O ex-presidente do BRB (Banco de Brasília) Paulo
Henrique Costa usou dois empresários conhecidos na capital federal para que o
Banco Master e a gestora Reag se tornassem acionistas ocultos da instituição,
segundo a auditoria independente contratada pela atual administração.
O relatório dá novos detalhes da atuação de Costa
nos dois ACPs (aumento de capital privado) realizados entre 2024 e 2025 para
fortalecer o capital do BRB e, consequentemente, permitir a compra, em volume
bilionário, das carteiras falsas do Banco Master.
Pelas regras do primeiro ACP, apenas acionistas do
BRB poderiam participar da compra de novas ações. Para driblar o direito de
preferência, Costa procurou duas pessoas que já estavam habilitadas: o
influenciador digital Leonardo Ávila e o empresário Adalberto Valadão Júnior.
Leonardo Augusto Figueiredo Ávila é filho do
empresário Leonardo Oliveira de Ávila, dono da incorporadora Faenge,
vice-presidente da Ademi-DF (Associação de Empresas do Mercado Imobiliário do
Distrito Federal) e ex-presidente do Codese-DF (Conselho de Desenvolvimento
Econômico, Sustentável e Estratégico do Distrito Federal).
Já Adalberto Valadão Júnior, dono da empresa de
engenharia Soltec, é o atual presidente do Sinduscon-DF (Sindicato da Indústria
da Construção Civil do Distrito Federal).
Mensagens de WhatsApp e emails indicam que Costa se
envolveu diretamente no processo que levou para dentro do comando do BRB o
ex-banqueiro Daniel Vorcaro e pessoas ligadas a ele, antes mesmo da tentativa
de compra do Master no ano passado.
O ex-presidente, segundo o documento, fez uma
triangulação. Primeiro, solicitou o nome de pessoas físicas e jurídicas
habilitadas a participar do ACP inicial, de 2024.
Com os nomes em mãos, entrou em contato com os dois
empresários para que eles repassassem os direitos e as ações compradas aos
fundos de investimentos Borneo e Verbier, ligados ao Master e à Reag. Costa
também providenciou toda a documentação necessária, como os contratos de compra
e venda.
A auditoria também traz o print de mensagens em que
Costa diz à equipe técnica os nomes dos fundos e os quantitativos de ações, em
uma centralização decisória "anômala para operações dessa
envergadura", de acordo com a auditoria.
"Diante desse impedimento [participação direta
dos fundos no ACP], delineou-se uma arquitetura de triangulação claramente
irregular, pois buscava burlar o direito de preferência pré-estabelecido",
diz o relatório, assinado pelo escritório de advocacia Machado Meyer, com
suporte técnico da consultoria Kroll.
"A WNT Capital Distribuidora de Títulos e
Valores Mobiliários S.A. ("WNT DTVM"), administradora do Verbier,
transferiu recursos na monta de R$ 130 milhões em nome do sr. Adalberto
Valadão, enquanto o Borneo teria transferido o mesmo valor em nome do sr.
Leonardo Augusto. Ato subsequente, ocorreu a aquisição das ações por
eles."
O fundo Borneo tem como beneficiários finais os três
filhos de João Carlos Mansur, ex-dono da gestora de fundos de investimento
Reag, que acabou liquidada pelo Banco Central em 15 de janeiro.
O relatório aponta que o fundo Verbier (cujo nome
até 2024 era Cabreúva) pertence ex-sócio do Master Maurício Quadrado —o que ele
nega.
A auditoria independente aponta que, a partir da
operação, a participação de pessoas ligadas ao "ecossistema Master"
no BRB saltou de 0,0007%, no início de 2024, para 23,5%, no fim de 2025.
EMPRESÁRIOS NEGAM RECEBIMENTO DE DINHEIRO POR
REPASSE
A assessoria de imprensa do grupo de Ávila diz que a
cessão de direitos foi feita sem nenhum benefício pessoal, observando todos os
dispositivos legais, e que "não há —nem nunca houve— nenhuma relação
comercial, profissional ou de serviços com o Banco Master, Reag ou seus
acionistas investigados".
"O direito à subscrição no aumento de capital
do BRB foi assegurado a todos os acionistas [.]. Como não houve posterior
interesse em acompanhar esse maior volume de aumento de capital foi feita a
cessão do direito, gratuita e sem nenhum benefício pessoal, a outro interessado
em participar processo de capitalização do BRB."
"Sobre a transação: a cessão de direitos à
subscrição foi feita em documento do Banco Bradesco, custodiante à época, e
posteriormente o referido aumento de capital foi homologado pelo órgão
fiscalizador, Banco Central", afirma a assessoria de imprensa da família
do influencer.
A defesa de Valadão Júnior afirma que ele não teve
nenhum ganho financeiro com a operação, que está integralmente à disposição das
autoridades para prestar depoimento e que forneceu as informações à equipe
responsável pela auditoria independente contratada pelo BRB.
"As informações apresentadas na referida
petição não correspondem à realidade dos fatos, uma vez que não houve qualquer
ganho financeiro por parte de Adalberto na operação em questão. Ressalte-se,
ainda, que os devidos esclarecimentos já foram prestados, há algumas semanas,
diretamente à equipe responsável pela condução da auditoria interna no
BRB", diz a defesa.
A defesa de Quadrado nega que ela seja o
beneficiário do fundo Verbier. Em nota, o empresário afirma que a conclusão do
relatório "é totalmente equivocada, sem fundamentação técnica e não
corresponde à verdade dos fatos". Afirma ainda que não teve acesso ao
relatório e que, assim que possível, enviará todos os esclarecimentos para
corrigir as informações.
"Mauricio Quadrado não conhece o empresário
Adalberto Valadão e nunca foi cotista ou dono dos fundos Verbier e Cabreúva
—que, ao contrário do que diz o relatório, não são dois fundos que compartilham
o mesmo CNPJ e sim um fundo único que mudou de nome a partir de 2024 conforme
pode ser facilmente verificado nos registros da CVM", diz.
A defesa de Costa não quis se manifestar. O STF
(Supremo Tribunal Federal) manteve, na sexta-feira (24), a decisão do ministro
André Mendonça que mandou prender o ex-presidente do BRB no último dia 16. A
suspeita é de que ele tenha ocultado seis imóveis recebidos de Vorcaro como
propina.
A defesa de Vorcaro não quis se manifestar. A Reag
foi procurada na sexta por meio de sua assessoria de imprensa, mas não houve
resposta. O advogado de Mansur também foi procurado nesta sexta; não houve
resposta.
A auditoria independente foi entregue às
autoridades. O BRB acionou a Justiça para bloquear as participações acionárias
de todas as pessoas ligadas à Operação Compliance Zero. O juiz atendeu ao
pedido.
O banco, cujo principal acionista é o Governo do
Distrito Federal, tem dito que "vem atuando de forma proativa na defesa
dos interesses da companhia". Procurado na sexta, não respondeu.
Folha de São Paulo