está contaminado pelo fato de Moraes ser juiz e parte ao mesmo
tempo, uma violação aos direitos fundamentais, e destaca que a natureza do
suposto crime atribuído ao desafeto do ministro é política, o que impede a sua
extradição.
Há outra fuga que assombra Moraes, que até agora não
explicou a sua relação promíscua com Daniel Vorcaro. Em 15 de novembro de 2025,
um sábado, o vigarista do Banco Master, que assinou um contrato de R$ 131
milhões com o escritório de advocacia da mulher do ministro, enviou mensagem a
Moraes, perguntando o seguinte: “Acha que na 2ª já tenho que estar fora?”.
Ninguém sabe o que ministro disse, porque a resposta
foi em mensagem de visualização única, mas Vorcaro foi preso no dia 17, uma
segunda-feira, quando efetivamente tentava fugir.