Lula venceu a eleição sem prometer um ajuste fiscal
de grandes proporções, sem apresentar um plano para conter o crescimento das
despesas obrigatórias e sem fazer concessões ao mercado financeiro. Não seria
razoável, portanto, exigir que, uma semana depois de sua vitória, anunciasse
uma guinada radical na política econômica. Mas seria igualmente equivocado
interpretar o resultado das urnas como um aval para atravessar o quarto mandato
sem mudanças relevantes nessa área.
A vitória de virada sobre Flávio Bolsonaro, inédita
em eleições presidenciais brasileiras, não apaga um fato: o petista esteve
muito perto de encerrar sua carreira política com uma derrota. A rejeição ao
adversário, o peso de sua biografia e a mobilização de múltiplos grupos da
sociedade na última hora foram decisivos para reverter o quadro. Nada disso
autoriza a conclusão de que os eleitores aprovaram, em bloco, a condução da
economia nos últimos quatro anos.
Passada a comemoração, Lula não demonstra pressa em
dissipar as dúvidas sobre os rumos do novo governo. A escolha do ministro da
Fazenda virou uma espécie de bolsa de apostas, com nomes que vão do atual
titular, Dario Durigan, ao governador do Piauí, Rafael Fonteles, passando pelo
vice-presidente Geraldo Alckmin. A profusão de candidatos diz menos sobre a
qualidade de cada um que sobre a indefinição de quem terá a palavra final. Lula
resiste a antecipar a escolha por considerar que isso equivaleria a ceder à
pressão de um mercado que sempre lhe foi hostil. Tem dito a interlocutores que
pretende ter mais voz na condução da economia em seu último mandato — o que
aumenta, e não reduz, as tensões.
A política econômica não interessa apenas a
investidores e banqueiros. Seus efeitos alcançam empresas que precisam de
crédito, famílias endividadas e trabalhadores que dependem da continuidade do
crescimento para manter empregos e melhorar sua renda. Enquanto o presidente
administra seu próprio tempo, Durigan tenta conter a ansiedade dos agentes
econômicos. Ontem, reiterou o compromisso com um ajuste gradual, que preserve
as promessas de campanha e não penalize os mais pobres. Também afastou a
hipótese de tabelamento dos juros defendida por André Lara Resende. São sinais
importantes, mas ainda insuficientes para esclarecer como o governo pretende
estabilizar a trajetória da dívida pública.
A indefinição já produz consequências. O Comitê de
Política Monetária pode interromper hoje o ciclo, já lento, de redução dos
juros. A Selic está em 13,75% ao ano, patamar que encarece o crédito, dificulta
investimentos e compromete o próprio crescimento que Lula deseja preservar.
Seria injusto atribuir ao governo toda a responsabilidade pela reação dos
mercados. A aposta em bloco numa vitória de Flávio mostra a visão de curto alcance
desse setor, além de sua falta de preocupação com outros fatores, como a
institucionalidade e a preservação da democracia.
Mas tampouco é possível tratar toda a deterioração
das expectativas como chantagem de especuladores. Há problemas fiscais concretos
que não desaparecerão porque o presidente conquistou mais quatro anos. O ajuste
necessário não deve reproduzir o programa derrotado nas urnas, nem é razoável
imaginar que Lula vá, na saideira, comprometer as políticas públicas que criou
e que, em grande medida, ajudaram na sua virada. Mas é incontornável enfrentar
a expansão das despesas obrigatórias, rever gastos pouco eficientes e
estabelecer prioridades compatíveis com os recursos disponíveis. A opção por
recorrer continuamente a novas receitas já se esgotou no atual governo.
Lula deveria aproveitar o início do mandato para
tomar decisões mais difíceis. A armadilha será imaginar que a mobilização nas
ruas lhe dá lastro para seguir gastando como se não houvesse amanhã. Se
pretende deixar como legado um país com crescimento sustentável e menor
desigualdade, terá de reconhecer que a responsabilidade fiscal não é uma
imposição do mercado, mas uma condição para preservar suas próprias conquistas
sociais.
Vera Magalhães - O Globo

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