domingo, 1 de fevereiro de 2026

TANGARAENSE - ENTENDA: A “Matemática de Mossoró”

 


A “Matemática de Mossoró”

Para além do volume financeiro, a decisão judicial detalha o funcionamento interno do suposto esquema, descrito nas investigações como a “Matemática de Mossoró”. O termo refere-se, segundo a investigação, a uma suposta reserva fixa de valores ilícitos dos contratos de medicamentos e falado pelos próprios investigados, conforme diálogos gravados ao longo do inquérito.

De acordo com diálogos interceptados na sede da Dismed e relatórios da Polícia Federal, o grupo operava com uma margem de 25% de retorno sobre o faturamento. A partilha desse percentual era segmentada em várias frentes, dentre as quais: 15% seriam destinados a um agente identificado nas conversas como “Allyson” — que a investigação associa ao prefeito Allyson Bezerra devido ao contexto e à proximidade com os empresários — e 10% seriam direcionados a uma segunda pessoa, referida apenas como “Fátima”.

A investigação ilustra o suposto esquema com um exemplo usado pelos alvos da operação. “Como visto acima, um dos diálogos mais relevantes captados durante a interceptação ambiental diz respeito à divisão de dinheiro, oriundo de pagamentos da Prefeitura de Mossoró. Ao descreverem esta divisão, os seus locutores a denominam de ‘Matemática de Mossoró’”, apontam os investigadores.

Etapas da Matemática de Mossoró, conforme diálogos colhidos pela PF:

1.     “MOSSORÓ tem uma Ordem de Compra de quatrocentos mil (R$ 400.000,00).”

2.     “Desses quatrocentos, ele entrega duzentos (R$ 200.000,00)!”

3.     “Dos duzentos ele vai e pega trinta por cento (30%), sessenta (R$ 60.000,00), então aqui ele comeu sessenta (R$ 60.000,00)!”

4.     “Fica cento e quarenta (R$ 140.000,00) pra ele entregar cem por cento (100%).”

5.     “Setenta com sessenta é meu, cento e trinta (R$ 130.000,00).”

6.     “Só que dos cento e trinta nós temos que pagar cem mil (R$ 100.000,00) a ALLYISON e FÁTIMA, que é dez por cento (10%) de FÁTIMA e quinze por cento (15%) de ALLISSON.”

7.     “Só ficou trinta mil (R$ 30.000,00) pra a empresa!”

 A engrenagem do suposto esquema em Mossoró contava, segundo a decisão, com “contatos de confiança” dentro da estrutura administrativa. A investigação reforça que a operação não poderia acontecer sem a participação ativa ou omissão deliberada de vários servidores da pasta.

Em nota, a defesa de Allyson Bezerra afirmou que não há elementos que vinculem pessoalmente o prefeito às irregularidades investigadas. Segundo os advogados, o mandado foi deferido com base em diálogos envolvendo terceiros e não resultou em qualquer medida restritiva ao gestor.

“A investigação envolve contratos firmados entre municípios e empresas fornecedoras de medicamentos, em diferentes entes municipais, e não se confunde com a atuação pessoal do prefeito de Mossoró”, diz o texto. A defesa ressaltou ainda que Allyson colaborou desde o primeiro momento com as autoridades.

O prefeito de Mossoró ressaltou que, ainda em 2023, editou um decreto municipal determinando que todos os medicamentos distribuídos pela Prefeitura de Mossoró passassem obrigatoriamente pelo Sistema Nacional de Gestão da Assistência Farmacêutica (Hórus), plataforma federal de controle e rastreamento de insumos.

Tribuna do Norte

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