O presidente argentino Javier Milei deu ao Brasil
razão suficiente para uma resposta firme. Veio ao País participar do lançamento
da candidatura de Flávio Bolsonaro e, ao lado do adversário de Luiz Inácio Lula
da Silva, chamou o presidente de “presidiário” e o ministro do Supremo Tribunal
Federal Alexandre de Moraes de “lixo careca”. O Itamaraty convocou o embaixador
Julio Bitelli e comunicou seu protesto ao representante argentino. Até aí,
defendeu uma fronteira elementar entre a disputa política brasileira e a
conduta esperada de um chefe de Estado estrangeiro em relação a autoridades
nacionais. Agora, o governo decidiu que Bitelli não voltará a Buenos Aires e
rebaixou a relação ao nível de encarregado de negócios.
As duas decisões brasileiras não se confundem. A
convocação registrava a gravidade da ingerência e oferecia uma resposta
proporcional, com espaço para a normalização. Manter o embaixador fora do posto
por tempo indeterminado exige uma justificativa adicional. O governo tem o
direito de pressionar Milei, mas o instrumento diplomático só faz sentido se
procurar modificar sua conduta. Até agora, Brasília não explicou o que espera
de Buenos Aires nem como saberá que a medida funcionou.
Milei deve pedir desculpas ou apenas abster-se de
novas intervenções partidárias? Quem avaliará o cumprimento de uma eventual
condição? Nenhuma resposta, nenhum prazo e nenhum critério de revisão foram
apresentados. A represália fica sujeita ao calendário eleitoral e às
provocações do presidente argentino. Cada novo ataque eleva o custo político de
Lula recuar; perto da eleição, o retorno de Bitelli poderá ser vendido como
capitulação. O governo criou para si uma posição da qual só consegue sair
pagando um preço definido por Milei.
Seria uma imprudência menor se estivesse em jogo uma
formalidade protocolar. A embaixada continua aberta, e os contatos técnicos
prosseguem, mas um encarregado de negócios não tem o acesso político nem a
autoridade de um embaixador para levar impasses aos centros de decisão. Essa
perda ocorre numa relação que dispensa dramatização para revelar sua
importância. A Argentina é um dos maiores mercados do Brasil, sobretudo da
indústria. Divergências comerciais e energéticas, muitas delas negociadas no
âmbito do Mercosul, às vezes requerem intervenção política.
O chefe de Estado brasileiro reduziu o acesso do
País em Buenos Aires. Seria um custo aceitável se houvesse um ganho
correspondente. Como Brasília não o identifica, a utilidade mais visível da
crise aparece na política doméstica. Milei oferece aos marqueteiros petistas um
antagonista ligado a Jair Bolsonaro e Donald Trump, conveniente para converter
Lula em um vingador da “soberania”. O argentino também lucra ao representar
Lula como líder do socialismo regional. Os dividendos são recíprocos, mas as
responsabilidades são distintas: Milei responde pela provocação, enquanto Lula
responde pelo emprego da representação brasileira numa disputa que rende mais
no palanque do que na diplomacia.
A invocação da soberania esbarra ainda na
seletividade malandra do lulopetismo. Lula visitou a ex-presidente argentina
Cristina Kirchner, então em prisão domiciliar por corrupção, sugerindo que ela
era vítima de perseguição política. Nem por isso a Argentina rebaixou a relação
do Brasil. Também apoiou o peronista Sergio Massa na eleição argentina de 2023
contra Milei. É evidente que isso não autoriza Milei a intervir na campanha
brasileira, mas mostra que Lula exige de um adversário a reserva que ele mesmo
dispensa diante de aliados.
O governo deveria devolver Bitelli a Buenos Aires.
Se entende que o afastamento serve ao País, deve declarar qual resultado
pretende alcançar, em que prazo o revisará e qual conduta argentina permitirá
encerrá-lo. Firmeza diplomática se mede pela proteção dos interesses nacionais,
não pela duração do protesto. Enquanto mantiver uma represália sem finalidade
pública, Lula concederá a Milei influência sobre o nível da representação
brasileira e reduzirá os instrumentos disponíveis para lidar com ele.
É bem claro como os interesses e o ego de Lula são
bem servidos pela represália. Como ela serve ao Brasil, é coisa que ninguém até
agora soube explicar.
Opinião do Estadão

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