A campanha de reeleição de Lula (PT) decidiu, nesta
quinta-feira (17), reforçar na propaganda eleitoral de TV uma tese que soa, no
mínimo, estranha: atribuir ao governo Bolsonaro — e, por extensão política, ao
candidato Flávio Bolsonaro (PL) — a responsabilidade pelo atual preço dos
alimentos no Brasil. É preciso dizer com clareza: isso é loucura. E loucura em
dois sentidos distintos, mas igualmente graves.
O primeiro problema é cronológico e elementar.
Flávio Bolsonaro nunca ocupou a Presidência da República. Nunca geriu política
agrícola, cambial, monetária ou de abastecimento. O preço da comida hoje, em
setembro de 2026, é fruto de decisões, choques externos e dinâmicas econômicas
do governo atual — o de Lula —, não de um mandato presidencial que Flávio
jamais exerceu. Culpar um candidato pelos preços vigentes durante a gestão do
adversário é uma inversão lógica tão flagrante que chega a ser cômica: é como
responsabilizar o goleiro reserva por um gol tomado num jogo em que ele nem
entrou em campo.
O segundo problema é estratégico e revela o
verdadeiro objetivo da peça: confundir o eleitor. Ao vincular a imagem de Jair
Bolsonaro à candidatura de seu filho — e simultaneamente chamar Flávio de
"mentiroso" sobre economia —, a campanha petista tenta transferir
para 2026 um debate que pertence a 2022. É uma jogada de marketing político,
não um argumento econômico sério. E o timing não é casual: acontece justamente
no momento em que Flávio avança nas pesquisas — 42% a 40% no levantamento
Quaest para o segundo turno — e tem centrado sua própria campanha em vídeos
gravados dentro de supermercados, apontando o preço das prateleiras como prova
do desgaste do governo atual.
Há, é claro, espaço legítimo para o debate sobre
inflação de alimentos, poder de compra e o mérito comparativo entre as gestões
de 2019-2022 e 2023-2026. A "fila do osso" foi real; os preços da
proteína e dos combustíveis hoje também são reais motivos de reclamação popular.
Mas colocar esse debate nas costas de um candidato que não teve poder de
decisão sobre política econômica nacional é, no mínimo, um exercício de
desonestidade argumentativa — e no máximo, uma tentativa de escapar do
escrutínio sobre a própria gestão presente, jogando luz sobre o passado do
adversário e sombra sobre o presente.
Ao mesmo tempo, a proposta de ampliar o teto de
faturamento do MEI para R$ 140 mil — hoje travado em cerca de R$ 81 mil — é uma
medida com mérito próprio, que dialoga com uma pauta real de
microempreendedores e trabalhadores por conta própria. Ela não precisa, e não
deveria, estar amarrada a uma acusação que não resiste ao teste mais básico dos
fatos: o de quem, de fato, governou o país quando os preços começaram a subir.
Se a disputa eleitoral vai se decidir no terreno
econômico — e tudo indica que sim —, o eleitor merece um debate honesto sobre
resultados concretos das duas gestões, não uma tentativa de misturar biografias
e mandatos para produzir um bode expiatório que, tecnicamente, nunca teve as
chaves do Palácio do Planalto.










