No discurso que fez na recente festa de aniversário
do PT, em Salvador, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva avisou a militância
que a próxima eleição presidencial, na qual tentará seu quarto mandato, será
“uma guerra”. Portanto, considerem-se avisados aqueles que, incautos, ainda
acreditam na farsa do “Lulinha paz e amor” – personagem fictício cujo
falecimento, aliás, foi comunicado pelo próprio Lula, na mesma ocasião.
Lula nunca foi nem da paz nem do amor. Seu objetivo
é o poder pelo poder e, para alcançá-lo, trata a política como trincheira, onde
não há adversários a derrotar, mas inimigos a aniquilar. O petista quer o
quarto mandato não porque tenha algum projeto de governo para o Brasil – coisa
que ele próprio, aliás, foi sincero o bastante para a admitir no tal comício em
Salvador, quando disse que não quer ser mais o “presidente do Bolsa Família” e
que ele e o partido precisam “pensar num outro projeto para este país”. Lula
quer ser reconduzido à Presidência para continuar sua peleja particular contra
todos os que ousam contrariá-lo.
Há toda uma mitologia criada em torno de Lula para
retratá-lo como um gênio da política. O mensalão e o petrolão provam, contudo,
que a tal genialidade de Lula para arregimentar apoio sempre esteve lastreada
na capacidade dos governos petistas de comprar votos na base do dinheiro vivo e
do franqueamento das tetas do Estado aos interessados. Uma vez no poder, o PT
sempre abocanhou o filé mignon da administração, deixando ossos e sebo para os
aliados, impedindo a formação de uma verdadeira coalizão.
Nenhuma surpresa. Lula e o PT são incapazes de
reconhecer que outras forças políticas podem governar pelo bem do Brasil. Assim
que finalmente ganhou sua primeira eleição presidencial depois de três
tentativas, Lula rasgou a fantasia do “Lulinha paz e amor”, com a qual
ludibriou o eleitorado em 2002, e tratou de responsabilizar o governo de
Fernando Henrique Cardoso pelos problemas do país que lhe cabia governar,
acusando os tucanos de terem lhe deixado uma “herança maldita” – uma grossa
injustiça em relação a um governo que estabilizou a economia, acabou com a
inflação e foi exemplar na transição para o mandato de Lula, a despeito das
inúmeras agressões que sofreu dos petistas.
A invenção da “herança maldita” é, portanto, o marco
zero da guerra de Lula contra o Brasil que não é petista. Desde então, nunca
houve um instante de paz, e ninguém foi poupado da ira do PT – a insuspeita
Marina Silva, trucidada pela campanha de Dilma Rousseff na eleição de 2014, que
o diga.
O PT esteve no poder por quase 17 dos últimos 23
anos. Mesmo assim, Lula continua atribuindo a terceiros as crises que ele mesmo
alimenta. E agora vai investir no discurso segundo o qual ele será o candidato
contra o “sistema”, nome fantasia criado pelos populistas, à esquerda e à
direita, para caracterizar um suposto conluio de forças políticas, econômicas e
sociais que impediria o País de ser feliz. Para o petista, a política, que ele
frequenta há mais de 40 anos, “apodreceu” – e, claro, apenas ele e sua grei
permanecem puros e castos.
Eis então que Lula quer emplacar sua “narrativa
política” – de novo, conforme suas próprias palavras. Para resumir, o petista
considera que, se o eleitor levasse em conta somente as inúmeras realizações de
seu governo, a eleição já estaria ganha. Mas como esse eleitor, segundo Lula,
está sujeito às “mentiras” que a imprensa publica e a oposição comenta nas
redes sociais a respeito de sua gestão, então será necessário mostrar-lhe a
“verdade” – cujo monopólio Lula reivindica.
De novo, na guerra de Lula, não há disputa política,
isto é, não há contraste entre propostas para o País nem respeito por quem
pensa diferente. O que há é a caracterização dos adversários como inimigos do
Brasil. “Nós precisamos ganhar as eleições para consolidar a democracia no
País”, declarou Lula, sugerindo, mais uma vez, que sua derrota significará nada
menos que o fim da democracia.
A democracia não vai acabar se Lula perder a
eleição. Mas o Brasil certamente será um lugar consideravelmente pior se ele
ganhar.
Opinião do Estadão