Um dia após ser reeleito, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva recebeu, no Palácio da Alvorada, os presidentes da Câmara dos
Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre
(União-AP). Na ocasião, Lula lhes prometeu os votos do PT para que sejam
reconduzidos aos cargos, em fevereiro de 2027. Ato contínuo, a federação
União-PP anunciou o mesmo apoio a Alcolumbre.
Até aí, é jogo jogado. O problema é que Alcolumbre
provavelmente não ganhou esses apoios por ser bonito, e sim porque, entre
outras razões, já deu provas mais que suficientes de sua disposição de impedir
que prosperem pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal
Federal (STF). Ademais, enquanto não soubermos exatamente o que Alcolumbre,
Lula e Alexandre de Moraes discutiram em jantar fora da agenda, na casa do
enrolado ministro do STF, em agosto passado, somos autorizados a tirar as
piores conclusões.
Se Alcolumbre for reconduzido com a missão de salvar
ministros do STF, e temos poucas razões para não acreditar nisso, será um
escândalo: vários desses ministros, a começar pelo anfitrião do tal jantar com
Lula e Alcolumbre, deveriam pelo menos ser investigados porque figuram como
envolvidos no escândalo do Banco Master, e no entanto foram blindados por um
STF incapaz de cortar na própria carne para estancar a crise de credibilidade e
legitimidade em que se enfiou.
É exatamente para casos como esses que o impeachment
existe. E inúmeros senadores eleitos neste ano ganharam muitos votos porque
prometeram a seus eleitores que vão se empenhar para afastar os ministros
encalacrados. Ou seja, o impedimento de integrantes do STF tornou-se bandeira
eleitoral, e por culpa exclusivamente da forte sensação de impunidade que emana
daquela Corte.
Ora, a Constituição e a Lei 1.079/1950 confiaram ao
Senado o julgamento de ministros do STF por crimes de responsabilidade, mas não
confiaram a seu presidente o poder de decidir, sozinho, que tais crimes jamais
serão processados sob seu comando. O juízo de admissibilidade existe para
barrar pedidos de impeachment sem fundamento, não para transformar a toga em
salvo-conduto. Tão ou mais grave do que isso é submeter esse juízo aos
interesses particulares do ocupante de ocasião da cadeira.
Convém lembrar que os ministros do STF não se
submetem a voto popular, permanecem no cargo até os 75 anos e são julgados, em
caso de prática de crimes comuns, pelos próprios pares. O impeachment é o único
freio externo que a Constituição prevê para retirar da Corte aqueles que já não
reúnem as condições éticas para exercer a magistratura. São os casos de Dias
Toffoli, Alexandre de Moraes e Nunes Marques, sobre os quais pairam suspeitas
graves de associação com Vorcaro.
A ação do Senado para resguardar o melhor interesse
do País ganha ainda mais força à luz do espírito de corpo que impera na Corte,
como se depreende daquela ignominiosa sessão do tribunal em 15 de setembro, que
travou o pedido de investigação de Alexandre de Moraes, suspeito de atuar como
consultor do banqueiro por meio de um contrato milionário firmado entre o Banco
Master e o escritório de advocacia de sua mulher.
Alcolumbre, ademais, não parece ser um árbitro
neutro no exercício do juízo de admissibilidade. Recorde-se que ele mesmo
figura indiretamente no escândalo do Master, porque uma vultosa soma de
recursos da Amapá Previdência, dirigida por aliado do presidente do Senado, foi
aplicada temerariamente nos papéis podres do banco de Daniel Vorcaro. Logo,
proteger Moraes e outros ministros do STF significa manter fechadas algumas
portas investigativas que, em tese, poderiam levar até ele.
Que fique claro: não se trata aqui de entregar o STF
à sanha dos bolsonaristas que enxergam o impeachment como instrumento de
vingança. Trata-se de exigir que o Senado, como manda a Constituição, examine
cada pedido à luz das leis e dos graves indícios que pesam contra determinados
ministros.
É inaceitável que a mera hipótese de abertura de um
processo de impeachment seja rejeitada peremptoriamente por um presidente do
Senado que parece interessado no festim da impunidade. E, se o preço da
governabilidade for a imunidade de ministros do STF sob suspeita, Lula será o
avalista dessa pizza indecente.
Editorial Estadão

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