A “Matemática de Mossoró”
Para além do volume financeiro, a decisão judicial
detalha o funcionamento interno do suposto esquema, descrito nas investigações
como a “Matemática de Mossoró”. O termo refere-se, segundo a investigação, a
uma suposta reserva fixa de valores ilícitos dos contratos de medicamentos e
falado pelos próprios investigados, conforme diálogos gravados ao longo do
inquérito.
De acordo com diálogos interceptados na sede da
Dismed e relatórios da Polícia Federal, o grupo operava com uma margem de 25%
de retorno sobre o faturamento. A partilha desse percentual era segmentada em
várias frentes, dentre as quais: 15% seriam destinados a um agente identificado
nas conversas como “Allyson” — que a investigação associa ao prefeito Allyson
Bezerra devido ao contexto e à proximidade com os empresários — e 10% seriam
direcionados a uma segunda pessoa, referida apenas como “Fátima”.
A investigação ilustra o suposto esquema com um
exemplo usado pelos alvos da operação. “Como visto acima, um dos diálogos mais
relevantes captados durante a interceptação ambiental diz respeito à divisão de
dinheiro, oriundo de pagamentos da Prefeitura de Mossoró. Ao descreverem esta
divisão, os seus locutores a denominam de ‘Matemática de Mossoró’”, apontam os
investigadores.
Etapas da Matemática de Mossoró,
conforme diálogos colhidos pela PF:
1.
“MOSSORÓ tem uma Ordem de Compra de
quatrocentos mil (R$ 400.000,00).”
2.
“Desses quatrocentos, ele entrega
duzentos (R$ 200.000,00)!”
3.
“Dos duzentos ele vai e pega trinta por
cento (30%), sessenta (R$ 60.000,00), então aqui ele comeu sessenta (R$
60.000,00)!”
4.
“Fica cento e quarenta (R$ 140.000,00)
pra ele entregar cem por cento (100%).”
5.
“Setenta com sessenta é meu, cento e
trinta (R$ 130.000,00).”
6.
“Só que dos cento e trinta nós temos que
pagar cem mil (R$ 100.000,00) a ALLYISON e FÁTIMA, que é dez por cento (10%) de
FÁTIMA e quinze por cento (15%) de ALLISSON.”
7.
“Só ficou trinta mil (R$ 30.000,00) pra
a empresa!”
Em nota, a defesa de Allyson Bezerra afirmou que não
há elementos que vinculem pessoalmente o prefeito às irregularidades
investigadas. Segundo os advogados, o mandado foi deferido com base em diálogos
envolvendo terceiros e não resultou em qualquer medida restritiva ao gestor.
“A investigação envolve contratos firmados entre
municípios e empresas fornecedoras de medicamentos, em diferentes entes
municipais, e não se confunde com a atuação pessoal do prefeito de Mossoró”,
diz o texto. A defesa ressaltou ainda que Allyson colaborou desde o primeiro
momento com as autoridades.
O prefeito de Mossoró ressaltou que, ainda em 2023,
editou um decreto municipal determinando que todos os medicamentos distribuídos
pela Prefeitura de Mossoró passassem obrigatoriamente pelo Sistema Nacional de
Gestão da Assistência Farmacêutica (Hórus), plataforma federal de controle e
rastreamento de insumos.
Tribuna do Norte

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