Fernando Azevêdo
Repórter
O Rio Grande do Norte liderou o ranking de estados
com maior prejuízo devido ao curtailment – os cortes de geração determinados
pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) – em 2025. A restrição
significou um prejuízo estimado em até R$ 2,24 bilhões aos geradores de
renováveis no RN, considerando preços de contrato, segundo dados da consultoria
Volt Robotics. Em seguida, aparecem Bahia (R$ 1,76 bilhão) e Ceará (R$ 849,73
milhões).
Proporcionalmente à sua capacidade de geração, o RN
foi o terceiro estado que mais perdeu energia renovável no ano, quando teve 24%
de cortes em parques eólicos e usinas fotovoltaicas, atrás de Minas Gerais
(27,4%) e Ceará (25,8%). Na prática, isso significa que a cada 100 MWh que
poderia gerar, o RN produziu 86 MWh. Para especialistas, o resultado não
surpreende, mas preocupa.
A Volt Robotics aponta que houve cortes de 11,27
milhões de MWh no RN no ano passado. A energia eólica responde por cerca de
92,79% desse total (10,45 milhões de Mwh), e a fotovoltaica, 7,21% (0,81
milhões de MWh).
Considerando o PLD (preço de liquidação das
diferenças), o RN teve R$ 1,88 bilhão em prejuízos. Conforme explica a Volt
Robotics, a diferença entre os dois valores é que o cálculo por contrato traz
“o valor do prejuízo calculado com base no preço do contrato de venda de
energia que o gerador deixou de entregar por causa do corte”. Na prática,
reflete a perda econômica “cheia” do gerador, aquilo que ele esperava faturar.
Já o PLD é o mesmo corte, mas calculado pelo preço
de curto prazo do mercado – isto é, quanto a perda significou naquele momento.
Em períodos de sobra de energia, o PLD tende a ser baixo. “Logo, o prejuízo
calculado por PLD fica menor. Ele mostra o custo sistêmico, não necessariamente
o prejuízo contratual”, diz a Volt.
Os dados da consultoria indicam que o Brasil perdeu
cerca de 20% de energia renovável que poderia gerar em 2025 e registrou um
impacto de R$ 6,5 bilhões no setor de renováveis devido aos cortes, valor 195%
superior a 2024, quando o impacto foi de R$ 2,2 bilhões.
Curtailment
O curtailment é determinado pelo ONS e ocorre
especialmente em dois cenários: quando a energia produzida é superior ao
consumo e quando as linhas de transmissão não conseguem escoar a energia que
seria produzida. Nesses contextos, o ONS determina o desligamento ou a redução
de potência da usina, para gerir a energia em excesso.
De acordo com o ONS, o curtailment “é uma realidade
estrutural em países com alta participação de renováveis” e uma “medida técnica
necessária para preservar a segurança e a confiabilidade do Sistema Interligado
Nacional (SIN)”.
Especialistas afirmam que o problema é estrutural,
pois a expansão das renováveis não foi acompanhada por melhorias no escoamento
da energia produzida. Dessa forma, há um descompasso que obriga o operador a
limitar a geração.
Para Darlan Santos, presidente do Centro de
Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), os cortes não surpreendem
quem acompanha a evolução do problema. “Acompanhamos isso com preocupação, mas
não tínhamos uma expectativa diferente. O RN é um dos estados mais afetados,
porque é um dos que têm a maior quantidade de projetos [de geração de energia
renovável], na região e no país”, explica.
Ele alerta que o problema ameaça investimentos no
estado e afirma que 2026 não parece trazer perspectivas de melhoria. “Por mais
que tenha tido ações importantes no final do ano passado, a exemplo do leilão
da rede de transmissão e da compra de alguns equipamentos para melhorar a rede,
essas ações de infraestrutura não são construídas em curtíssimo prazo”,
acrescenta.
O secretário-adjunto de Desenvolvimento Econômico do
RN, Hugo Fonseca, avalia que o momento é de “transição com acomodação de
mercado” no setor, após anos de altos investimentos. “Tem um momento de pico e
também um momento de acomodação, que é o que o mercado está vivendo agora. Há
excesso de projetos que estão gerando energia”, diz.
Fonseca cita os leilões anunciados em 2025, que
preveem ampliação e melhorias nas linhas de transmissão do RN, como ações para
mitigar o curtailment. Ele reconhece que melhorias de infraestrutura, no
entanto, levam tempo para se concretizar.
Relatório da Volt Robotics afirma que o curtailment
reduz a receita para projetos de energia já existentes e a demanda aos
fabricantes de equipamentos, além de aumentar o risco para financiamentos e a
incerteza para novos investimentos.
“Hoje convivem: crescimento acelerado das
renováveis, expansão explosiva da geração distribuída, gargalos de transmissão,
padrões de consumo em mudança e ausência histórica de sinal econômico claro
sobre quando consumir”, diz o relatório da Volt.
A Associação Brasileira de Energia Eólica
(ABEEólica) avalia que o cenário de cortes de geração em 2025 “reforça que o
Brasil enfrenta um problema estrutural no aproveitamento pleno da energia
renovável já instalada. Os curtailments decorrem principalmente de gargalos de
transmissão, restrições operativas do sistema e da inserção massivamente
subsidiada de MMGD [micro e minigeração distribuída]”.
Na visão da Associação Brasileira de Energia Solar
Fotovoltaica (Absolar), empreendedores e investidores “estão sendo duplamente
prejudicados pelos cortes de geração: impedidos de entregar sua energia limpa e
competitiva […] e obrigados a arcar com os custos dos cortes, feitos em
benefício do sistema e em prol de todos os consumidores”.
Medidas de mitigação
A Absolar defende “que o planejamento da transmissão
caminhe de forma alinhada com a expansão da geração”. “Também é preciso investir
em soluções de armazenamento e integração de grandes cargas, como os data
centers e as plantas de hidrogênio verde”, diz a entidade, citando a previsão
de um leilão de reserva de capacidade para baterias no primeiro semestre de
2026.
Hugo Fonseca concorda que o leilão será uma
oportunidade para mitigar os cortes. “Na hora que estiver gerando energia, esse
excedente vai ser todo armazenado em baterias. Provavelmente os conjuntos de
baterias vão ficar dentro dos parques, e na hora que tiver pico de consumo, [o
gerador] pode jogar essa energia no sistema e compensar essas perdas”, explica.
Ele diz que o Governo do Estado preparou uma norma
para regulamentar os sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS),
que deve ser apreciada pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente entre o fim
deste mês e o início de março.
Já a ABEEólica afirma que é preciso regulamentar os
mecanismos de compensação dos cortes de geração previstos na Lei nº
15.269/2025, que ainda estão em discussão no setor após vetos do presidente
Lula a artigos da legislação; reequilibrar as regras de alocação de custos e
responsabilidades entre os diferentes tipos de geração; e acelerar soluções
estruturais.
Limite crítico por excesso de ofertas
O sistema elétrico brasileiro registrou o salto de
um para 16 dias de operação em limite crítico de segurança por excesso de
oferta em 2025, impulsionado pelo crescimento acelerado das renováveis, segundo
a Volt. Esse cenário forçou o ONS e a Agência Nacional de Energia Elétrica
(Aneel) a adotarem medidas como a estruturação de um plano emergencial.
A Aneel afirma que promoveu discussões com o setor
acerca do aprimoramento da regulamentação sobre o tema, o que resultou, por
exemplo, na Lei nº 15.269/2025, que traz um item relativo ao ressarcimento por
cortes de geração. “O tratamento do passivo encontra-se em regulamentação no
Ministério de Minas e Energia”, esclarece.
Darlan Santos pontua que a compensação financeira
“alivia” a questão econômica, mas é preciso avançar em infraestrutura para que
o problema não persista. Hugo Fonseca estima que as obras previstas devem
entrar em operação por volta do ano de 2030, o que deve trazer segurança para
novos leilões e novas contratações de energia.
Cortes por fonte de energia
A Absolar aponta que a prevalência de cortes nos
estados com maior capacidade instalada já era esperada. Na fonte solar
fotovoltaica, os estados líderes em capacidade instalada de usinas solares de
grande porte são Minas Gerais, com 8,2 GW, seguido por Bahia, com 2,6 GW e
Piauí, com 2,4 GW.
Já o Rio Grande do Norte liderou os cortes na fonte
eólica, seguido por Bahia e Ceará, e foi o quarto estado em índice de cortes na
energia solar.
O RN tem capacidade instalada na fonte eólica de
10,6 GW, e de 1,5 GW na fonte solar. Juntas, elas somam 97,61% da capacidad e
em operação no RN, segundo boletim da Secretaria de Estado do Desenvolvimento
Econômico (Sedec-RN).
NÚMEROS
Ranking de cortes por contrato em 2025
RN: R$ 2.243.123.173
BA: R$ 1.759.893.080
CE: R$ 849.735.232
MG: R$ 778.174.095
PI: R$ 504.602.495
PE: R$ 167.772.352
PB: R$ 84.051.464
RS: R$ 57.816.619
SP: R$ 49.330.083
MA: R$ 36.354.637
SC: R$ 2.158.936
Total: R$ 6.533.012.167
Ranking de cortes valorados pelo PLD*
RN: R$ 1.880.766.619
BA: R$ 1.091.464.548
MG: R$ 677.834.251
CE: R$ 412.665.372
PI: R$ 349.400.667
PE: R$ 122.467.885
PB: R$ 68.148.001
SP: R$ 27.331.734
RS: R$ 22.238.251
MA: R$ 16.845.197
SC: R$ 2.159.065
Total: R$ 4.671.321.590
*O ranking usa o Preço de Liquidação das Diferenças
(PLD) para valoração
Cortes de energia em 2025
RN: 11.268.033 MWh
BA: 10.332.659 MWh
MG: 4.822.717 MWh
PI: 3.378.468 MWh
CE: 3.039.832 MWh
PE: 1.050.934 MWh
PB: 634.640 MWh
SP: 308.369 MWh
RS: 254.401 MWh
MA: 188.065 MWh
SC: 24.805 MWh
Total: 35.302.923 MWh
Fonte: Volt Robotics

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